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segunda-feira, 2 de maio de 2022

Caves presidenciais



Não me lembro de ter lido ou visto alguma informação sobre os vinhos que porventura se guardam na adega do Palácio de Belém, para serem servidos nas refeições presidenciais. Será que existem, ou serão só comprados na altura para um uso definido e concreto?
Ao contrário, o último número fora de série de Le Point (referido no Arpose, recentemente - Les secrets de l'Elysée) consagra cerca de 2/3 da página 66 às caves do Palácio do Eliseu e às preferências e saberes enológicos dos oito presidentes da 5ª República francesa. O artigo destaca Giscard d'Estaing como o mais sabedor e apreciador de vinhos franceses. Pompidou especializara-se e gostava sobretudo dos grands crus do Médoc. Se Mitterrand era um gastrónomo conhecido quanto a comida (lembremos as hortulanas...), não era muito esquisito quanto a bebidas. Sabe-se da preferência de Chirac pela cerveja e dos gostos modestos de De  Gaulle quanto a vinhos. Sarkozy e Macron, ao que parece, não são grandes conhecedores. Hollande embora aprecie e conheça de vinhos, dada a acumulação de garrafas nas caves do Eliseu, e à crise, resolveu vender, em 2013, alguns excedentes vínicos, que totalizaram a considerável quantia de 700.000 euros. Entre eles, contavam-se alguns Petrus 1961, colheita famosa que fez a alegria de alguns coleccionadores que os vieram a adquirir.
Regressando a Portugal, sabe-se da preferência de Américo Thomaz pelo tinto Dão Terras Altas. Na nossa recente e democrática República, não estou a ver grandes enólogos ou conhecedores. Talvez Mário Soares, porventura. Dos restantes, quase todos eram comedidos como o rei D. Duarte, que até talhava o vinho com água - o que, no séc. XV, até se compreendia. Mas não hoje em dia...

sexta-feira, 12 de março de 2021

Mercearias Finas 168

Já por aqui o disse e reincido: o azar do Dão é nunca ter tido um Nicolau de Almeida (1913-1998), genial enólogo e autor do duriense Barca Velha, para realçar as excelências desta região demarcada portuguesa. E que, na minha amadora e modesta opinião, oferece condições vinícolas enormes, por entre a elegância e a longevidade. 



Claro que há os velhos Cabido, o presente Vinha Paz, a que terei, para ser justo, de juntar um recente Fonte de Ouro, reserva tinto 2018 (Touriga Nacional, Alfrocheiro e Jaen), da Companhia das Quintas, que, nos seus equilibrados 13º, lindamente acompanhou um Borrêgo à Pastora, de matriz alentejana, cuja receita trouxemos da Casa Amarela, de Mértola, mas do outro lado do Guadiana, aqui há uns bons anos atrás.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Mercearias Finas 152

                                                                                                         Deambulações enológicas

Por mero e feliz acaso fiquei a saber que no Luxemburgo também se produz vinho. Branco, pelo menos, bom e nas margens do Mosela, no sudeste do Grão-Ducado. Acompanhámos, num restaurante do aeroporto, um fricassé de frango e cogumelos, com arroz branco, de um muito agradável Pinot Gris (em Itália, seria Pinot Grigio) monocasta, levemente frutado e mineral, com 13º. Equilibradíssimo.


Nos dias precedentes, restritos em sólidos e líquidos por razões alheias, tivemos no entanto o acesso a uns Riesling de Trier, que se cruzaram, razoavelmente, com umas massas frescas com carne picada e salpicada de mozzarella a dar-lhe sabor - cumpriram, alemães e episcopais, a sua função de acólitos, com os seus 11,5º suaves e macios de textura.


Aguardando a vinda de amigos, para prova condigna e certificada, na adega outrabandista repousa um Châteauneuf du Pape, desde Novembro a abeberar. Desta vez, tinto, nos seus poderosos 14,5º, com Grenache, Syrah, Mourvèdre e Cinsault, há-de bater-se, com galhardia - estou certo! - com queijos curados portugueses, de feição e qualidade serrana.


Será para meados de Janeiro, a funçanata, a que certamente não faltará, antes, um bacalhau no forno, post-natalício.

sábado, 13 de maio de 2017

Altos patamares


Luís Sottomayor (1963) é o enólogo responsável pelas últimas colheitas do Barca Velha, vinho do Douro e de alta qualidade, que foi criado, em 1955 (data recentemente certificada, e com apenas 19 edições), por Fernando Nicolau de Almeida (1913-1998). À colheita de 2008, já orientada por aquele enólogo da Sogrape, foi atribuída, pela Wine Enthusiast, a classificação máxima de 100 pontos, situação inédita na enologia portuguesa. 
Pelo feliz acontecimento, o jornal Expresso entrevistou Luís Sottomayor, de quem eu gostaria  de transcrever a sua última resposta, à pergunta que lhe foi feita:

A maior parte das pessoas nunca provou um "Barca Velha". Como é que lhes apresentaria o vinho?

Pensem numa pessoa por quem tenham respeito e consideração. Alguém a quem reconheçam carácter, personalidade e, ao mesmo tempo, sentimentos. É assim o Barca Velha.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Lembrete 34


Para quem se interessa por Enologia, mas também pelos efeitos da Globalização, recomendo, vivamente, o interessante filme Mondovino, de Jonathan Nossiter, que passa hoje na RTP2, pelas 23h38. A não perder.

sábado, 27 de junho de 2015

Curiosidades 44


Tal como as modas, também o cultivo das vinhas obedece a gostos temporais. Se a casta Códega do Larinho (transmontana de origem, creio), para vinhos brancos, vem colhendo muitas preferências nos produtores, actualmente, a celebrada Tinta Roriz (no Sul, Aragonês), que os espanhóis consideram imprescindível nos Vega Sicilia da Ribera del Duero (chamam-lhe Tempranillo), parece estar a ser menos cultivada, em Portugal.
Falta-nos um estudo amplo e detalhado sobre as castas de uvas lusitanas, apesar de, em relação ao território, sermos dos países europeus com maior diversidade de espécies autóctones. Mais de duas centenas, ao que se diz.
Chama-se Ampelografia, ao estudo e caracterização das cepas. E, nesse domínio, o monegasco e nonagenário Pierre Galet (1921) dá cartas, por este mundo fora. Com os seus amplos conhecimentos enológicos, publicou recentemente um Dictionaire Encyclopédique des Cépages em que caracteriza, descreve e explica uma enorme quantidade de castas de uvas. Nada menos de 10.000...


sábado, 17 de janeiro de 2015

Bibliofilia 115


Com texto de Raúl Esteves dos Santos e cuidada direcção gráfica de Martins Barata, esta monografia profusamente ilustrada com fotografias da região de Colares, editada em 1938, sob o patrocínio da Adega Regional homónima, terá, para os actuais enólogos, um interesse quase arqueológico. Devido às profundas alterações tecnológicas e científicas que o vinho português teve, nos últimos 30 anos.

Quanto ao lado histórico e turístico, grande parte da sua actualidade mantém-se. Lido o pequeno livro, de cerca de 70 páginas, muito se fica a saber sobre Colares e sua zona envolvente, bem como sobre a casta Ramisco que, mercê de ser plantada em terrenos arenosos, sobreviveu, até, à praga da filoxera, e continua a produzir, desde a Antiguidade, os seus apreciados vinhos. Fiquei também a saber a origem do nome da célebre Praia das Maçãs: "...Do rio de Colares, que serpenteava veloz por entre pomares e dêles arrastava os frutos que vieram dar nome à praia onde tem a foz. ..."
Adquirido recentemente e numa das últimas feiras de Sábado, na Rua Anchieta, em Lisboa, o pequeno livro custou-me 5 euros. A "Antiquário do Chiado" online tem na sua oferta de vendas um exemplar, também brochado, ao preço de 45 euros. Bem poderia, pela diferença de preços, oferecer de bónus, na compra, uma garrafa de Vinho de Colares, para o leitor degustar, enquanto vai lendo a monografia...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Curiosidades 32


Não sei se a Universidade de Trás-os-Montes, vocacionada para o efeito, também se dedica a estas experiências. Mas com o desinvestimento na Investigação, destes últimos anos, é bem provável que não. Mas apraz-me registar a criação de 6 novas castas de uvas, levada a efeito pela Universidade de Friburgo (Alemanha). Com base nas tradicionais e conhecidas Merlot, Cabernet, Riesling e Sauvignon, estas novas castas de uvas são mais resistentes. Aqui se referem os seus nomes: Souvignier gris, Bronner, Cabernet Carbon, Merzling, Cabernet Cantor e Helios.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Citações CLXV


Provadores de vinho... têm o seu jargão, ou dialecto, e embora os termos que usam, muitas vezes, nos pareçam bizarros ou pretensiosos, ou até mesmo ridículos para aqueles para quem não são familiares, eles são certamente mais precisos do que a linguagem dos críticos musicais (um tom «lírico», uma voz «quente») ou dos críticos de pintura («vibrante», «sincera», «bem organizada»).

Frank Schoonmaker (1905-1976).

com agradecimentos a H. N..

sábado, 10 de novembro de 2012

Um Senhor do Vinho


Estas coisas só se sabem nos nichos dos especialistas ou na região próxima, que neste caso era a Bairrada. O vulgo, como eu, só temos conhecimento tardiamente. Porque apenas hoje soube que Luís Costa (1928-2012) faleceu no passado dia 4 de Outubro. Era o rosto discreto, discretíssimo, melhor dizendo, das Caves S. João. Mas era, também, um grande Senhor do Vinho, em Portugal. Profundo conhecedor, com uma riquíssima e invejável biblioteca sobre Enologia, foi o criador do bairradino "Frei João" e do "Porta dos Cavaleiros", celebrado vinho da região do Dão, cujas Garrafeiras fazem a alegria de qualquer apreciador.
José Salvador chamou-lhe, com todo o direito e propriedade, o ideólogo da Confraria dos Enófilos da Bairrada. Eu limitar-me-ei, quando abrir alguma das garrafas, que ainda tenho, de vinho produzido por ele, em bebê-lo, com a sua memória presente. E grato.

domingo, 24 de julho de 2011

Recomendado : dezassete - sobre enologia


É um livro de divulgação ampla, detalhada e de leitura agradável. Embora com algumas gralhas que, numa revisão atenta, talvez pudessem ter sido evitadas; a tradução também me não parece muito cuidada. Fora isto é um livro útil, simples na exposição dos temas e muito informativo.
O livro foi editado, em 2005, pelas Publicações Europa-América. O seu autor, Richard Mayson, é um profundo conhecedor da realidade enológica portuguesa, nos seus múltiplos aspectos. O ilustrador do livro é Leo Duff, nascido em Belfast. O volume aborda as castas de uvas, as regiões vinícolas, os principais produtores particulares e adegas cooperativas nacionais, bem como os seus respectivos produtos. Faz também uma análise detalhada sobre os últimos melhores anos de colheitas.
Para quem quiser ficar a saber o básico e até o suficiente sobre enologia portuguesa tem, n' "Os Vinhos e Vinhas de Portugal", uma obra acessível e útil, que eu recomendo vivamente.