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domingo, 2 de outubro de 2016

Mais um poema traduzido, de Eduardo Chirinos


Derrota del Otoño


Por estas redondezas, o Outono não é bem-vindo.
                                                              Ninguém o espera
na margem de um qualquer rio melancólico
que esconde nos seus fluxos os segredos do mundo.
Mas o Outono reina em outras latitudes:
lá longe, onde os ciclos se cumprem, obedientes, lá longe
onde envelhecem e se renovam as metáforas.

(O Sol afunda-se num charco esverdeado
onde flutua, solitária, uma folha de loureiro).

Mas hoje de tarde nem sequer choveu. As folhas
fincam-se com força férrea aos seus ramos,
heroicamente lutam contra o vento
e pela noite hão-de celebrar a derrota do Outono.

Não sabem que as folhas em queda são escritas
e a árvore um calado e seco poema sem estrias.


para quem não aprecia muito o Outono, como a Margarida, no seu "Memórias e Imagens"; e para Maria Franco, que gosta da obra do Poeta. Cordialmente, esta despretenciosa tradução.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Eduardo Chirinos (Peru, 1960-2016)


Uma formiga, com esforço,
leva consigo uma folha.
                    A folha é enorme,
várias vezes o seu próprio tamanho.
Trata-se porém de um dever inevitável,
uma pura obediência atávica.
                   Na sua retaguarda
idênticas formigas vão fazendo o mesmo
com diversas folhas. Amanhã vão repetir
um ritual cuja razão totalmente ignoro.

Em breve, vou completar cinquenta anos.
Penso na formiga,
na sua cega dança até à morte.