Mostrar mensagens com a etiqueta Elias Canetti. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Elias Canetti. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Da leitura (18)


Este Verão sediço transfigurado pelo concreto Outono abafado em temperaturas mornas, com tardes estufadas e amenas, permitiu-me regressar à varanda e acabar, ao ar livre e em duas tardes, a Histoire d'une Jeunesse - La Langue Sauvée, de Elias Canetti (1905-1994), livro que já levava uns bem abonados vinte dias de leitura, embora intermitentes. Lido por inteiro, apesar da luz exterior se ausentar por volta das 19h00, impiedosamente.
Eu creio que uma leitura pode assumir duas formas: ou nos enfronhámos no enredo, em osmose submissa, ou ficámos de fora do tema e o apreciámos à distância. As mais das vezes fiquei de fora, na leitura, até porque o livro é irregular, na qualidade e no ritmo. Embora nos transmita, claramente, a personalidade do autor, pelo menos, enquanto jovem.
Da búlgara comunidade sefardita castelhana que, na intimidade familiar e 400 anos depois do êxodo, mantinha ainda o espanhol como língua de comunicação doméstica; da transumância constante dos primeiros 15 anos de vida de Canetti, entre a Bulgária, a Áustria, a Alemanha, a Inglaterra, a Suíça e de novo a Alemanha, que de algum modo justifica essa Langue Sauvée do título; até aos arroubos e afectos infantis de veemência agressiva, passando pelo bélico diálogo final com a mãe, que prenuncia a independência do futuro adulto, na obra vem prefigurado todo o perfil comum de uma progressiva autonomia e maturidade, humana e natural.
Se vale a pena ler o livro? Eu diria que sim.

sábado, 8 de outubro de 2016

Da leitura (17)


É frequente, ao lermos memórias de infância e juventude de um escritor, encontrarmos ressonâncias das nossas próprias recordações dos primeiros anos de vida. Das provas de lealdade, das traições e das mentiras, dos amores ingénuos mas fiéis, das amizades sinceras e fortíssimas, das impressões indeléveis e sentidas. Mas também de cheiros originais ou de atmosferas que, de tão intensos e singulares, dificilmente conseguiremos traduzir por palavras.
Ora, há um cheiro a fumo abafado e denso, que me vem de 1951, quando uma noite, uma boa parte do Mosteiro da Costa (em Guimarães) ardeu. Vi as labaredas da janela da sala de jantar e foi o primeiro grande incêndio a que assisti. Nunca mais o esqueci, nessas imagens trémulas e nocturnas, com sirenes de bombeiros, intermináveis, a tocar. E a grande aflição geral.
Lembrei-me disso ao ler Canetti (1905-1994), quando narra o seu primeiro fogo: "Ce spectacle que je n'ai jamais oublié..."
Quem não se lembrará, mais ou menos intensamente, do primeiro incêndio que presenciou?
Em 1977, calcorreei a parte ardida do Mosteiro de Sta. Marinha da Costa, e lá colhi amoras, porque o espaço era um matagal ou silvedo múltiplo entrelaçado e desleixado.
Fizeram, entretanto, obras cuidadosas e conformes. Hoje, há lá uma pousada - cara, mas ilustre. Quem se lembrará ainda desse monstruoso incêndio de há 65 anos. Só os séniores vimaranenses, por certo...

Nota: por razões técnicas informáticas não será possivel assegurar, pelo menos nos próximos dias, a regularidade e constância de postes, no Arpose.

domingo, 30 de outubro de 2011

Exorcismos


De Elias Canetti (1905-1994), escritor de origem búlgara que se expressou, literariamente, através da língua alemã, nunca eu tinha lido nada. Canetti era descendente de judeus sefarditas, fugidos de Espanha em 1492, e o uso de palavras castelhanas era normal entre os membros da sua família, sobretudo em casa. O escritor, que foi Nobel da Literatura, em 1981, pertencia à classe média-alta, na Bulgária.
Pois, há dias, comecei a ler, em tradução francesa (Histoire d'une Jeunesse - La langue perdue) de Bernard Kreiss, a sua obra "Die Gerettete Zunge Geschichte einer Jugend". Da sua infância, entre muitas outras coisas, o escritor refere que, em sua casa, havia várias criadas muito jovens (10/12 anos), búlgaras e vindas da aldeia e campos vizinhos, que o ajudaram a criar-se, brincavam com ele e lhe faziam companhia, quando os pais de Elias estavam para fora. Sempre que isto acontecia, chegando a noite, as criaditas, com medo, juntavam-se umas às outras, e começavam a contar histórias de lobisomens e vampiros. Numa espécie de exorcismo psicológico - digo eu.
Ora, eu tive uma experiência semelhante, também na infância, em que a minha empregada, oriunda de Vieira do Minho, à noite, me lia histórias de livros, mas também me contava lendas, não de vampiros, mas de lobisomens que, dizia ela, habitavam no Marão. Isto seria, nela, provavelmente uma forma de exorcisar terrores ancestrais que traria de infância, passados de gerações em gerações. Creio que nunca tive medo excessivo destes contos e lendas, mas antes curiosidade e estranheza. Por isso, talvez, nunca tive necessidade de exorcisá-los, nem de passá-los aos meus filhos...