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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Estéticas de outros tempos


Grande parte das capas dos livros, hoje em dia, são de um mau gosto horroroso. As editoras recorrem a bancos de dados de fotografias, na maioria dos casos, mas as escolhas concretas demonstram, à evidência, a falta de sentido estético dos seleccionadores gráficos (?). A menos que a exuberância berrante das cores e a infantilidade das imagens se destine a atrair a comunidade alargada e mais inculta da população - que, por aí, também anda muita gente mal vestida, embora, muitas vezes, bem adornada...


De 1957 a 1973, pelo Natal, a Estúdios Cor editava uns livrinhos para oferta. De grande apuro gráfico, as obrinhas (17, no seu total) são hoje muito procuradas. Com textos (contos, habitualmente) de escritores conhecidos, os pequenos livros foram ilustradas, nas capas e interior, com desenhos de alguns dos mais importantes artistas portugueses, da época: Maria Keil, Pomar, Sá Nogueira, Lima de Freitas, Cipriano Dourado, Carlos Amado...
No meu alfarrabista de referência, os 17 voluminhos estavam à venda, há dias, por 75 euros. Soube hoje que foram vendidos a uma senhora estrangeira, por certo conquistada pela beleza deles.
Por curiosidade bibliófila, posso informar que a BestNet tinha à venda a colecção completa, ao preço de 80 euros. Enquanto que a Frenesi, que normalmente se destaca nestes casos, os vendia por 280 euros.

endereçado a H. N., com estima.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lisboa-Nova Iorque-Lisboa


Por entre as vicissitudes da diáspora e o pequeno meio editorial lisboeta dos anos 60 portugueses, surge esta correspondência, entre José Rodrigues Miguéis (1901-1980) e José Saramago (1922-2010), que começa por ser quase só de teor comercial, mas que se vai alargando para os limites das letras e chega a atingir o tom cordial da amizade. Director (?) literário da Estúdios Cor, Saramago vai dando notícias, números de venda e enviando cheques (direitos de autor) a Miguéis que, em Nova Iorque, quase sempre amargurado e sedento de novas do seu país, apesar do sucesso das suas obras (Leah, Escola do Paraíso...), lhe vai dando conta da sua via crucis, por terras americanas. A correspondência cessa em 1971, altura em que Saramago se demite da Editora, quando os donos lhe impõe, como chefe e directora literária, a escritora Natália Correia.
A franqueza entre os dois predomina, nesta conversa de homem para homem, pese embora alguma reserva de Miguéis, nas suas cartas iniciais. Saramago é mais frontal, chega a desabafar, por vezes:
"...Espero com o maior interesse o seu artigo sobre o Raul Brandão, que é uma das maiores e mais velhas admirações minhas em literatura. Um livro como o Húmus, por exemplo, como é possível que tanta gente o ignore? Não percebo, palavra. Falava o Régio, já aqui há uns tempos, no mau gosto de certas passagens. Bolas! Sempre gostava que me dissessem onde há, nos livros do Régio, às vezes duma pieguice muito professor-de-liceu-em-cidade-de província, algo que iguale em ternura aquelas «mãos como cepos» da Joana, dessa criação única da nossa literatura que é a mulher da esfrega! Quantas vezes exprimiu assim a frustração um escritor português, uma frustração que nega até o direito a sonhos próprios?... Assim estamos nós, descendentes de Afonso Henriques e Albuquerque, de Cabral e Camões... Desculpe o excesso de a-propósito da ironia!..." (pg. 106)
Editado em 2010, é um livro que vale a pena ler, até porque nos traz, ressuscitado, o panorama literário de Portugal, que se vivia nos anos 60 do século passado.