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domingo, 30 de junho de 2024

Memória 149

 

Por mero acaso e num zapping saudoso, demorei-me talvez um pouco mais na tv, atento, na visão do filme Doutor Jivago (1965) de David Lean (1908-1991), baseado no romance homónimo de Boris Pasternak (1890-1960). O escritor russo obtivera o prémio Nobel em 1957, polémico, numa altura em que o galardão nórdico tinha ainda uma certa credibilidade e era garantia de qualidade, embora nem sempre de isenção política. O poeta não fora sequer autorizado a sair da URSS, para receber o prémio.
Editado pela Bertrand (1965) o romance, traduzido da versão italiana por Augusto Abelaira, tinha um prefácio de Aquilino Ribeiro e uma antologia poética, no final, em versão de David Mourão-Ferreira - foi um sucesso de venda, na altura, naturalmente. Consumi a minha Mãe para comprar o livro, que não era barato, mas acabei por nunca o ler todo. O filme é que me ficou na memória. O elenco era imponente: Julie Christie, Omar Sharif, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Alec Guiness, Ralph Richardson...
Não esquecendo a banda sonora de Maurice Jarre.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Esquecidos (4)

Enquanto 3 canónicos e bolorentos académicos vêm definir em livro, inquisitorialmente, o que se deve ler e lembrar na literatura nacional, venho eu, com generosidade liberal, recordar um mavioso esquecido: João Xavier de Matos (1730?-1789), poeta de tardios acentos camonianos. 



As dez entradas do vate no registo do Arpose dispensam-me que dele fale em pormenor neste undécimo poste. Mas direi que dele falaram bem Garrett, Jacinto do Prado Coelho e David Mourão-Ferreira, pelo menos. E os cegos cantavam os seus versos suaves pelas ruas de Lisboa. A sua Écloga de Albano e Damiana teve inúmeras impressões, muito embora a primeira edição das suas obras em livro só tenha aparecido em 1770.



O Poeta, que gozou da protecção do Marquês de Nisa e de Fr. Manuel do Cenáculo (na BPE existem inúmeras cartas e manuscritos seus), foi sendo reeditado até ao primeiro quartel do séc. XIX, mas depois deu-se-lhe um quase total apagamento. Nascido, porventura em Alfange (como sugere J. do Prado Coelho), no termo de Santarém, João Xavier de Matos viveu em Lisboa, Porto (alguns poucos anos, onde se fez sócio da Arcádia Portuense), Vidigueira e Vila de Frades, onde veio a falecer. E onde tem nome de rua.

Aqui ficam dois sonetos seus do primeiro tomo dos três existentes da sua obra esquecida.

sábado, 25 de maio de 2019

Memória 131 (de uma Colecção)


Os tempos leveiros de espírito que vamos vivendo, talvez ajudem a explicar a inexistência, que eu saiba ou me lembre, actualmente, de uma colecção de ensaística com a qualidade desta da Ática, em imagem, que se prolongou por quase três décadas, em Portugal.
Mas também a Sá da Costa, a Verbo, a Editora Ulisseia tinham as suas colecções de estudos e ensaios que, não sendo propriamente académicos, ajudavam os leitores a pensar e a desenvolver o sentido estético e crítico.


Hoje, as editoras estão mais preocupadas e interessadas em promover obras de auto-ajuda, para uma população cada vez mais carecida de competências e infantilizada, biografias pífias de pivots televisivos para consumo bisbilhoteiro do populacho, ou ficções paupérrimas de publicistas que fazem da sua exposição pública o ganha pão da sua actividade mercenária. O ensaio deixou de estar na agenda da edição e também, talvez, do público leitor.


Dos ensaístas aqui representados, apenas José-Augusto França (1922) sobrevive. Mas é sempre um reencontro enriquecedor revisitar Sena, Mourão-Ferreira e Prado Coelho nas páginas memoráveis destes ensaios da Ática.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Mário Cláudio, testemunho sobre 3 confrades já falecidos


Em entrevista muito interessante publicada recentemente (16/10/2015) na revista ípsilon (jornal Público), o escritor Mário Cláudio (1941) caracteriza, de forma sucinta, o temperamento de Eugénio de Andrade, Jorge de Sena e David Mourão-Ferreira. Tendo convivido com eles e por se tratar de um testemunho pessoal curioso, aqui ficam exaradas as suas palavras, para memória futura:
"Podia ser-se amigo do Eugénio, mas não um amigo incondicional. Quem o tentou, ficou esmagado. Não era possível. Pela personalidade dele, que era muito possessiva e manipuladora. Já o Sena era temível. Convivi menos com ele, uma vez que estava no estrangeiro, mas era vulcânico, uma pessoa um pouco assustadora naquele seu gigantismo, que se manifestava aos mais diversos níveis. De todos eles, com quem tive uma relação mais afectuosa foi com o David, que ao contrário do que se pensa era tudo menos um mundano, embora gostasse de conviver, sobretudo com mulheres. Era um homme à femmes irredutível. E como é frequente em personalidades desse tipo, era infiel nos amores, mas fidelíssimo nas amizades."

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

David, sobre Eugénio (em memória e a pedido...)


Quase todos falarão da sua poesia, que sempre soube aliar com extrema sabedoria o sensorial desalinho ao disciplinado clássico, numa quase impossível simetria; os próximos poderão falar decerto da sua humana e afável generosidade, que nem sequer - que eu saiba - tinha ódios de estimação. Mas eu, hoje, gostaria de destacar o seu lado, talvez menos visível, de crítico competente e profundo, isento também - o que é mais raro num país que não abunda em sentido crítico nem na análise serena dos factos. E, no dia em que passam 87 anos, sobre o seu nascimento, vou lembrá-lo, através das suas palavras que constituem uma das melhores análises críticas (de grande acuidade sensível e certeira) para a compreensão da poesia de Eugénio de Andrade. As palavras são de David Mourão-Ferreira (Vinte Poetas Contemporâneos, Ática, 1960):

"...A poesia de Eugénio de Andrade apresenta-se corajosamente superficial - e de uma superficialidade tão subtil e envolvente, tão reticente embora capciosa, que só ao fim de repetidas leituras cabalmente se impõe. É certo que tais repetidas leituras trazem consigo o risco de revelar a estrutural inanidade de uma poesia como esta, que, em vez de penetrar no espírito do leitor, parece tão-somente deslizar, derramar-se sobre ele. Mas, então, já o espírito se encontra sob os efeitos desse epidérmico sortilégio; e nem reage. Um dos maiores triunfos da poesia de Eugénio de Andrade consiste justamente nessa capacidade de entorpecer, por meios muito simples, mesmo frívolos, aparentemente ingénuos ou desajeitados, o espírito de leitores aliás exigentes em outras circunstâncias. ..."

(Correspondendo ao desafio de A. C.)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Traduzir, segundo D. Mourão-Ferreira e Valery Larbaud


Na introdução às Poesias de Guilevic, editadas pela Editora Ulisseia, em 1965, David Mourão-Ferreira, com a prática de tradução que lhe assistia, escreveu o seguinte:
"... O que mais interessa, aliás, numa tradução de poesia, é obter uma série de correspondências - de ritmo, de tom, de atmosfera, de sentido -, ainda que para tal se tenha de entrar em guerra aberta com o Dicionário. Valery Larbaud, que discorreu como ninguém mais, sobre «a arte e o ofício» do tradutor, sublinhou a importância, entre todos os outros, do «Dicionário da nossa memória», observando, nomeadamente, que, por mais contrário que pareça toda a lógica, «uma única e mesma palavra, empregada pelo Autor em duas diferentes passagens não será sempre traduzível pela mesma palavra nas duas passagens correspondentes».

domingo, 16 de junho de 2013

Memória (80) : David Mourão-Ferreira (24/2/1924 - 16/6/1996)


"Para alguns poetas, um livro é a súmula de uma crise; para outros, um mero panorama da sua própria criação durante um certo lapso de tempo. São, no geral, os primeiros, ao contrário dos segundos, temperamentos mais dramáticos do que líricos, e as suas obras apresentam uma unidade involuntária, essencial, que as dos outros não conseguem obter. ..."

David Mourão-Ferreira, in Vinte Poetas Contemporâneos (pg. 98).

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Bibliofilia 66 : uma boa surpresa



O livro é excessivamente datado pela capa e contracapa, que contêm fotografias de David Mourão-Ferreira e Vasco da Graça Moura em trajes e cabelos marcados, pelos anos 70. Foi editado em 1978, pela Brasília Editora (Porto), e não é raro, até porque só me custou 4,00 euros, num alfarrabista aonde muito raramente vou. A boa surpresa, só dei por ela em casa. A páginas 73 vem uma dedicatória manuscrita de David - nem eu me apercebi, ao comprar o livro, nem o alfarrabista terá dado por ela. Se tivesse visto, o livro seria um pouco mais caro, de certeza. E aí vai, a jeito de bónus, um epigrama de Mourão-Ferreira, inédito, na altura. Tem por título Permanência:

Cantam em provençal os pássaros de Maio
Mas em grego e latim as cigarras de Julho.

para o António, de um poeta que é de sua Família.

sábado, 16 de junho de 2012

Lembrar David


David Mourão-Ferreira morreu a 16 de Junho de 1996. Lê-lo, é a melhor forma de o lembrar. Neste caso, através do Soneto dos Quartos de Aluguer:

O amor é só de quem os olhos cerra
no desalmado instante da entrega.
Cerrai-vos, olhos meus, antes que cega
vos cegue a lucidez que nos faz guerra.
Cerrai-vos, olhos meus, que os indiscretos
são punidos com leis muito severas...
Cerrados, sentireis... que primaveras!
Abertos, que vereis senão objectos?
E que abjectos objectos! tão prosaicos!:
tapetes de aluguer com flor's manchadas;
entre os pés do biombo, continuadas
as tábuas do soalho por mosaicos...
...Sempre esse frio sórdido, a seguir
ao fogo em que nos qu'remos consumir!

terça-feira, 20 de março de 2012

René Char dito por ele mesmo



Nem todos os artífices saberão trabalhar, devidadamente, com as ferramentas que produziram. Nem todos os poetas são perfeitos a dizer os seus poemas, ou os poemas dos outros. O meu amigo António é exímio, em ambos os casos. Eugénio de Andrade e David Mourão-Ferreira diziam muito bem. Já Sophia, na minha opinião, era excessivamente pernóstica e hierática, a ler os seus próprios versos.
Mas René Char, como poderemos ouvir por este vídeo, também dizia muito bem os seus versos. E com grande simplicidade.

com os melhores agradecimentos a ms.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Rutebeuf (1) traduzido por David Mourão-Ferreira


Sabe-se muito pouco sobre o poeta francês Rutebeuf (1230?-1285?). O próprio nome por que é conhecido será, porventura, uma alcunha. O excerto de "Do estado do Mundo" foi traduzido por D. Mourão- Ferreira.
O cantor Léo Ferré dedicou-lhe a canção "Pauvre Rutebeuf" que se pode ouvir no poste seguinte. Agora, a versão portuguesa dos versos do poeta medieval:

Perdeu-se o costume
de pensar nos outros
Assim vai o mundo
cada vez mais torto.

Hoje é toda a gente
ave de rapina:
nem gente se sente
alguém que não pilha.

Já a Caridade
é uma coisa morta.
Só por grande acaso
lhe achareis a porta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Guillevic, traduzido por David Mourão-Ferreira


Subúrbio

A custo de pé se mantêm os muros
Ao longo desta rua
Íngreme, cheia de curvas.

Dir-se-ia que vieram todos, os do bairro,
Enxugar as mãos gordurosas no rebordo das janelas,
Antes de em conjunto penetrarem na festa
Onde parecia cumprir-se o seu destino.

Vê-se um comboio a arrastar-se por cima da rua,
Vêem-se luzes a acender-se,
Vêem-se quartos sem espaço.

Por vezes uma criança chora
Na direcção do futuro.

Guillevic (1907-1997), in Vozes da Poesia Europeia  III / Traduções de D. Mourão-Ferreira.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bibliofilia 50 : Vasconcellos Coutinho


Está muito representado na "Fénix Renascida", este autor madeirense cuja obra foi publicada postumamente (1729). Francisco de Vasconcellos Coutinho (1665-1723) era um excelente "fabbro" do barroco cultista e dominava bem as normas poéticas da época. David Mourão-Ferreira sublinha-lhe acentos camonianos e algum pré-romantismo antecipado. Só se lhe conhecem, para além das poesias publicadas na "Fénix Renascida", estes dois conjuntos de poemas, numa edição interessante, de marca joanina característica. As obras, desencadernadas, comprei-as num alfarrabista da Calçada do Carmo, nos anos 90, por Esc. 2.200$00 (cca. 11,00 euros) - pareceu-me um preço justo, na altura. Depois foram para um encadernador, ali para as bandas da Sé, que fez um bom trabalho, limpo e perfeito, atendendo às condições. Nunca mais dei, até hoje, por mais nenhum exemplar à venda. Mas suponho que não será muito raro.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fragmentos, ao final do dia


Inabitual a véspera, a manhã seguinte foi difusa. Poucas palavras, bons entendimentos. Mas quando o exterior não se organiza e é disperso, a absorção é mais dífícil, áspera - deixa sequelas por resolver, equilíbrios adiados, por dentro. E palavras que não chegaram a ser ditas, borbulhando na memória. O remate e o cansaço do dia podem ajudar, e muito.Com esta lua grande (Jimenez), em frente, espelhada no rio, quase não se pode resistir. David Mourão-Ferreira morreu hoje, há quinze anos atrás. Mas eu lembro-me é de Drummond: "...mas esta lua, mas este conhaque/ botam a gente comovida como o diabo..." (citado de memória). Valha-nos isso, para a noite ser mansa. E tranquila no espírito.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Europa, Schiller e Beethoven


Friedrich Schiller, poeta alemão, morreu a 9 de Maio de 1805. Nem toda a gente saberá que o seu "Hino à Alegria" é cantado no último andamento da 9ª Sinfonia de Beethoven. Que, hoje, personifica, musicalmente, o Hino transnacional europeu. A poesia lida tem muitas vezes vida breve. Pela diferença dos tempos, pela mudança dos sentimentos e das formas, mas a poesia cantada, mesmo obsoleta (a ópera, neste caso, pode servir de exemplo), quando envolvida pela música, tem uma vida mais longa. Não posso dizer, com honestidade, que este "Hino à Alegria", de Friedrich Schiller, seja poesia eterna, mas alguns versos mantêm, pelo menos, alguma frescura original e primaveril. Aqui vai, por isso, um pequeno excerto do poema, em justa e sábia tradução de David Mourão-Ferreira:
...Quem do amor sabe a ternura
Junte ao nosso um gozo ideal.

Mas quem nunca sobre a terra
Chamou seu um grande amor
Nosso júbilo o desterra
Chore ao longe a própria dor.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Favoritos XLIV : Horácio


O poeta Quinto Horácio Flaco terá nascido a 8 de Dezembro do ano 65 a. c. e morreu, a poucos dias de completar 57 anos, em Novembro do ano 8 a. c. . Lembro Horácio, através duma das suas obras mais conhecidas ( Carpe Diem ), na versão traduzida por David Mourão-Ferreira.

Ode a Leucónoe

Não procures, Leucónoe - ímpio será sabê-lo -
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dylan Thomas : um poema


No meu ofício ou taciturna arte
Exercida na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes repousam já na cama
Com toda a sua dor nos próprios braços,
Trabalho ao som da luz que vai cantando
Mas não por ambição nem pelo pão
Não por vaidade ou tráfico de encantos
Realizado em palcos de marfim,
Apenas sim para o comum salário
Do que em seus corações há de secreto.

Dylan Thomas, in "Death and Entrances", traduzido por David Mourão-Ferreira.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Adriano, imperador romano


Alma minha, brandinha, vagabunda,
do corpo acompanhante e moradora,
a que paragens vais subir agora,
assim lívida, e rígida, e tão nua?

Deixarás de gozar o que hoje gozas.

Adriano (76-138), em tradução de David Mourão-Ferreira.


Nota pessoal: o primeiro verso do poema, musicalíssimo no latim original ("Animula, vagula, blandula..."), serviu de epígrafe a Marguerite Yourcenar, em "Mémoires d'Adrien".

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Da Grécia : com lirismo sábio



Não aspires, minh'alma à vida eterna:
mas vai esgotando o campo do possível.

Píndaro (518a.c.-438a.c.), em tradução de David Mourão-Ferreira.