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domingo, 10 de agosto de 2025

Esquecidos (20)

 

Só não gostei que o fulano autor se tivesse esquecido de falar, no livro, dos bichinhos (camaleões). Que, ainda nos anos 90 do século passado, tinham a sua mancha activa algarvia maior na mata de Monte Gordo. Há esquecimentos que só revelam ignorância ou falta de sensibilidade.



domingo, 16 de fevereiro de 2025

Esquecidos (19)

 

Por mero acaso, cruzou-se comigo o nome e memória de José Terra (1928-2014), poeta discreto que passou grande parte da sua vida em França, e aí faleceu. Professor universitário e investigador, os seus versos eram apreciados, por cá, no meio literário dos anos 60/70 e não só. Da obra Espelho do Invisível (1959), transcrevemos um soneto, a lembrá-lo.

XI

Ao amanhecer todos os anjos morrem
sufocados de luz  e, sós, os homens
circulam, sôfregos do tempo,
abrindo o espaço como ferida aonde

os joelhos se quebram de fadiga
e a náusea intérmina da vida
só o movimento a esquece, a dissimula.
Engrenagem viva a que o intervalo

de passo a passo é único repouso.
À noite, buscam-nos de novo
e os anjos regressam do obscuro

com as flores mirradas e tardias
e um pranto retido como um rio
e um olhar profundo e desolado.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Esquecidos (18)

 

Soube, há pouco tempo, que um colégio lisboeta de referência, em relação à literatura portuguesa do século XIX, incluia no seu programa escolar apenas o estudo de Eça de Queiroz. Quanto ao século XX são contemplados unicamente Pessoa e Saramago. O panorama  público de ensino não será muito diferente... Perde-se assim um enquadramento e contexto temporal e cronológico de autores, bem como se soterram no esquecimento a maioria dos escritores nacionais. Mas creio que também Teixeira de Pascoaes (1877-1952), um mal-amado, nunca pertenceu ao cânone português das escolas. Muito embora tivesse merecido importantes estudos de Jacinto do Prado Coelho, Jorge de Sena, Mário Martins, Alfredo Margarido, entre outros ensaístas.
Prado Coelho refere a infância como sendo o tema central na sua obra poética, eu optaria antes pela temática da morte como omnipresente nos seus versos. Não sendo um modernista, a poesia de Pascoaes retém acentos de algum romantismo e, sobretudo, sinais de um simbolismo original e panteísta que difere muito do estilo da obra excessivamente marcada e artificiosa de Eugénio de Castro (1869-1944).
Como contributo de lembrança, aqui deixo um poema de Terra Proibida (1899):

Hora Final

Aí vem a noite... Sente-se crescer...
E um silêncio de estrelas aparece.
Quem é, quem é, meu Deus, que empalidece
E se cobre de cinzas, no meu ser?
Alma que se desprende numa prece...
Que suave e divino entardecer!
Como seria bom assim morrer...
Morrer, como a paisagem desfalece,
Morrer quase a sorrir, devagarinho.
Ser ainda do mundo pobrezinho
E já pairar, sonhando, além dos céus,
Morrer, cair nos braços da ternura;
Morrer, fugir, enfim, à morte escura,
Sermos, enfim, na eterna paz de Deus!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Esquecidos (16)

 

Penso que a obra de João Guimarães Rosa (1908-1967), por cá, esteja relativamente esquecida e esgotada, embora já tivesse tido, em tempos, alguns fiéis leitores, daqueles que valorizam a riqueza lexical dos textos de ficção. Quero crer e espero que, no Brasil, o grande escritor de Cordisburgo continue a ser lido e estudado, como merece.



Repeguei, há dias, em Tutaméia (1967), como às vezes faço, pois é dos livros de Rosa de que mais gosto, e fui reler os "Prefácios", donde resolvi transcrever alguns pequenos excertos, para o relembrar, por aqui, e ao seu sentido de humor:

- O ar é o que não se vê, fora e dentro das pessoas.
- O avestruz é uma girafa; só o que tem é um passarinho.
- Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B.
- Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo.
- O livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Esquecidos (15)



Intermitentemente, ando a ler, com agrado, Ensaios de Domigo II (Editorial Inova, 1974). O seu autor, Mário Sacramento (1920-1969), médico e político, foi também um ensaísta e crítico literário de mérito original, e, ainda que ideologicamente alinhado, não deixava transparecer os aspectos políticos do seu pensamento, mantendo uma grande isenção nos textos literários que escrevia. 
O livro referido abrange recensões críticas a obras de 48 autores portugueses, anteriormente aparecidas em revistas e jornais, incluindo nove poetas. Dos restantes 39 prosadores cheguei à conclusão, com tolerância e alguma complacência, que 10 dos autores estavam bastante, se não totalmente, esquecidos. Vou nomeá-los: Aleixo Ribeiro, Antunes da Silva, Bento da Cruz, Castro Soromenho, Clara D'Ovar, Faure da Rosa, Manuel Mendes, Mário Braga, Nelson de Matos e Vasco Branco. Nos anos 60/70 eram escritores falados, conhecidos e lidos. Muitos deles, há muito que nem sequer são reeditados.
E será que Mário Sacramento, hoje, ainda será conhecido e lido? Deixem-me duvidar, infelizmente...

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Esquecidos (14)



Ouvi, ao vivo, pela primeira vez João José Cochofel (1919-1982) em Coimbra, no início dos anos 60, num colóquio promovido pela AAC, mas na qualidade de ensaísta. Como poeta, foi Mário Castrim (1920-2002) quem me chamou a atenção para o belo início do poema Quasi um epigrama:

Adolescentes que vão pelos caminhos,
tão seguros de si
e tão sòzinhos!
(...)

Lírico discreto, Cochofel, em poemas minimalistas de singular sensibilidade, teve alguma projeção, bem merecida, enquanto foi vivo, mas hoje, infelizmente, está muito esquecido.
Aqui deixo a imagem de uma dedicatória do seu livro Quatro Andamentos (1966) e ainda um poema dessa obra, do meu exemplar que tinha sido oferecido e pertencera, anteriormente, a Urbano Tavares Rodrigues e Mª Judite de Carvalho.



XIII

Canta, ó amargura,
grilo fértil do tempo.
Canta sem cessar
pela noite dentro.

Não fere os ouvidos,
cantiguinha mansa.
Rói na clausura
a alface da esperança.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Esquecidos (13)



Humanamente, não podemos lembrar toda a gente. Nem mesmo todos aqueles poetas de que gostamos. Porque a memória também tem os seus limites e fará, inconscientemente, as suas opções naturais. 

Por um tempo pequeno, tropeçamos
contra os restos do tempo. Acaso indícios.
Horizontais ao tempo. Por um tempo
de focinho mais baixo do que bichos.

Ora, eu tenho uma pequena dívida de gratidão para com o poeta José Augusto Seabra (1937-2004), mas não vale a pena contá-la em pormenor. Acresce que dois dos meus maiores amigos, que com ele privaram profissionalmente, ainda hoje o consideram o melhor ministro de Educação (1983-1985) com quem lhes foi dado trabalhar.
Aqui o lembro, portanto.


domingo, 5 de fevereiro de 2023

Esquecidos (12)



Do século XVIII português, tirando os poetas que integravam os antigos manuais escolares (e nem todos) ou de primeira linha literária (Correia Garção, Cruz e Silva, Nicolau Tolentino e Bocage), a maioria dos restantes, ainda que estimáveis, desapareceu na voragem do tempo e da memória. Está neste caso, o portuense Bernardo António de Sousa ( 1758-1791? 1797?) que, por ser padre e secretário do Bispo do Porto e os seus versos serem profanos, adoptou o pseudónimo de Belmiro, Pastor do Douro para não ter problemas com a censura e a religião. Era um amante de rios (Leça, Vouga, Tejo, Mondego, além do Douro, surgem nos seus poemas) e de pastoras, ainda que talvez platonicamente, e não de forma tão crua como o Abade de Jazente (1719-1789) fez com a sua Nize (Inês da Cunha), de carne e osso, e algo caprichosa como referem alguns dos seus sonetos.



Os versos do eclesiástico Bernardo A. de Sousa eram suaves e brandos, gozando da estima dos leitores, como atestam as três (ou 4?) edições das suas poesias, maioritariamente sonetos e odes. Cite-se do II tomo, a páginas 51, literalmente e em grafia da época, este soneto de raiz conimbricense:

No tempo em que as travêssas Lavandeiras
Molhando a branca roupa no Mondego,
Estão com natural desassocego
Entoando modinhas Brasileiras;

Sentado sobre a Ponte horas inteiras
As escuto feliz, e com socego:
A dôr foge de mim, e até não chego
A sentir o grilhão de vis canceiras.

Suspende o meu tyrannico Destino
As funestas idéas, que supporto,
Nem nas próprias desgraças imagino.

Tão embebido fico e tão absorto,
Que não me lembra ao menos, bom Jozino,
Que estou, ha quasi hum mez, fóra do Porto.
 

Os meus dois volumes dos Versos de Belmiro... são da segunda edição, impressa em 1814, tendo havido uma terceira, rolandiana (1825), a que um sobrinho (António Vicente de Carvalho e Sousa) do poeta  portuense viria a acrescentar, mais tarde, um 3º volume, creio que de inéditos.
Quem se lembrará hoje de Belmiro?

sábado, 24 de setembro de 2022

Esquecidos (11)



Se gosto de pensar que, como poeta, Vitorino Nemésio (1901-1978) ainda é lido e apreciado, tenho grandes dúvidas que como prosador seja muito frequentado, hoje em dia. Como contista ou romancista, o autor açoriano, do ponto de vista de riqueza vocabular, está muito próximo de Camilo ou de Aquilino.
De fazer inveja aos plumitivos de agora, que são muito poupados quanto a dicionários e seu uso.
Fortuitamente, reli recentemente o segundo conto (I'm very well, thank you!) do livrinho, em imagem, da colecção Mosaico. São apenas 8,5 páginas de prosa, mas por lá encontrei 11 palavras que deconhecia. Fazendo uso de vários dicionários, consegui deslindar 7 palavras. Ficaram-me porém ainda 4 vocábulos por decifrar. 
Que aqui vão, para quem souber:
1. trancador
2. papejar
3. areúscos
4. estreloiço.
Serão regionalismos açorianos? É o que fiquei por saber...

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Esquecidos (10)


 

Imagens de um Inverno indocumentado

A vida tem lágrimas pesadas como árvores...
A sombra avança no atalho como um formigueiro.
Tuas pernas estão vermelhas de frio na paragem do eléctrico.

Felizmente existe a noite e a tua chegada.
O anjo estático não é mais do que um boneco de pedra.
O calor da tua boca reinventa o estio.


Egito Gonçalves (1920-2001), in O Pêndulo Afectivo (1991).

sexta-feira, 25 de março de 2022

Esquecidos (9)



Esta súmula de afectos que a memória perpetua, habitualmente, torna-se com o tempo um local de romagem virtual e oásis gratificante a que recorremos em momentos de tédio, dúvida ou solidão pessoal. Podem ser imagens ou palavras, cheiros e sabores, geografia de lugares amenos. Ou apenas nomes. Ancoradouros seguros, no tempo incerto.



António Mega Ferreira resolveu, e muito bem, no penúltimo JL (nº 1342), trazer-nos à lembrança o multímodo escritor e divulgador cultural português-santomense Mário Domingues (1899-1977), figura bem conhecida de quem lia e se interessava pela História de Portugal, em meados do século passado. Mas também autor de policiais, sob vários pseudónimos.



Creio que Mário Domingues está hoje relativamente esquecido, e não o merecia. Suponho que actualmente não há livros de qualidade semelhante e de propagação histórica aos que a Romano Torres editou, para a juventude, da sua autoria, em meados do século passado. Que, além de fidedignos quanto aos factos, eram bem escritos. E que eu li com tanto agrado e entusiasmo, na minha adolescência.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Esquecidos (8)

 

Não terei mais do que dois livros de poemas de Eugénio de Castro (1869-1944). Lente da Universidade de Coimbra, e monárquico, simbolista a princípio e depois poeta neo-clássico, no final de vida. Os seus versos sempre me pareceram forçados, uma espécie de próteses rimadas (e isto hoje usa-se muito, entre os poetastros de moda...) com jeito e erudição bastantes de um autêntico cultor clássico. Muito embora, ainda nos anos 60 do século passado, as suas obras se vendessem bem, entre os amantes de poesia. Hoje, talvez imerecidamente olvidado (perante tanta mediocridade poética que se publica) se justificasse que não o esquecéssemos de todo...
Aqui dou, por isso, o meu modesto contributo.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Esquecidos (7)



Tenho uma certa dificuldade em avaliar com isenção os pergaminhos, como escritora, de Irene Lisboa (1892-1958). Mas recordo-me que dos seus livros diziam que era mais incensada pela crítica literária do que frequentada pelos leitores, ainda que os tivesse fiéis. Por outro lado, lembro-me bem de alguém que, numa altura difícil de vida, a lia repetidamente, e a citava em profusão, sobretudo excertos de Solidão, na versão da Portugália (1965). 



Creio que posso afirmar que, hoje, Irene Lisboa está profundamente esquecida. O seu intimismo discreto não se compagina com as estridências dos dias presentes. E até a sua própria poesia, um pouco na estirpe da de Casais Monteiro, e que me surpreendeu favoravelmente (já nos anos 90), terá talvez uma distanciação áspera em relação aos cultores potenciais.



Fique porém o nome de Irene Lisboa, nesta temática ingrata que o tempo foi cavando e eu aqui dou conta no Arpose, de vez em quando, para contrariar os desamores...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Esquecidos (6)



Na minha opinião, e de forma ligeira, foi um ar que lhes deu. Escritores neo-realistas, tão populares e lidos, nos anos 50, 60, 70 do século passado estão hoje sepulcralmente esquecidos. Das novas gerações, quem se lembrará (e menos lerá...) de José Loureiro Botas, J. Marmelo e Silva, Faure da Rosa, Leão Penedo, Romeu Correia, Ferro Rodrigues, Fernando Lopes... Escapam Alves Redol, Carlos de Oliveira (que inflectiu a sua obra, e bem) e talvez Fernando Namora, que a Bertrand lá vai reeditando.

Estar na moda e ancorado excessivamente no presente tem os seus custos. Nalguns casos, é uma pena que alguns destes prosadores estejam esquecidos para sempre.

 

Nota pessoal: chamo a atenção para a qualidade de algumas destas capas. De bons profissionais, claro!

domingo, 13 de dezembro de 2020

Esquecidos (5)


Actualmente, não é muito diferente do tempo antes de Moniz Barreto (1865-1896) o panorama da crítica literária, em Portugal. Quase não existe, isenta, e a que há é enfeudada a interesses diversos, quando não obscuros. Já Vitorino Nemésio afirmava: "A literatura portuguesa tem fraca consciência crítica." E eu acrescentaria que os portugueses raramente têm sentido crítico. Em literatura e não só.


Guilherme Joaquim de Moniz Barreto nasceu em Goa a 15 de Março de 1865, de ascendentes açorianos com origem minhota e veio a falecer em Paris, com apenas 31 anos de idade. Conviveu com Junqueiro, Nobre e Eça de Queiroz. Estudou com argúcia a Geração de 70 e, de algum modo, iniciou o ensaísmo e a crítica literária moderna em Portugal. Está hoje completamente esquecido - creio.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Esquecidos (4)

Enquanto 3 canónicos e bolorentos académicos vêm definir em livro, inquisitorialmente, o que se deve ler e lembrar na literatura nacional, venho eu, com generosidade liberal, recordar um mavioso esquecido: João Xavier de Matos (1730?-1789), poeta de tardios acentos camonianos. 



As dez entradas do vate no registo do Arpose dispensam-me que dele fale em pormenor neste undécimo poste. Mas direi que dele falaram bem Garrett, Jacinto do Prado Coelho e David Mourão-Ferreira, pelo menos. E os cegos cantavam os seus versos suaves pelas ruas de Lisboa. A sua Écloga de Albano e Damiana teve inúmeras impressões, muito embora a primeira edição das suas obras em livro só tenha aparecido em 1770.



O Poeta, que gozou da protecção do Marquês de Nisa e de Fr. Manuel do Cenáculo (na BPE existem inúmeras cartas e manuscritos seus), foi sendo reeditado até ao primeiro quartel do séc. XIX, mas depois deu-se-lhe um quase total apagamento. Nascido, porventura em Alfange (como sugere J. do Prado Coelho), no termo de Santarém, João Xavier de Matos viveu em Lisboa, Porto (alguns poucos anos, onde se fez sócio da Arcádia Portuense), Vidigueira e Vila de Frades, onde veio a falecer. E onde tem nome de rua.

Aqui ficam dois sonetos seus do primeiro tomo dos três existentes da sua obra esquecida.

sábado, 29 de agosto de 2020

Esquecidos (3)


Permito-me opinar sobre um assunto momentoso e próximo, de que não sou porém especialista.
Eu creio que a degradação e miséria dos resultados práticos do ensino se devem, essencialmente, não à quantidade de cultura ministrada, mas à ausência de uma estratégia coerente  (ministério), à insuficiência dos agentes de educação (professores, maioritariamente), à passividade ignorante das famílias inertes e ausência de intervenção sua positiva junto dos jovens. Tudo isto maximizado pela idade das trevas em que vivemos e que alguns querem com fervor perpetuar, para seu descanso administrativo. Pão e circo sempre narcotizaram o povinho, em favor da tranquilidade dos imperadores e das ditaduras...


Dizia-me, há dias, HMJ que só não tiraram Camões dos programas de ensino (e Pessoa), porque seria excessivamente escandaloso. Mas, entretanto, todo ou quase todo o século XVI, talvez o mais rico da nossa história, literariamente, foi varrido do ensino às criancinhas, para lhes proporcionar o cómodo facilitismo das aulas reinadias.
E, no entanto, houve nesse século, alguns verdadeiros best-sellers, como por exemplo a Comédia Eufrosina, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515?-1585?), que, em 11 anos teve nada menos do que 4 edições (1555, 1560, 1561 e 1566). Tendo sido traduzida para castelhano, com prefácio de Quevedo, em 1631.  E, em 1951, o filólogo e bibliófilo espanhol Eugenio Asensio (1902-1996) fez imprimir em Madrid uma nova edição da comédia referida, com uma elucidativa introdução.
Creio ter sido o último trabalho de vulto, até hoje, que se produziu sobre o escritor português.


Já M. Bernardes Branco (1832-1900), em pequeno prefácio à segunda edição do Memorial das Proezas da  Segunda Tavola Redonda (Typ. do Panorama, Lisboa) se interrogava assim: "Mas quem lerá esta obra? Os leitores dos modernos romances? Certamente que não. Jorge Ferreira de Vasconcellos não é um Walter Scott, nem um Alexandre Herculano, Rebello da Silva ou C. Castello Branco. Os antigos talvez não gostassem dos modernos romances, se os podessem ler; mas bofé que os modernos tãobem se não deleitam muito na leitura dos romances dos seculos XV e XVI.
Quem serão então os leitores do Memorial dos Cavalleiros?
Hão de ser, com rarissimas excepções, os amantes dos livros portuguezes antigos, que considerarão sempre esta obra como util para os amantes da pureza  de linguagem, para os que gostam de ver os progressos que os estudos romanticos fizeram em Portugal, para os estudiosos dos antigos usos e costumes nacionaes e para pouco mais."


Estas palavras de Bernardes Branco são realistas e de sabedoria... E hoje será ainda pior.
Concordo que, para a imensa maioria, ler uma das obras de Jorge Ferreira de Vasconcelos seria grande sensaboria e só, talvez, alguns poucos chegariam ao fim do livro.
Estes textos terão, no entanto, pequenas e gratas compensações. Se a acção e enredo dos livros não são muito movimentados, o entrelaçamento de sentenças, anexins, máximas e provérbios é enorme. E o léxico é riquíssimo e fresco, apesar de antigo. Deixo por aqui um cheirinho, para apreciação, retirado da página 18, da Eufrosina:
"A filha da puta estava bonita como ouro, de sua vasquinha amarela quartapisada, em mangas de camisa, seus cabelos ataviados com hua fita encarnada tam de verão que vos ride vos de mais Serea pintada. E por mais ajuda em me vendo ficou brasa."


Admito que Jorge Ferreira de Vasconcelos será um caso esquecido e perdido, para sempre, como escritor. Ainda para mais, as edições das suas 4 obras conhecidas, além de raras, saem sempre caras, em alfarrabistas ou leilões, em que  escassamente aparecem.
Que se há-de fazer?!...

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Esquecidos (2)


A segunda metade do século XIX português está cheia de poetas esquecidos. Talvez de segunda linha, talvez, mas românticos, parnasianos, nalguns casos, ultra-românticos, vêm à memória: Luiz Augusto Palmeirim (1825-1893), João Penha (1838-1919), José Simões Dias (1844-1899)...
É provável que alguns amantes muito fiéis de poesia se lembrem do muito recitado (antigamente) poema A Lua de Londres ("É noite: o astro saudoso/ Rompe a custo um plumbeo Céu,/ Tolda-lhe o rosto formoso/ Alvacento, humido véu;..."), que João de Lemos (1819-1890) fez publicar no terceiro volume do seu Cancioneiro (1858).


Nascido em Peso da Régua, João de Lemos formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo colaborado, na juventude, em várias publicações literárias. Fundou também O Trovador, mais dedicado a composições poéticas. Foi na política um miguelista feroz.
Óscar Lopes, na sua História da Literatura Portuguesa (1985), concedeu-lhe 7 entradas ou verbetes.
Alguém lhe sabe o nome ou lembra algum poema?...



sexta-feira, 26 de junho de 2020

Esquecidos (1)


Escritor, tradutor, médico e jornalista, de seu nome completo Rodrigo Botelho da Fonseca Paganino Júnior, nasceu em Lisboa a 2 de Agosto de 1835. Teve vida breve, pois veio a falecer, em Carnide (Lisboa), a 22 de Setembro de 1863.


Foi amigo de Herculano e era figura muito conhecida nos meios literários lisboetas, sobretudo pela colaboração frequente na imprensa da época. A sua obra, em prosa, mais celebrada foram os Contos do Tio Joaquim,  editados em 1861, tinha Rodrigo Paganino apenas 24 anos de idade.
As diversas histórias da literatura portuguesa, a partir daí, foram-no sempre referindo.


O livro (306 páginas) foi muito falado e elogiado, embora com temas rurais e enredos singelos moralizantes, pressagiando, de algum modo, a carreira mais solidamente estruturada de Júlio Dinis (1839-1871), mais tarde. Tenho no entanto grandes dúvidas que hoje o autor ainda seja lido. Ou até mesmo referido. A insistência no pendor algo romântico da sua escrita afastará porventura os mais cépticos leitores empedernidos...
O meu exemplar, da edição original, tem dedicatória à irmã do escritor, Maria Máxima. Está em bom estado, encadernado, e custou-me 15 euros, recentemente (tinha sido remarcado dos 25 iniciais).


Óscar Lopes (1917-2013) denomina de "contos rústicos" estes, com alguma propriedade... Mesmo assim, na sua simplicidade e elegância da escrita corredia, podem ainda hoje ler-se desenfadadamente.