É sempre uma diagonal que nos divide. Pode ser Norte/Sul, Benfica/Sporting ou Camilo/Eça. Somos dicotómicos de essência, ou não fosse Portugal do signo dos Peixes (como Camilo, aliás) - mas isto são metafísicas baratas e irracionais, e é melhor começar (e repetir) pelo que o geógrafo Estrabão dizia: "Os Lusitanos são um povo que não se governa, nem se deixa governar".
Camilo Castelo Branco nasceu a 16 de Março de 1825, e veio a suicidar-se em Junho de 1890. Dos seus livros, a peça bibliográfica talvez mais rara é "A Infanta Capelista", mas também aquela que tem a história mais enigmática. Em 1872, Camilo mandou destruir as folhas, já impressas, desta sua novela. Não se sabe ao certo se a decisão do romancista se deve a um pedido de D. Pedro II, imperador do Brasil, ou se a alguma interferência de D. Pedro V, que terá visitado Camilo Castelo Branco, quando o escritor esteve preso, no Porto. O enredo da novela, ao que parece, ampliava um escândalo que chamuscava a sereníssima Casa de Bragança, na época.
Acidentalmente, as folhas impressas e desconjuntadas foram parar a um merceeiro da Rua de Santo António, na cidade Invicta, que começou a utilizá-las para embrulhar vitualhas para os seus fregueses. Alguns deles, talvez leitores de Camilo ou bibliófilos, repararam e começaram a agrupá-las. O que permitiu completar alguns, raríssimos, exemplares da obra camiliana.
Pragmaticamente, e alguns meses depois, e ainda no ano de 1872, Camilo Castelo Branco fez publicar, via o editor Ernesto Chardron, uma versão soft de "A Infanta Capelista", sob um novo título: "O Carrasco de Vítor Hugo José Alves". E que seria muito mais benevolente para com a sereníssima Casa...