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quinta-feira, 20 de junho de 2024

Retratos (33)

 


É de Duarte Nunes de Leão (1530-1608), na sua Crónica alusiva, que traça assim o retrato de D. João I (1357-1433):

"Foi El-Rei D. João homem de rosto formoso, e grande corpo, e mui bem proporcionado, e de grandes forças, segundo se vê por algumas peças de armas, que estão no armazém do  Reyno, em que há um elmo de grandeza não vulgar, e uma facha de armas, com que soía pelejar, que se não pode manejar sem grande força. Do ânimo foi mui esforçado, e verdadeiramente magnânimo; nos contentamentos, ainda que fossem grandes, nunca lhe enxergavam no rosto alegria, nem nos casos adversos tristeza, mas tinha sempre uma perpétua serenidade, que dava testemunho de seu grande ânimo, e constância. Era mui clemente, e piedoso, no que também mostrava sua magnanimidade. Pelo que a muitos, que o ofenderam, e que conspiraram contra ele para o matar, lhes perdoou, e restituiu a sua graça; e lhes fez sobre isso honras, e mercês. Dos serviços que recebia era tão agradecido, que a muitos deu mais do que esperavam, sem aguardar que lho pedissem. (...) Finalmente por ele ser tão justo, e magnânimo Rei, e tão excelente Capitão, e haver nele juntas todas as virtudes, que nos seus passados eram derramadas, lhe deram a honorífica alcunha de Rei de boa memória."

terça-feira, 25 de julho de 2023

Bibliofilia 206



É uma edição estimada, esta de 1780, das Cronicas... de Duarte Nunes de Leão (c. 1539-1608), uma vez que se trata da segunda impressão, sendo a original de 1600, e que também possuo (ver Bibliofilia 174, de 23/4/2019). Em dois volumes, bem encadernados em carneira não contemporânea, com alguns raros picos de traça, inicialmente a obra terá sido vendida por Sérgio Trémont, alfarrabista já falecido, que teve o seu estabelecimento na rua de Cedofeita, no Porto.
Posteriormente, estes agora meus exemplares foram adquiridos, pelo final do século passado (Junho de 1999), num leilão de José Manuel Rodrigues (Livraria Antiquária do Calhariz), por Esc. 23.000$00.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Bibliofilia 174


Dia Mundial do Livro - dizem. E dos Direitos de Autor, que se celebram hoje, convencionalmente.
Ora, o livro mais antigo, que eu tenho na minha biblioteca, é ainda do século XV, porque a sua data de impressão é de 1600, considerado o último ano desse século, para efeitos de demarcação, no tempo.
Trata-se de Primeira Parte das Chronicas dos Reis de Portugal, de Duarte Nunes de Leão, impresso em Lisboa, por Pedro Craesbeeck. Uma primeira edição que Tarcísio Trindade (1931-2011) anotou, a lápis, de "raríssima", na sua caligrafia limpa e característica. Ao invulgar volume, falta-lhe infelizmente a folha de rosto e o índice, o que desvaloriza o livro. Mas a obra, de resto, está perfeita e íntegra de texto.
Contextualizando. Por alturas do mês de Julho, nessa época, e depois de receber o subsídio de férias, eu costumava acompanhar, minuciosamente, a entrada de livros, na rua do Alecrim, nº 44, para seleccionar uma obra mais cara e rara, a que a minha bolsa, mais bem recheada, se podia permitir. Depois, desencadeava a pergunta sacramental, que apenas uma vez por ano pronunciava: Sr. Trindade, qual é o menor preço que pode fazer a este livro?
Foi assim que adquiri, alguns dos livros mais importantes da minha biblioteca tais como as Definições e Estatutos...da Ordem de Christo (1628), também impresso por Pedro Craesbeeck, uma rara primeira edição de Rubén Dário, com dedicatória, de 1897, El Parnasso Español... (1652), de Quevedo, a edição original de Clepsydra (1920), de Camilo Pessanha, e alguns, poucos, mais.
Paguei pelas Chronicas..., em 1990, Esc. 15.000$00, ao sr. Tarcísio Trindade. O livro pertencera, anteriormente, ao advogado Abel Maria Jordão Paiva Manso, conforme ex libris. Recentemente (2017), a mesma obra, mas totalmente íntegra, estava à venda num conhecido livreiro-alfarrabista lisboeta, por 1.400 euros.
E esta é a minha história bibliográfica para o Dia Mundial do Livro que, hoje, se celebra.