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domingo, 11 de maio de 2025

Curiosidades 111

 

Há, muitas vezes, parcerias úteis e justificadas, os prefácios podem ser uma delas, em livros. Estou a lembrar-me do de Eça de Queirós nos Azulejos (1921), do Conde de Arnoso (1855-1911). Ou a carta-prefácio de Carlos Malheiro Dias (1875-1945) no primeiro livro de Aquilino Ribeiro (1885-1963), Jardim das Tormentas (1913). Prólogos recomendando ou explicando a obra são normalmente um incentivo à leitura, quando feitos por autores já consagrados.
Um caso exemplar se passa com o único livro de poesia publicado pelo judeu russo (Donetsk) Eliezer Kamenezky (1888-1957), Alma Errante (1932), que tem um prefácio de Fernando Pessoa. Kamenezky ficou conhecido por ser um propagandista do vegetarianismo e ter entrado em 3 dos filmes de Lopes Ribeiro, e não só. Porém, o prefácio de Pessoa torna a obra, ainda que vulgar, muito apetecível dos bibliófilos em leilões, e o nome dele bem mais conhecido.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Osmose 141

 

A recente panteonização lisboeta de Eça de Queiroz, que deixou a sua Emília de Castro Pamplona (Resende) em Santa Cruz do Douro, sozinha lá no norte, fez-me ir de memória até à Póvoa de Varzim e, mais concretamente, até à Praça do Almada, onde o escritor está perpetuado em estátua.



Como em quase tudo (livros, terras, pessoas...) a memória retém apenas alguns fragmentos, frases, por vezes, cenas ou episódios mais impressivos, rasurando o resto, talvez por insignificante. Ora, para quem vinha da rua da Junqueira e passava ao lado do extinto Hotel Universal, que um tio meu tinha explorado nos anos 30 do século XX, ia desembocar, obrigatoriamente, na bonita Praça do Almada, onde se situava a Câmara Municipal.



Mas o Largo poveiro tinha outros encantos para mim. Logo à esquerda havia um ferro-velho que eu frequentava e onde, pelos anos 60, afortunadamente comprei um pequeno Cristo (séc. XVIII?) de madeira, já sem pernas, por Esc. 7$50 e que, depois, foi emoldurado e exposto na parede, em fundo de tecido fino.
Quase por trás da estátua de Eça de Queiroz, existia uma camisaria que, heterodoxa, também vendia selos de colecção e onde adquiri a série nova, completa, comemorativa de Luís de Camões (1924) a bom preço.



Mas talvez a cereja em cima do bolo tenha sido a compra do livro de contos Bichos, de Miguel Torga (1907-1995), na terceira edição de 1943, por Esc. 15$00, numa tipografia modesta da Praça do Almada que, para além de impressos, se dedicava a fazer encadernações e a vender livros usados.
Ora este meu regresso ao passado permitiu-me, também, fazer uma correcção aos meus conhecimentos. Sempre pensara que este Almada patronímico se referia a um dos conjurados da restauração de 1640. Mas não, celebra, sim, o corregedor Francisco de Almada e Mendonça (1757-1804), figura administrava que teve grande importância no progresso da Póvoa de Varzim.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Camiliana

 

Por coincidência curiosa, num pequeno período de tempo, adquiri três livros de e sobre Camilo Castelo Branco (1825-1890). Ora, para além de uma larga estante independente que alberga a colecção Vampiro, a XIS e outros livros policiais, com cerca de mil pequenos volumes, Camilo é o único autor que goza de uma confortável autonomia no arrumo da sua obra, num só armário aberto, com quatro prateleiras, de 1,05 m. de altura x 40 cm. de largura e 28 cm. de fundo, onde se encontram também estudos camilianos ou correlativos. É sem dúvida o escritor português que maior espaço ocupa na minha biblioteca. Eça, nem sequer se aproxima.
Dizia Óscar Lopes (1917-2013): "E continua a haver quem seja camiliólatra ou queirosólatra, não digamos que com a mesma paixão de um benfiquista ou sportinguista..." Não será o meu caso*, certamente, mas a superfície camiliana terá a sua importância no deve e haver bibliográfico da biblioteca. E recordo que a primeira novela que li de Camilo terá sido "O Retrato de Ricardina".

* há alguma proximidade de registos numéricos, no Arpose: Eça tem 68 entradas e Camilo 75. 

Para remate, gostaria de trazer aqui à colação uma pequena reflexão realista de João de Araújo Correia, inserta em "Uma sombra picada das bexigas" (pg. 120), assim: "No tempo de Camilo, pouca gente saberia ler. Mas se não lia mais do que hoje, lia muito melhor."

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Esquecidos (18)

 

Soube, há pouco tempo, que um colégio lisboeta de referência, em relação à literatura portuguesa do século XIX, incluia no seu programa escolar apenas o estudo de Eça de Queiroz. Quanto ao século XX são contemplados unicamente Pessoa e Saramago. O panorama  público de ensino não será muito diferente... Perde-se assim um enquadramento e contexto temporal e cronológico de autores, bem como se soterram no esquecimento a maioria dos escritores nacionais. Mas creio que também Teixeira de Pascoaes (1877-1952), um mal-amado, nunca pertenceu ao cânone português das escolas. Muito embora tivesse merecido importantes estudos de Jacinto do Prado Coelho, Jorge de Sena, Mário Martins, Alfredo Margarido, entre outros ensaístas.
Prado Coelho refere a infância como sendo o tema central na sua obra poética, eu optaria antes pela temática da morte como omnipresente nos seus versos. Não sendo um modernista, a poesia de Pascoaes retém acentos de algum romantismo e, sobretudo, sinais de um simbolismo original e panteísta que difere muito do estilo da obra excessivamente marcada e artificiosa de Eugénio de Castro (1869-1944).
Como contributo de lembrança, aqui deixo um poema de Terra Proibida (1899):

Hora Final

Aí vem a noite... Sente-se crescer...
E um silêncio de estrelas aparece.
Quem é, quem é, meu Deus, que empalidece
E se cobre de cinzas, no meu ser?
Alma que se desprende numa prece...
Que suave e divino entardecer!
Como seria bom assim morrer...
Morrer, como a paisagem desfalece,
Morrer quase a sorrir, devagarinho.
Ser ainda do mundo pobrezinho
E já pairar, sonhando, além dos céus,
Morrer, cair nos braços da ternura;
Morrer, fugir, enfim, à morte escura,
Sermos, enfim, na eterna paz de Deus!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Ironias

 
Recente observação que fiz, pela inversa interpretação que o outro dela fez, levou-me a pensar nas consequências que a ironia muitas vezes provoca. Se acerta e é bem compreendida, galhofa comum, se não, vontade de rir disfarçada, pelo menos da parte do produtor da ideia. Mas também podem ocorrer equívocos complicados, com criaturas menos subtis de entendimento. E pode vir a ser deveras grave o resultado...
Cada um terá a sua ironia. A de Eça era mais linear, a de Camilo, talvez mais dissimulada.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Regionalismos poveiros IV



Agrupamos desta vez as letras D e E, iniciais das palavras correspondentes aos regionalismos seleccionados da obra Poveirinhos pela graça de Deus (2007), de José de Azevedo. Assim:

1. Deceibar ou Desseibar - atirar ao chão alguém ou qualquer coisa com força.
2. De Cócó - de graça; sem pagar nada.
3. De Varada - ir ou vir depressa.
...

1. Encarrilhar ou Encarrilar - deslizar no dorso das ondas.
2. Erôgo - herói, bravo, destemido.
3. Escolho - maneta; canhoto.
4. Estralho - linha de pesca com uma fiada de anzóis.
5. Estrunchar - apertar; entalar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Nacional parolismo


Houve um tempo, aqui atrás, em que três dos nossos plumitivos consagrados rumaram a países extravagantes em busca de inspiração para escreverem um livro. Um caxinense chorão foi até à Islândia, outro escriba acocorado rumou até à Coreia do Norte e, finalmente, o mais conceituado foi-se à Índia.
Vamos ser justos, Eça também andou pela Inglaterra, Cuba e Paris de França. Embora diplomaticamente.
Soube, há pouco, que um dos nossos jovens publicistas, de piercing, ia rumar ao Camboja. Que não lhe faltem motívos, estupidez natural e leitores acríticos. Porque é disto que se faz a boa fortuna de algumas editoras nacionais, amadoras e oportunistas.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Divagações 176


A ironia, usada no dia a dia, pode ser, pela minha experiência pessoal, uma fonte de equívocos, ou até, por extremo limite, causar danos irremediáveis numa relação humana. Aliada à atenção, sensibilidade, mas creio que também à inteligência, essa figura de estilo tem que se lhe diga, e temos que ter em conta os interlocutores em presença, ao utilizá-la. Se Camilo e Eça abundantemente dela se serviram e, no último dos escritores, ela se torna mais perceptível, a ironia camiliana nem sempre é muito evidente nas suas novelas e romances: há que catá-la com mais atenção, numa leitura cuidadosa.
Quanto a nós, sem veleidades literárias, quotidianamente, teremos dela que fazer um uso parcimonioso, para não sermos mal interpretados, como muitas vezes acontece...

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Antologia 6



O Eça tem a vantagem de ser dado no ensino secundário, embora eu tenha dúvidas quanto à capacidade de gerações que escrevem e falam de forma gutural e com um vocabulário mínimo entenderem metade das palavras, e que percebam todas as referências a personagens históricas, da mitologia ou da Bíblia, incluindo alunos e professores, pelo menos os da idade do Facebook e do telemóvel "inteligente".

José Pacheco Pereira (1949), in Personalia (pg. 134).

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Do que fui lendo por aí... 39

É ponto assente, nas minhas referências memoriais, que o primeiro romance de Camilo (1825-1890) que li terá sido O Retrato de Ricardina. Para o 6º ou 7º ano, tive que ler o Amor de Perdição, mas não me lembro, com rigor, da impressão inicial que me deixou.  


De há um tempo a esta parte, deu-me para reler alguns clássicos da nossa literatura. Assim fiz com Os Lusíadas, há uns 4 ou 5 anos, assim estou a fazer agora com a obra magna camiliana, tendo alcançado já as 85 páginas e finalizado o capítulo VII.


As impressões são várias. Da pungência custosa até à ironia divertida, da leitura empolgada ao tédio interpretativo, da admiração ao humor. Datado embora, não deixa de ser um grande livro.

sábado, 7 de março de 2020

Ideias fixas 54


À terceira ou quarta página de A Sibila, relendo, veio-me à memória Camilo. Embora actualizado de vocabulário. Somos assim, naturalmente: ou pelo mundo, como Eça, ou nortenhos e terrunhos, amando de perdição. Em boa companhia, aliás, com Régio, Manoel de Oliveira... - tudo da mesma família.
Ao menos, poupavam-se os néons amaricados. Ou marcanos? De lojas pindéricas, a armar ao fino, por esses algarves foleiros e lisboetas pacóvios. De gentinha, que imagina saber inglês.

domingo, 18 de agosto de 2019

Curiosidades 76


S. Miguel de Seide não seria um sítio ilustre e elegante para morrer, pelo menos, até Camilo o ter escolhido. Enquanto Veneza sempre foi mais chique ou mesmo Paris (Neuilly), onde Eça acabou os seus dias. Mas Genebra (Suiça) e as margens do Lago Léman recolheram os últimos suspiros de tantas celebridades, que bem mereciam estar no Guinness.
Atente-se nos nomes de escritores e personalidades que por lá faleceram: Rilke, Stefan George, Joyce, Musil, Thomas Mann, Chaplin, Ignazio Silone, Erich Maria Remarque, Irwin Shaw, Borges, Simenon, Graham Greene, Elias Canetti, Nabokov...E, se calhar, ainda faltam alguns que, por coincidência ou fuga aos impostos, ali vieram a exalar os seus últimos suspiros, mais suavemente. 

sábado, 27 de abril de 2019

Retratos (22)


Chamemos-lhe Columbina S., embora ela se assemelhasse mais a uma coruja e tivesse, de rosto, uma assimetria de faces morenas muito pronunciada. De altura bastante baixa, o tom de voz era bem colocado, forte, e dava-lhe vulto, logo no início das conversas. E, apesar de feia, era uma sedutora de simpatias, pelo menos. Cordata, habitualmente, tinha porém um grande sentido de humor - muitas vezes, e com vontade, me ri com ela, às bandeiras despregadas, de coisas que ela me contava ou comentava, num agudo sentido de humor, que possuía intrinsecamente. Sexagenária, era também solteira, mas nunca me pareceu infeliz. No fundo, sempre achei que ela estava de bem com a vida que levava.
Não lhe sabia a profissão, nem o Manuel, meu subordinado, que ma tinha apresentado, mas sei que se dedicava a alguns serviços burocráticos que ia prestando com gentileza a alguns amigos e conhecidos: certidões, preenchimento e entrega de IRS, procurações e quejandos. Nunca cobrava contas nem facturas, mas todos a recompensavam do seu trabalho, naturalmente e bem. Creio que era disso que vivia e das rendas de umas duas ou três casas modestas que possuía na linha de Sintra. Foi assim que uma parte do meu grupo de trabalho foi entregando a Columbina os seus papéis e documentos do IRS, para ela os ir levar às Finanças. Eu próprio também o fiz, durante 3 ou 4 anos.
Não me recordo já dos pormenores, mas sei que a dada altura o Pinheiro recebeu, em casa dele, uma multa do Fisco, por falta de declaração do IRS. E a multa não era pequena. Sucessivamente, mais multas foram chegando a mais 4 ou 5 elementos da empresa que tiveram de pagar coimas elevadas, para a época. Preocupadíssimo, dirigi-me às Finanças, mas, felizmente, tudo estava em ordem quanto a mim. Columbina S. tinha entregado a minha documentação e a do Manuel, apenas. O resto levou descaminho total. E a senhora nunca mais apareceu pela zona - não mais soubemos dela.
Plagiando Eça, eu comentaria para concluir: singularidades duma sexagenária morena... 

sábado, 30 de março de 2019

Profissão assistida


Já Nicolau Tolentino se queixava de ter que aturar meninos, na sua profissão de mestre-escola, para sobreviver economicamente e poder ter algum tempo, ainda livre, para dedicar ao seu prazer maior que era escrever poesia. Esquecia ou, melhor, omitia que o vício do jogo lhe consumia uma boa parte dos rendimentos auferidos... Melhor sorte teve José Daniel Rodrigues da Costa, seu contemporâneo, que conseguiu viver do que escrevia e publicava, mas teve que trabalhar muito e deixar obra larga.
Que isto da poesia não é boa enxada, nem lucrativa, pelo menos, em Portugal.
De prosas viveu Camilo, mas teve que se esgadanhar a escrevê-las. E se não fossem os bens e rendimentos da Dª. Ana Plácido, provavelmente, ainda teria vivido pior. Eça também se queixava muito, apesar de escritor de sucesso e diplomata em exercício, que não seria mau ofício quanto a salário, decerto. No século XX, só me lembro de Ferreira de Castro e Agustina terem vivido da pena. Cesariny, só quando se desdobrou em pintor, é que teve um crescente desafogo na bolsa. E foi pela pintura que enriqueceu.
Li em Le Monde, recente, que são raríssimos, em França, os escritores que não têm uma segunda profissão, para poderem sobreviver. Lá como cá, seguramente.
E dos novos lusos publicistas? De tão fraca laia e escrita de água chilra? Viverão de biscates e croquetes de vernissages? É que muitos deles nem sequer chegam à mediocridade rentável de Houellebecq, que lá vai vivendo, em França, do que escreve. Tem, por ele, a sorte dos seus leitores não serem muito exigentes. E o sentido crítico, em grande parte deste mundo, andar pelas ruas da amargura.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Freud, Eça, ambições, fogos e património - uma outra miscelânea...


Os Pêerres, todos eles, é suposto dizerem qualquer coisa, mesmo que circunstancial, quando um grande incêndio nacional lhes bate à porta. Não fugiu à regra o PR brasileiro, com gel, e cagança hipócrita, ao pronunciar-se sobre a tragédia que, lambeu pelas chamas, uma considerável parte do Património do nosso País Irmão, no Rio de Janeiro.
Em tom menor, e medíocre como é habitual, dei hoje pelo Eusebiozinho (vide Os Maias) nacional, que escreve, com barba por fazer, no jornal Público, às terças, quintas e sábados, a desafiar o nosso mais ocupado e frenético diplomata, sobre o tema candente (?) da recondução ou não, da nossa inefável PGR, joaninha. A ver se o embaixador lhe resiste... Ao bochechudo.*
O processo é corriqueiro e muito conhecido. Desinquietar os famosos, para ganhar espaço e visibilidade. Até o nosso eterno e putativo Nobel adiado o usou, nas suas primícias juvenis. Ao desinquietar Vergílio Ferreira. Que não lhe ligou peva, acertadamente.
(Abstenho-me, naturalmente, de citar os nomes dos peões de brega...)

* Em tempo (7/9/2018): o Embaixador não resistiu...

domingo, 5 de agosto de 2018

Acasos, oportunidades, gostos


Por mero acaso, ontem, tive a oportunidade, e felicidade, de ouvir, em sequência intervalada, entrevistas a 3 escritores, qualquer delas interessante, tendo em conta a bagagem de experiência pessoal, a obra e inteligência dos autores, mas também a qualidade dos entrevistadores, que acaba por ser, nestes casos, decisiva e fundamental. Foram eles, por ordem cronológica: John Le Carré, Salman Rushdie e, finalmente, Jacinto Lucas Pires.
Tenho de confessar que a entrevista que mais me agradou foi a de John Le Carré, talvez porque seja o escritor cuja obra conheço melhor, mas também porque gosto muito de o ler. Não digo adorar, porque é um verbo que não entra no meu léxico deste tipo de coisas, nem sentimento que costume experimentar.
Pus-me a divagar depois. E, se é certo, que se reflectir um pouco, eu sou capaz de explicar, em palavras simples, a razão por que aprecio Camilo e Eça, Maugham e E. M. Cioran, teria uma enorme diculdade em justificar e argumentar o meu gosto pelas obras de Simenon ou de John Le Carré. Socorro-me de Pascal, que dizia: O coração tem razões que a razão desconhece.

terça-feira, 24 de julho de 2018

A facilidade e o entretenimento


Com a ligeireza característica que é apanágio da reflexão bloguística, vou escrever uma blasfémia (só para alguns) foleira: Eça é melhor que Camilo. Que tenho grandes dúvidas em subscrever.
Predominantemente, como em todos os países europeus, e até finais do século XIX, a literatura portuguesa situou-se em cenários rurais, onde, aliás, grande parte da população vivia.
Eça, por cá, foi a grande excepção, Camilo, a regra.
Depois, o neo-realismo do sul da Europa, sobretudo, acabou por prolongar essa agonia.
É evidente que há grandes romances de cenário rural, por esse mundo. De Lampedusa, de Steinbeck, até de Mauriac. Mas tão só de grandes escritores, que, em Portugal, não são muitos. Façamos então justiça a Camilo e a Aquilino, cada vez menos lidos. Pelos mimosos citadinos lusitanos.

O ar do tempo


Todos os anos, por alturas do Verão, o TLS costuma questionar umas quantas personalidades, de vários quadrantes culturais, sobre os livros que vão ler nas férias. 
Este ano (TLS, nº 6015) não foi excepção, e são 22 os inquiridos, entre romancistas, críticos literários e ensaistas. Como Portugal está na moda, há duas referências ao nosso país. De Leslie Jamison (1983), que fala de uma sua anterior vinda a Lisboa, e de Becca Rothfeld que, elogiando a riqueza da literatura portuguesa, destaca: "The Maias" (Dedalus), a realist family chronicle by the nineteenth-century Portuguese master José Maria de Eça de Queiroz, who was much lauded in his lifetime; he was regarded by Émile Zola as "far greater than my own dear master, Flaubert."
Infelizmente, esta opinião já não terá chegado a tempo, nem terá sido tomada em conta pela misteriosa instituição ministerial, talvez coadjuvada pelo inefável grupo do académico Plano Nacional de Leitura, ao seleccionar o futuro. Foi pena...

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Desabafo (35)


Os jornais noticiam que: Os Maias deixam de ser leitura obrigatória no Secundário. Pois muito bem!
Sugiro que os professores, na sua inefabilidade construtiva, substituam Eça, pela leitura da Caras ou do CM. Mas tão só dos títulos, em maiúsculas, para não cansar muito o olhar e as meninges das criancinhas.

terça-feira, 27 de março de 2018

A propósito de vinhos, em geral, e o de Colares, em particular


Creio que a mais antiga referência escrita a vinho português é ao Charneco que, provavelmente, identificava o vinho de Bucelas. Shakespeare, no seu Ricardo III, perpetua a lenda (?) de o duque de Clarence (1449-1478) se ter afogado, ou ter sido afogado, num tonel de Malvasia. O que significa que, já nessa altura, o vinho da Madeira (?) era conhecido na Inglaterra.



Se, enologica e literariamente, Eça é cosmopolita e variado, referindo, nos seus romances, vinhos espanhóis e franceses, o Dão e  o Colares (abundante em Os Maias), o Bucelas e outros vinhos nacionais, Camilo é mais terrunho e limitado. O vinho Verde, nomeadamente de Basto, é muito citado, mas pouco mais aparece, para além de um vago vinho de Setúbal (?) e outro do Cartaxo, nos seus livros.



O Estado Novo optou, marcadamente e com bom gosto, é certo, pelo vinho do Dão, seguindo os seus chefes. Que Salazar produzia nas suas courelas de Santa Comba o vinho que ele consumia em S. Bento, e o venerando Thomaz tinha um fraquinho especial pelo Dão Terras Altas que, na época, era seguramente um bom vinho, lotado com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Jaen.



Mas voltemos ao vinho de Colares, predominante da casta Ramisco, em chão de areia, que conseguiu resistir à filoxera, e que era uma referência literária até meados do século XX. Eu não sou grande apreciador da sua rudeza, apenas mastigável nos primeiros anos. Depois, escapa.
Mas que belos cartazes publicitários, e postais se fizeram dele! Aqui deixo, em imagem, alguns que têm como motivo trajes regionais portugueses.
(Pena não saber quem os fez...)