A história conta-se em algumas palavras. Eu costumava frequentar, em Agosto, uma sombria livraria da Póvoa de Varzim, creio que na Rua Tenente Valadim, paralela à Rua da Junqueira. O dono, e único atendedor, não era lá muito simpático. Mas era, também, poeta amador, daqueles que juntam versos, em quadras. Tinha publicado, em edição de autor, vários livros de poesia e, de cada vez que eu lá ia, aproveitava para me tentar vender algum. Só lhe comprei um, que dava pelo saboroso título de "Escrínio dos cem beijinhos". O livreiro era viúvo e tinha, na sua loja, imensas primeiras edições já esgotadas, em Lisboa: Sophia, Cinatti, Tomás Kim... Comprei lá vários desses livros que ainda têm o carimbo "Livraria Académica". Eu cobiçava-lhe também uns cartapácios que ele tinha arrumados na última prateleira, alta, junto ao tecto - que não, eram da sua biblioteca, dizia ele.
No Verão de 1970 ou 1971, fui lá com um familiar, e achei o homem diferente: menos antipático, mais amável. Disse-me, depois, que já podia vender os livros que eu cobiçara, anos a fio. Tinha tido dois enfartes e ia viver para o Porto, com o filho e, por isso, ia fechar a loja. Comprei bastantes coisas - dentro do que me permitia o orçamento da altura. Entre elas, 42 volumes de " O Viajante Universal" do Senhor De Laporte (a obra, "rollandiana", terá 51 ou 52 tomos), a Esc. 2$50, cada um. Regressei a Esposende, na companhia do Tó, com uma abada de livros. Para lá do poeta amador da Póvoa de Varzim, os livros pertenceram, antes de mim, a Thomaz António da Silva Gama, de Sta. Comba Dão, e, também, a Jozé Paulo (Ferreira?), da mesma localidade. Hoje, estão comigo. Até quando?
Não é frequente "O Viajante Universal" aparecer à venda. E, quando isso acontece, só tomos dispersos. Em 40 anos, só consegui adquirir mais um, na antiga Livraria Histórica e Ultramarina, do saudoso Aquário, Senhor Almarjão. Em Maio de 1998, num leilão do Correio Velho, havia o tomo XVIII para vender, mas esse já eu o tinha...