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sexta-feira, 13 de junho de 2025

Comic Relief (164)

 

É passível de variadas interpretações, quanto a mim, este curioso cartoon de Selçuk (1954), inserido recentemente em Le Monde. Entre a artificialidade da profissão em causa (diplomacia) e seus agentes flexíveis, e as guerras que, por interpostos terceiros, grassam no mundo, por exemplo.
Que cada um faça a sua própria leitura.

domingo, 25 de maio de 2025

Do que fui lendo por aí... 69



Nem sempre a pequenez de um país o remete, fatalmente, para a sua insignificância diplomática ou para uma neutralidade política obrigatória. É isso que me vem dizendo a leitura (vou na página 107 das 592 totais) deste interessante livro, capa em imagem acima, que me foi emprestado por H. N., em boa hora.
Em abono dessa ideia inicial eu poderia também lembrar Cuba dos tempos de Fidel ou até mesmo a Coreia do Norte e o seu algo ridículo Kim Jong-un, presentemente.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Medicina e diplomacia

 

Inesperada oferta amiga de dois títulos que, sendo de autores afastados dos meus quadrantes ideológicos, prometem seguramente elegância de escrita e reflexões apuradas.



Acresce ainda que os dois livros ostentam dedicatórias manuscritas dos seus autores, um médico conhecido já falecido e um diplomata ainda vivo.
Agradecimentos a H. N..

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Do que fui lendo por aí... 43

O livro é de leitura agradável, convidando à fluidez natural dos temas e à elegância da escrita. O autor, pertencente a uma dinastia que se foi perpetuando nas Necessidades, reuniu no volume textos vários já publicados em revistas e jornais (JL, sobretudo, Grande Reportagem, Semanário...), abordando assuntos literários, políticos, sociais. Escolhi umas linhas, da página 290/1, em que Marcello Duarte Mathias (1938) fala de enologia e Cascais, assim: "Das coisas que me divertem, logo que chego a Portugal, é ir ali a uma loja de vinhos em Cascais abastecer a minha mini-cave com meia dúzia de boas garrafas de tinto e branco, é sempre dinheiro bem gasto. Não sendo, todavia, grande enólogo, aconselho-me com um senhor simpático que trabalha no local e que já conhece os meus gostos e preferências. Lá me vai recomendando uns brancos secos, mas não muito, uns tintos leves e saborosos de cor fina até acertarmos naquilo que procuro. E ali me deixo ficar um bom pedaço naquela penumbra convidativa, a admirar o figurino e a elegância das garrafas, alinhadas nas prateleiras de madeira como livros ao longo duma estante, os rótulos e os pormenores que referem as regiões donde provêm..."

Percebi o porquê da minha preferência e selecção do texto do Embaixador, lembrando-me que em meados dos anos 70 também por lá andei (Cascais), e dessa (creio) loja trouxe uns Messias Garrafeira Particular, brancos, e uns Colares Chitas, tintos, que deixei amadurecer na minha garrafeira para proveito meu, da família e de bons amigos que me acompanharam à mesa, anos depois.

grato reconhecimento a H. N., que me proporcionou esta leitura amena.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Do que fui lendo por aí... 41

Lá (França) como cá (Portugal), no Quay d'Orsay, bem como nas Necessidades, os Ministérios de Negócios Estrangeiros são, habitualmente, vespeiros e viveiros activos e reprodutores de gentes de direita. Tirando os embaixadores politicos nomeados do exterior, por governos em funções (estou a lembrar-me de José Cutileiro, Fernandes Fafe e Álvaro Guerra, dos poucos diplomatas que comungavam à esquerda), a regra é à direita. Embora muitos tentem passar (mal) por neutros...


Neste livro (Coups et Blessures, 2011, Cherche Midi) que ando a ler com grande gosto e interesse, Roland Dumas (1922), que foi ministro dos Negócios Estrangeiros (1984/6 e 1988/93), sob Mitterrand, põe o dedo na ferida (pg. 213), com a elegância e humor que lhe são próprios. Assim: Le couleur politique des diplomates n'avait pas d'importance a mes yeux. Il valait mieux car, de par leur origine familiale et le marle culturel qui était le leur, ils sont le plus souvent de droite. Le Quai (d'Orsay) a toujours penché à tribord (pg. 213).


com agradecimentos a H. N..

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Osmose 108


Até nos vários graus da diplomacia se podem encontrar diferenças abissais. Na sua prática, pelo menos. Mas é preciso dar por elas e, para isso, é necessário ter algum sentido crítico: pesar o português da escrita, o tipo de humor e motivos abordados, o sentido de mundo que revelam. Até talvez as imagens que utilizam, para estabelecer uma hierarquia de qualidade e de gosto estético.
É com alguma regularidade que frequento 2 blogues da aristocracia diplomática, já aposentada. De ambos colho proveito. Quer do hebdomadário Retrovisor, quer do quotidiano Duas ou três coisas... Têm perspectivas e mundos diferentes. E, naturalmente, não se podem meter no mesmo saco das Necessidades.
Diplomaticamente: até pela diferença de idades...

terça-feira, 6 de agosto de 2019

História e diplomacia


Tenho vindo a ler ( a princípio, imaginei que fosse fastidiosa...), com crescente curiosidade e interesse, a correspondência diplomática de J. F. Borges de Castro (1825-1887), representante português na corte de Turim, endereçada para as Necessidades, durante os anos sessenta do século XIX. Esta correspondência diplomática, publicada, termina em 4/10/1870. É uma época crucial para a mini-Itália recém criada, que ainda não tinha englobado o Veneto (pertença ainda do império austro-húngaro) nem os territórios pontifícios de Pio IX. Mas já Garibaldi e os seus guerrilheiros ameaçavam estes últimos.
A correspondência foi coligida e seleccionada por Eduardo Brazão (1907-1987), para a revista Biblos (vol. XXXVIII, 1962), com cuidadosa inteligência. E ocupa 534 páginas da publicação da FLUC.
É também por esta altura (1862) que se começa a tratar do casamento de Maria Pia, filha de Vitor Emanuel II (1814-1878), com o nosso rei D. Luís. E a Itália, apesar de muitíssimo endividada (como hoje, aliás...), ainda ajusta um dote de valor considerável para a nossa futura rainha. Procurando insistentemente o apoio da Prússia e de Bismarck, para equilibrar a defesa aguerrida que Napoleão III, da França, faz do Papa e seus territórios, Vitor Emanuel II desenvolve, cumulativamente, uma rede de contactos com a Rússia e a Inglaterra.
Os relatórios e correspondência de Borges de Castro são de uma meridiana clareza, em todos os aspectos, definindo até as individualidades italianas que deveriam ser agraciadas com comendas portuguesas, por altura do casório régio (dantes como agora, muitas...). E ainda mais umas quantas, quando, 2 anos depois, os reis portugueses vão a Itália mostrar ao avô Emanuel, o seu neto Carlos de Bragança, nosso futuro rei.
Mas o que mais me surpreendeu, foi o retrato que Borges de Castro traça de Garibaldi (1807-1882). Um autêntico antecessor de Che Guevara e já incómodo, na sua irrequietude belicosa, para os políticos conservadores italianos. Um pouco como depois Guevara terá sido, algo incómodo, para Fidel... A história repete-se, com algumas semelhanças, nos comportamentos humanos.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Do que fui lendo por aí... 26


Li ontem uma boa parte da correspondência diplomática de Almeida Garrett (1799-1854), enquanto representante português em Bruxelas. As cartas lêem-se quase como um romance desesperado, à espera de uma solução airosa, que tarda, sobre o pagamento de salários do nosso cônsul na Bélgica. De 5/8/1834, pelo menos, até 30/9/1835, o nosso homem em Bruxelas implora e reclama o que lhe é devido. Como ele sobreviveu todo esse tempo, não nos é dito. Para além de se endividar, continuadamente. E até o pão adquirir fiado...
O silêncio olímpico da nossa secretaria de Estrangeiros, em Lisboa, provoca, no leitor, perplexidade e revolta, pelo injusto da situação. Por outro lado, a não resolução de algumas questões administrativas e burocráticas, por parte da tutela, aos pedidos de autorização de Garrett, acrescentam e denunciam, de forma flagrante, o laxismo e a indiferença dos burocratas das Necessidades, nessa época.
A minha experiência de salários em atraso é única e curta. Ocorreu apenas uma vez. Data de 1976, quando o meu ordenado se vencia a 29 do mês e só veio a ser pago no dia 5 do mês seguinte. A angústia dessa semana de incerteza ficou para sempre marcada na minha memória profissional...

terça-feira, 31 de julho de 2018

Necessidades, protocolo e diplomacia


É sabido e normal que, a nivel de sondagens e popularidade, o ministro dos Negócios Estrangeiros, por regra, mantém uma invejável constância de resguardo que o defende da erosão do poder, em qualquer equipa ministerial. Também os chefes de protocolo, habitualmente, passam incólumes por alternâncias de regime, mantendo o seu lugar, mesmo quando as ditaduras são apeadas para dar lugar à democracia. Assim aconteceu, entre nós, depois do 25 de Abril, em que o chefe de protocolo da Presidência da República manteve o seu cargo. Talvez para ensinar as regras aos vindouros que, inexperientes, provavelmente desconheciam os rituais de Estado e precisavam de um guia-professor encartado.
Mas há nisto, também, algo de camaleonismo que permite a estas figuras de topo, da administração pública, adaptarem-se às circunstâncias, sejam elas quais forem. Bem assim como os diplomatas, que tentam aparentar uma neutralidade e isenção à prova de bala... E que lhes permite sobreviver às contingências da História, para seu conforto. A diplomacia quase sempre foi, avant la lettre, o Centrão impoluto de qualquer regime.


Um dos casos mais exemplares é o da trajectória de Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838), em França. Este inteligente e célebre diplomata sobraçou a pasta dos Negócios Estrangeiros gauleses e outras altas posições políticas durante o Directório, Império e Restauração, numa longevidade de funções absolutamente extraordinária. E a sua carreira, ao longo do tempo, não sofreu a menor beliscadura profissional - foi-se adaptando, sucessivamente...
São dele duas tiradas conhecidas e surpreendentes, que passo a citar:
- A traição não existe, é tudo uma questão de datas.
- O objectivo da diplomacia não é ter razão, mas evitar humilhar o adversário.
Com estes princípios não há dúvida que a estabilidade da posição será mais simples de manter, mas outro tanto não se poderá dizer da coerência de atitude. E talvez a honorabilidade peque por defeito, vista de um ponto de vista um pouco mais rigoroso...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Máxima anónima


Um diplomata é um homem que se lembra da data do aniversário de uma senhora, mas se esquece de quantos anos ela faz.

Anónimo

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Castas


Famílias há, em que as vocações se perpetuam, um pouco por devoção atávica, conveniência ou por hábito acomodatício. Até, quem sabe, por adaptação genética, inexplicável. Assim acontece, por exemplo, na sucessão de escritórios de advogados, consultórios médicos em que as gerações se eternizam, como que num determinismo inexorável e previsto. O mesmo acontece com muitas famílias políticas: Kennedy, Papandreou, Gandhi (Nehru), Soares... Apesar de tudo, nestas dinastias, referidas atrás, haverá sempre algum risco possível ou, nalguns casos, a ousadia e ambição de ir mais longe do que os antecessores - embora nem sempre bem sucedidas, nem isentas de algum perigo de carreira.
Mas dei-me conta, ao longo da leitura de um livro do embaixador Marcello Duarte Mathias (Diário da Índia - 1993-1997), como a casta de diplomatas - que quase nada arrisca - ao longo de gerações tem, quase sempre, o futuro assegurado, colhendo, por educação, mimetismo e contactos privilegiados, os lugares que os seus antecessores também tiveram, no passado, sem dificuldades de maior. Bastará, apenas, prudência, gradual adaptação a novos regimes políticos, camaleonismo e alguma inteligência no saber viver, em altas esferas.
E é curioso como o único embaixador, que sai "fora do baralho", porque não pertencendo, por família, à casta dos intocáveis, de nome Fernando de Castro Brandão - que, por acaso, eu conheci, ainda jovem universitário - é, também, o único que é beliscado, diplomaticamente, por M. Mathias, como sendo "trocista e truculento" (pg. 300).
Creio que está tudo dito...