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segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Da Janela do Aposento 73: Democracia em perigo

 


Ora, quando os altos magistrados da nação, PR e outros, entram, finalmente, em rota de colisão com os princípios fundamentais da democracia, promovendo os antigos fogos da inquisição para eliminar os seus adversários mais competentes, é o quadro acima que nos explica o efeito nocivo. 

Para bom entendedor, nada mais a acrescentar !

Post de HMJ 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Da Janela do Aposento 70: Cuidar dos "doentes"

 

A falta de um amplo compartimento em casa apenas dedicado à oficina de trabalhos manuais, costura e encadernação, obriga-me sempre a soluções de compromisso, quando a disposição mental e a disponibilidade de espaço o permitem.

Como há sempre muitos doentinhos cá em casa, em lista de espera e com achaques ligeiros ou mais sérios, a oficina volante lá se instalou na sala após a arrumação das decorações de Natal.

Não faltam nesta oficina “hospital” visitas para aconchegar os doentinhos. A foto acima mostra, portanto, o senhor papel, sentado na primeira cadeira. Segue-se a senhora cartolina e cartões, conversando com a sua comadre, a senhora das peles. Todos muito atentos e virados para a mesa das operações, onde tudo está à mão de semear para tratar dos enfermos.

O “doente” que pedia mais insistentemente o seu atendimento foi o exemplar abaixo reproduzido e que tinha a sua capa dividida em duas partes. O anterior proprietário fez uma asneira da grossa: colou as duas partes com fita cola. A marca fica, pois, até ao fim da vida útil. Depois de tirar com cuidado a má da fita, restaurou-se a capa, colando no verso uma folha de papel japonês para reforçar o papel e sobretudo as badanas.

Os leitores bem sabem que os exemplares de impressos do fim do século XIX, início do século XX, sobrevivem, e mal, apenas com uma folha de papel mais encorpado a servir de portada. Por outro lado, estes livros têm uma lombada pouco resistente e, por isso, costumam marcar a consulta com frequência, pedindo um reforço  das “costas”, i.e., a encolagem da lombada, assim como um tratamento das folhas iniciais, anterior e posterior, aplicando o remédio do papel japonês.

Em cima da mesa já estão alguns doentes despachados, outros em tratamento mais prolongado, dentro da prensa, e outros ainda à espera de oportunidade.

Já deixei um aviso à porta do “hospital”: É favor marcar a sua consulta com brevidade, uma vez que o espaço será encerrado nos próximos dias.

Infelizmente, esta oficina só poderá funcionar em ambulatório !

 Post de HMJ

 


quarta-feira, 18 de julho de 2018

Da Janela do Aposento 68: Desvarios da Educação



Um olhar atento sobre a realidade – nacional, europeia e até mundial – política, social e cultural obriga-nos a pensar, seriamente, sobre este caminhar do precipício para nenhures.

Quando entidades, órgãos, personalidades – uma categoria acima do cidadão comum – questionem, actualmente, o estatuto social, a importância cultural e a necessidade ética e moral da educação, entramos no limbo que, há décadas, uma Lei de Bases abriu, a saber, determinando um ENSINO isento de princípios morais e éticos.

Convenhamos que tal dispositivo legal negava, no fundo, a essência de  qualquer acção humana – tanto de ensino como de educação – deixar o seu selo de subjectividade, feito de escolhas e de experiências que, em nada, se coadunam com este “pântano” de figuras menores, sem nenhuma noção da realidade, nem da sua responsabilidade, que nos costumam entrar pelos “canais de informação”, diariamente.

Uma pessoa com responsabilidade docente concluir que a escolha, por parte do professor, de uma narrativa entre várias, permitir que cada aluno possa ler, na sala de aula, o seu texto, apenas demonstra a “ponta do icebergue” a que chegou o desvario.

A docente em causa interiorizou, por completo, o estatuto de “actor”, satisfazendo o seu gosto de cirandar por um suposto palco, palrando, certamente, sem nenhuma preparação séria ou orientação, propósito ou saber. Caso contrário, não debitava semelhante enormidade, porque um espaço de aprendizagem, que é uma aula, não representa, como se dizia antigamente, momentos alegres para fazer: “meinhas, meninas, meinhas”!

O chamado Plano Nacional de Leitura, lançado por umas pessoas certamente bem-intencionadas e, também, bem colocadas, não corresponde a mais do que a demonstração de vaidades pessoais a ilustrar a  sua “cultura literária” ou, por outras palavras já ditas acima, conceber uma Lei de Bases da Educação, olhando para o universo familiar ao contemplar os filhos e netos em ambiente caseiro.

A queixa da extensão do Programa de Leitura obrigatório nunca impediu, que eu saiba, que os professores rejeitassem o empenho, concorrencial, despropositado e incompreensível, e a obrigação de os alunos lerem as obras do Programa ao mesmo tempo, de apresentarem trabalhos, resumos e quejandos sobre títulos do Plano Nacional de Leitura que, em nada, tinham que ver com a matéria principal.

No documento sobre o Programa de Português no Secundário, em apreciação, que tive o cuidado de consultar, aprovo o reassumir de uma leitura cronológica da literatura portuguesa. A opção de escolha nas leituras de poemas e romances apenas vincula os docentes que saibam assumir o seu papel verdadeiro, sem receios, de orientarem as SEMPRE VARIAS LEITURAS possíveis de um texto. Tarefa tamanha exige SABER, preparação e TRABALHO.

Todo o resto é palavreado oco de “cada um o seu paladar, ou tudo ao monte e fé em Deus”, que não custa nada a suportar, diariamente, para quem tenha da carreira docente uma noção semelhante ao actual presidente dos EUA, palrando e esvaziando a essência humana.

A nobreza e a responsabilidade do exercício de funções públicas, defendendo a educação e o ensino como uma das traves mestras das nossas democracias e da evolução cultural do Homem, exige saber, trabalho e humildade.

 Post de HMJ

domingo, 24 de setembro de 2017

Da Janela do Aposento 67: Luz e Sombra




Num dia NEGRO, como hoje, em que o poderoso provincianismo, IGNORANTE, alemão e a matriz liberal dos pafunços nacionais ganharam mais uma batalha na tentativa de transformar a Europa numa coutada do liberalismo, aberto aos pistoleiros e vendedores de banha da cobra, só me resta, como sempre, a esperança na educação e elevação do pensamento.

Ciente da herança cultural recebida por uma edução assente na promoção social do conhecimento, não me oponho a novos métodos de ensino. No entanto, continuo a pensar que andamos a dar pouca importância às tais “basesinhas” de que se falava a propósito da educação do Eusebiozinho n’Os Maias, numa tentativa de ganhar a batalha sobre o avanço do obscurantismo.

A preocupação, tola e recente, de não “encher” a cabecinha dos “meninos” com tralha do passado, histórico-literária, faz com que a ausência de ocupação e a negação do preenchimento espiritual com assuntos de qualidade passe a ser disponível para pasto mais aberrante, vazio e nocivo.

Oxalá que o dia de hoje seja de profunda reflexão para evitar males maiores.


Não valerá a pena falar da vergonha e do desencanto profundo perante o resultado das eleições de hoje na Alemanha, fruto  da minha aversão ao provincianismo espiritual germânico, embora defensora ilimitada da salutar vida campestre. Basta lembrar que sempre julguei, com a antecipação devida, o efeito nocivo do provincianismo bacoco, vazio e culturalmente deprimente da chanceler alemã, que, infelizmente, continua sem assumir as suas responsabilidades, tal como os pafunços nacionais, pela deriva nacionalista.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Da Janela do Aposento 63: Ordem para Formatar


A estatística reproduzida na imagem acima parece-me bastante clara quanto aos tempos que vivemos.
Relativamente a explicações para o facto da “melhoria de resultados” dos Bancos, vieram-me à memória vozes cândidas – nacionais e europeias – a quererem impor uma nova disciplina escolar: formação económica e financeira.
Esse objectivo de formação neoliberal situa-se na sequência de posturas bem mais autoritárias, de um tal “senhor sonae”, querendo impor, ao corpo docente nacional, uma sua “ordem para formatar” funcionários diligentes e submissos.
A este senhor, cá do burgo, também não interessa um ensino que se centra na sua essência, i.e., fazer pensar e, sobretudo, falar e escrever bem e correctamente. Quanto às lições neoliberais económico-financeiras, tenho dúvidas que pretendem explicar a jogada por detrás dos números acima representados.

Para mim, bastam-me as lições paupérrimas dos malfadados “gestores de conta” que se intrometam na nossa vida de forma abusiva.

Post de HMJ

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Da Janela do Aposento 63. Retórica


No passado, e por obrigação profissional, consultava, com alguma frequência e também por gosto, os Elementos de Retórica Literária de Heinrich Lausberg.
Muito aprendi sobre a “disposição da matéria”, tentando transmitir aos alunos conceitos lógicos e simples para fugirem ao “prolixo” do discurso vazio, pomposo e profundamente ridículo. Eis um exemplo a evitar:
“Amei o parlamento.” Assunção Esteves despede-se “entre o pragmatismo de Sancho Pança e o idealismo de D. Quixote”
Infelizmente, o discurso financeiro, aliado à sua vertente política, tem sido extremamente útil para avaliar da credibilidade – ou falta dela – na tentativa de  convencer, ou manipular, a opinião pública. Fica aqui outra tentativa para tentar “recuperar” algo perdido.




Duas tentativas falhadas para um discurso que se pretendia elevado e credível. É pena que não tenham lido H. Lausberg antes de se pronunciarem !

Post de HMJ

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Da Janela do Aposento 62: Carl Orff e a sua Obra para as Escolas




A música, para além da literatura, encerra essa capacidade de fazer “renascer”. Leituras antigas, experiências anteriores, quiçá memórias de infância. Foi o que sucedeu com a última música divulgada no ARPOSE do compositor Carl Orff.

Na audição da “modinha” surgiram os instrumentos que Carl Orff recomendava para o ensino da música nas escolas: os xilofones, pandeiretas e outras. Gostei, sobretudo, dos xilofones – grandes e pequenos – dos martelinhos com toque de madeira, ou dos mais suaves cobertos de feltro.

Do gosto pelo som e, sobretudo, da noção do ritmo encaminhava-se a criatura para uma compreensão mais formal de música.

No entanto, não tenho dúvida de que o compositor Carl Orff entrou na minha vida por mão de uma professora primária muito dotada. Aliás, tenho tido sorte na educação e formação. Para além de pais cientes da sua missão ética e estética, encontrei – ao longo da minha vida – professores dignos desse nome. Alguns, felizmente, continuam a fazer parte do meu universo.

São ilhas de re-encontros e bem-estar num quotidiano cada vez mais estéril.

Post de HMJ

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Da Janela do Aposento 61: Uma lição de História



O seguinte excerto faz parte de “Uma Descrição de Portugal em 1578-80”, constante do livro acima reproduzido. A tradução, para Português, do manuscrito italiano ocupa as páginas 127 a 245, com o título Ritratto et Riuerso del Regno di Portogallo. Para a lição de hoje, a matéria é a justiça.


“A justiça é administrada por processos difíceis e por gente grosseira e não bem disposta, porque não são admitidos a magistrados os bons cidadãos, as pessoas competentes, imparciais, exemplares e justas, mas somente certos doutorzecos, na maior parte ignóbeis e desconhecidos que como vêm a ter o freio nas mãos, querem antes fazer-se conhecer pelos males e pelas extorsões que praticam – parte voluntariamente, parte por não saberem mais – do que pela recta aplicação da justiça e que, quando acham (embora injustamente) ocasião aparente para maltratar alguma pessoa honrada, então parece que atingiram a glória e o trono, ainda que para a nobreza a justiça não corra igual.”

Post de HMJ

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Da Janela do Aposento 60: Para onde ?


Para um incauto cibernauta, ignorante das minhas contribuições anteriores, este “post” sobre o fim da era palerma e o prenúncio da época de palhaços, parece ser tirado de uma tarde amena passada num qualquer jardim zoológico ou numa sessão de circo. Puro engano.

Infelizmente, o reino do pacóvio, quando prestes a terminar, demonstra, teimosamente e como é próprio do “Reino da Estupidez”, o esplendor da sua fraqueza mental e cultural, acusando também uma acentuada decadência física.

O prenúncio de uma nova época, agora de burlesco, enquadra-se, certamente, nesta nova cultura do espectáculo que pretende tomar conta das nossas vidas.

Por enquanto, e tendo vontade e capacidade, não frequento espectáculos de duvidosa qualidade, porque não aprecio palermices nem palhaçadas.

Fica a pergunta epigráfica. Para onde nos encaminhará a falta de inteligência e cultura que nos cerca ?

Post de HMJ


sábado, 14 de março de 2015

Da Janela do Aposento 59: Ócio e Silêncio



Inspirada numa afirmação certeira de A. Guerreiro, recordando-nos que é “do otium que nascem as artes, as letras e as ciências”, acrescentaria também o silêncio.

Se “o otium, como tempo de liberdade,” propicia o encontro com o outro, tanto na sua versão textual como noutra forma artística, o silêncio acrescenta, a esse supremo bem do ócio, a condição indispensável para centrar a atenção na essência – na nossa e na alheia.

Para bom entendedor, bastariam estas duas categorias para uma formação humana essencial.

Libertavam-se as criaturas dos ruídos alheios à leitura e ao pensamento e, sobretudo, terminava o rodopio das actividades permanentes com que a indústria do lazer planeia e preenche os dias desde tenra idade.

Post de HMJ

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Da Janela do Aposento 50: Pontos nos iis



Para quem ainda não se tinha apercebido, porque continua a viver no país “do conto de fadas”, o governo enfrentou, finalmente, os ignorantes que tão mal fazem às nossas criancinhas.

Para os que falam do enunciado da “Prova de Avaliação” para os docentes, sem o terem lido na íntegra, basta ver dois pequenos nacos de prosa de perguntas, publicados, hoje, no jornal Público.

Para os crédulos que acreditam nas palavras do Senhor Professor Nuno Crato, sublinha-se que as provas – tipo americano ou “chapa zero”, tanto para os docentes como para os discentes – reduziram a escrita ao “grau zero”, i.e., será difícil encontrar uma “pergunta de desenvolvimento” que permita, numa só frase [Crato dixit] encontrar 20 erros ortográficos. A perversidade de limitar as “respostas de desenvolvimento” ao máximo de 120 ou 200 palavras, para além de desviar a criatura do essencial, i.e., do conteúdo, para contabilizar as palavras do seu vocabulário, implicou o retrocesso óbvio para o domínio da frase simples. Ora, uma frase simples, reduzindo também o pensamento para um nível simplificado de expressão, raramente alcança a proeza de 20 palavras seguidas.

Passando, no entanto, da completa indigência da referida “Prova”, motivo suficiente para qualquer docente consciente se desviar de semelhante “Inferno”, falemos, então, da essência.

Como todos sabemos, e para os que conhecem um pouco da História recente e vivida, o aumento da escolarização não foi acompanhada, como devia, por uma estratégia adequada e uniforme, nomeadamente no que se refere à formação dos professores. O aumento do número de alunos exigia mais professores que, após o 25 de Abril, foram recrutados, pelos diversos Ministros da Educação, entre os licenciados ainda em formação académica. Surgiu, posteriormente e por razões económicas e políticas diversas, a necessidade de impor uma formação profissional complementar. O Estado, através dos diversos Ministros da Educação, delegou essa competência a Universidades, alargando-as, depois, a Institutos e Instituições de Ensino à distância, sem, contudo, aprovar, sempre, os respectivos “Planos de Estudos e de Formação”. Ora, só num “conto de crianças” é que não existe responsabilidade governativa para a invocada ignorância que o Ministro Crato alegou, hoje, para a sua “caixa jornalística”.

A chamada “autonomia” da Universidade tem as costas largas e não serve para desculpar o “lobo” que quer comer a criancinha, porque foi o lobo que se deitou na cama para atrair os incautos.

Ou seja, as disposições legais permitiram formações tão díspares como: 5 anos + 2 anos [5 de formação académica + 2 de estágio profissional], 5 [com estágio integrado], para além de regimes alternativos fora das Universidades, i.e., Institutos de diversa índole, públicos e privados.


No meio disto, muita gentinha que gosta de vestir a pele do lobo acredita na história da carochinha (escrevendo estória) sem saber que existem [há] outros mundos. Até no Ministério da tutela à [sic], i.e., criaturas, sem cursos de formação de professores, que não dão duas para a caixa.

Post de HMJ

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Da Janela do Aposento 47: Moldar o pensamento único



No caso em apreço, não vale a pena fazer uma declaração de interesse prévia, porque nunca participei, de uma forma consciente e assumida, na terrífica engrenagem dos exames nacionais. Sujeitei-me, consequentemente, ao estatuto menor da docência, i.e., não leccionar a matéria do 12º Ano. O que para alguns era a “cereja em cima do bolo”, o último ano sempre o considerei um tempo perdido para o essencial, a saber, o de contribuir para pensar, com autonomia, saber e empenho.

Convenhamos que, há muito tempo, os exames nacionais, introduzidos com o argumento de peso de tornar a avaliação final mais objectiva, contribuem para treinar criaturas a reproduzirem determinados chavões. Basta olhar para os chamados “cenários de resposta”, que os alunos são instigados a “encornar”, para perceber o enquadramento formal e ideológico dos correctores, reduzindo as respostas ao “grau zero da escrita”.

Ora, o que o mais tosco estudante de Línguas e Literaturas devia ter apreendido na sua passagem pela Universidade é o facto de qualquer língua constituir um sistema de combinação inifinita – graças aos seus criadores – o que faz com que nenhum texto, tanto sobre matérias exactas como de literatura, seja idêntico. Felizmente, e em louvor da LÍNGUA !

Olhando, pois, para a deriva dos exames nacionais que, vergonhosamente, enriquecem determinadas editoras, publicando reproduções de exames oficiais anteriores a preços exorbitantes, fica a tristeza e a revolta profundas perante tanta falta de seriedade, brio profissional e sentido democrático na defesa da língua e da literatura.

Como não faz parte do meu universo desejar “sorte” aos examinandos, porque considero que uma prova, qualquer que ela seja, se destina a avaliar um quadro de referências linguísticas, literárias, culturais e sociais, construído paulatinamente e que nos permita, com autonomia, pensar a vida e o mundo que nos rodeia, resta-me a apreensão perante mais uma amputação de cidadania, implícita nos exames nacionais que se avizinham.

Portanto, o ressurgimento das sebentas, no ensino universitário, não me espanta. É a consequência lógica de um “bom caminho” que a educação está a traçar. E que ele seja, de preferência, em Inglês, a bem da internacionalização !

Post de HMJ

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Da Janela do Aposento 46: A cereja em cima do bolo



Um sistema de ensino dedicado, essencialmente, a uma tarefa difícil e prolongada no tempo, i.e., fazer pensar não se coaduna com uma ausência de reflexão permanente sobre a estratégia mais adequada para atingir esse fim, nem, e muito menos, com soluções “ao sabor da onda” como demonstra a imagem acima.

Assim como me tem preocupado a lenta, mas persistente, anulação do direito fundamental do docente à autonomia na concepção e implementação de um Programa Nacional para uma dada matéria, tem havido um processo administrativo contínuo na castração de alunos. Em nome de uma pretensa objectividade, contrária à natureza da língua que, nas suas combinações ilimitadas, não permite textos idênticos, o ME tem produzido “papel” com uma prosa admirável.

Para exemplificar, se um exame nacional, qualquer que ele seja, tem três páginas de enunciado, a burocracia aumenta em três vezes esse aglomerado de indigências, acrescentando “critérios”, “descritores” e “cenários de resposta”, tudo em nome de uma falsa tentativa de alcançar a objectividade da avaliação. A autonomia do docente, claro está, fica reduzida ao cumprimento desta fatalidade, sacrificando, se não tiver o remédio de sair a tempo, a sua sanidade mental e contribuindo para industriar “macacos” em vez de desenvolver a autonomia de pensamento de alunos. Dispenso-me de sublinhar pormenores perversos como a “penalização” por usar mais do que um determinado número de palavras nas respostas, o que, obviamente, leva os alunos a contar as palavras em vez de se preocuparem com o essencial, a saber, o conteúdo.

Dito isto, basta olhar para a imagem acima para atestar a miséria a que chegamos e, sobretudo, sem vergonha ! De uma velada tentativa de instrumentalizar os professores para  a formação de “empregados diligentes”, de Azevedos e quejandos, surge, finalmente, a revelação por uma editora que enriquece à custa do treino institucionalizado.

Definitivamente, e sem pejo, o exame nacional passou a ter a figura de um avião e as restantes provas são meras malas de viagens. Não me parece que a mensagem pudesse ser mais concludente quanto à natureza de uma máquina instalada e com o objectivo de esvaziar, totalmente, a autonomia e a nobreza do ensino, anulando, por completo, a dignidade do pensamento humano.


 Post de HMJ

segunda-feira, 24 de março de 2014

Da Janela do Aposento 45: Gramáticas e outros livros afins



Considero que o benefício de poder ”con-viver” com duas culturas, ou duas línguas, é um privilégio de consequências ilimitadas para o ser humano, embora abordado de forma leviana por alguns opinadores, reduzindo-o a aspectos acessórios.
Na conquista do espaço do “alter”, ou seja, no esforço de entrar no universo do outro – da sua História, Cultura e suas Tradições – orienta-nos, como guia, a sua língua e, quiçá, as linguagens específicas. Desse esforço surgiram, ao longo dos anos, prazeres estranhos como é o caso de coleccionar Gramáticas, genericamente falando, da Língua Portuguesa.
Embora sem rigor científico do ponto de vista da linguística, arrumo os meus interesses e a consequente tentação de aquisição em quatro grandes áreas, ou seja, as Gramáticas históricas, as filosóficas, as didácticas e as “actualizações académicas”.
Pouco interessa para o caso de nunca ter completado, por inércia ou falta de lembrança, uma lista bibliográfica das Gramáticas que vou coleccionando.
Interessa-me, sobretudo, o enriquecimento mental que vou tirando da consulta de Gramáticas. Nas Gramáticas "históricas", i.e., as primeiras impressas durante o século XVI, aprecio a riqueza expressiva, frequentemente claríssima, na exposição de fenómenos complexos da estrutura da língua.
As Gramáticas chamadas “filosóficas”, como a de Soares Barbosa, encaminham-nos para uma reflexão abrangente sobre a(s) língua(s) e que, por vezes, se completa com ensaios de George Steiner.
A secção das “didácticas”, e por antigo dever de ofício, reúne o maior número de exemplares, embora de qualidade descendente numa perspectiva diacrónica, do passado para o presente, centrada no século XX. De alguns “abortos” das últimas três décadas não reza o acervo, porque não tinham a qualidade mínima para fazer companhia aos “amiguinhos” mais velhos.
A actualização na compra de Gramáticas e relativamente aos Estudos Linguísticos foi cedendo ao gosto, em detrimento da obrigação de acompanhar o vasto leque de novas achegas, circunscrevendo-se ao interesse pessoal, à autoridade e ao apreço por determinados académicos.
Dito isto, e atendendo à capa de um dos mais recentes livros “afins” em epígrafe, pretendia falar do que, actualmente, se designa por Pragmática, i.e., e sem rigor científico, um olhar para a língua quando usada e aplicada em determinados contextos de comunicação. Ora, vejamos uma página do dito “livrinho” de Rosa Maria:



Considero que determinadas áreas da Pragmática, por referência a contextos culturais próprios de cada língua, exigem um esforço suplementar ao forasteiro, revelando a sua sensibilidade à diferença e à aceitação do outro. Confesso que a brochura sobre a “Economia Doméstica” me deixou, pragmaticamente, perplexa. A linguagem, embora adequada a um livro “singelo” de instruções básicas, acusa uma vertente que, até agora, me tinha escapado. A saber, o cunho ideológico no uso da língua, aspecto peculiar que nem a última Gramática, publicada recentemente, ajuda a integrar no universo da língua.
O que despoletou, certamente, esse olhar crítico sobre o cunho ideológico de determinados discursos foi um artigo de George Steiner, “O milagre oco”, em que ele aborda o pós-guerra na Alemanha e sublinha que o “problema das relações entre a linguagem e a inumanidade política é fundamental”.
Com efeito, o contexto da comunicação, ou seja, a Pragmática, não se situa fora do quotidiano político e social dos falantes.

Post de HMJ, dedicado a H. N..


sábado, 22 de março de 2014

Da Janela do Aposento 44: Uma Escola de delatores



Sempre defendi, e persisto nesse propósito, que a Educação e a Escola deviam concentrar-se no essencial, i.e., pensar e fazer pensar no sentido mais amplo. Infelizmente, e olhando para o passado e o presente do respectivo Ministério, a estratégia, se alguma vez existiu de forma explícita e consistente, não escolheu esse desígnio como prioridade a atingir.
E assim, em deambulações várias, chegamos à presente desgraça em que se promove, com pompa e circunstância, uma Escola de delatores. Pensar sobre a Escola, e ofendendo uma disciplina chamada Sociologia, passou a fazer-se com recurso ao método de trabalho de “espreitar pelo buraco da fechadura para dentro de uma sala de aula”. A “análise” da “socióloga” responsável baseia-se, então, em relatos encomendados, eufemistamente chamados “diários”, ou seja, numa linguagem simples, a denúncia institucionalizada.
Também não falta, claro está, o “patrão”, quiçá futuro empregador dos alunos, a achar “inovadora” e atractiva uma teoria, embora às avessas das Ciências Humanas, que lhe prepara o trabalho de recrutar, não apenas submissos, mas “exímios agentes” ao serviço da paz empresarial.
Pensava eu que a Inquisição, com os seus métodos e “Róis”, era fenómeno do passado !
  

Afinal, a Escola passou a ser o “centro de formação” dos novos agentes de informação, assegurando-se, desta forma, a acefalia dos futuros contribuintes e utilizadores dos serviços públicos como, aliás, as últimas campanhas “cívicas” demonstram. Aos prémios para os mais audazes cumpridores, lançados pelo Ministério das Finanças, juntam-se, agora, as ameaças dos Transportes de Lisboa.
Só a crassa ignorância do passado histórico poderá explicar a completa ausência de revolta cívica perante semelhante ataque à democracia e aos valores mais nobres da convivência humana. Enganam-se aqueles que pensam que um Estado policial garante o futuro de governos fracos.

Post de HMJ


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Da Janela do Aposento 43: Retrospectiva



Paul Klee, "Ghost of a Genius"

Um artigo de JPP, uma voz esclarecida, no deserto partidário, contra o actual regime, permitiu recuar no tempo e recordar alguns fenómenos na época em que alguns dos “rapazes das jotas” circulavam pelas escolas públicas.
Era o tempo da plenitude do “Cavaquistão”, em que no ensino secundário se podia optar por várias vias, claro está, de acesso ao ensino superior. A motivação centrava-se numa promoção rápida, através do ingresso no grau seguinte, e poucos se identificavam com universos mentais e culturais mais amplos. Basta, aliás, olhar para os lados de Belém para compreender o início deste desastre.
Ora, naquele tempo havia as seguintes opções, ditas de forma abreviada, Ciências, Economia, Humanidades e Artes. Os alunos de Ciências queriam ser médicos, os de Economia, gestores e quiçá políticos, os das Humanidades, advogados e Juízes para fugirem a outros magistérios menos considerados. Os das Artes esforçavam-se para entrar em Arquitectura. Nesta visão de síntese, pouco favorável sobre um universo largo de alunos ao longo de décadas, criados e radicados nos subúrbios de Lisboa, quase não tiveram expressão os poucos, mas excelentes alunos do ponto de vista humano, mental e cívico.
Contudo, os menos dotados “de cabeça”, mais amorfos relativamente a qualquer interesse cultural, eram os alunos de Economia. Fugiam das Ciências, “puras e duras”, iniciando-se nas suas lições de Economia, porque eles eram, numa parte substancial, filhos de “empresários”, ou seja, merceeiros recentemente promovidos a um estatuto social superior e ascendente, donos de lojas com nomes sonantes como “Jacques”, “Kaku’s” e quejandos.
Há quem me contrarie nessa visão pessimista sobre os alunos de Economia, afirmando o contrário sobre os discentes num dos liceus de referência de Lisboa. Aceito o contraditório pela diferença do meio. Os alunos de Lisboa saíram, porventura, para “gestores de topo”, ou, como os Vitinhos, aproveitaram o trampolim da política para outros voos. Os outros, de subúrbios tipo Massamá, levaram mais tempo e, como os Rosalinos, que bem conhecemos, vingaram-se, a valer, da sua condição inferior quando a escada do actual regime lhes ofereceu o poder.
Fica a mágoa de não ter conseguido o essencial, i.e., contribuir para que o ensino se transformasse numa "escola de pensar".

Post de HMJ

domingo, 22 de dezembro de 2013

Da Janela do Aposento 41: Exorcismos, a montante 2




Considera-se este segundo “post” como complemento do anterior na medida em que “fecha a abóboda” com a manta de retalhos da formação pedagógica de docentes não universitários.
A nossa apreciação não tem nada a ver com a inabilidade, o populismo e a irresponsabilidade do actual detentor da pasta – da Educação e da Ciência (!) – Nuno Crato, cuja ignorância política perante o problema sistémico de ingresso na carreira docente, herdado da Ditadura, serve apenas para esconder opções ideológicas. Relembrando um soneto de Nicolau Tolentino, intitulado “Deitando um cavalo à margem” e publicado no ARPOSE de 10.7.2010, o que se pretende, no fundo, é despachar o “Despojo inútil do inconstante vento.”
Com efeito, enquanto a tutela precisou dos “cavalos”, delegou a sua formação inicial maioritariamente nas Instituições de Ensino Superior, públicas e privadas, criando, sob a responsabilidade dos diversos Ministros, e foram inúmeros, uma panóplia de “formações pedagógicas”. No entanto, se houve quem beneficiasse com “ingressos na carreira” mais rápidos e/ou benevolentes, os fautores e responsáveis têm o seu assento nos sucessivos Ministérios da Educação.

Convenhamos que, com Ministros como o actual ocupante da pasta, a Academia não precisa de defesa, ”porque quem não sabe a arte, não na estima.”

Post de HMJ

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Da Janela do Aposento 39: Educação ? Ensino ?





A condição de “posto em sossego” desobrigou-me a qualquer declaração de interesse, mas não me livrou do desassossego perante o desnorte, ao nível nacional e europeu, nas questões da educação e do ensino.
A confusão entre os dois conceitos tem décadas, ao ponto de ganhar estatuto, na nova proposta do “Programa de Português”, sob o lema de “Educação Literária” quando, de facto, se pretende traçar objectivos de ensino na vertente de leitura de textos literários. Contudo, a confusão conceptual tem uma raiz e uma origem, i.e., uma Lei de Bases do Sistema Educativo, de 1986, que declarava, nos seus considerandos preambulares, que o “Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”. Embora sempre negligenciado, tamanho embuste paradoxal e conceptual abriu a porta ao declive em que nos encontramos.
Passamos a definir a educação em função de universos restritos. Uma Lei de Bases definida com os olhos postos nos filhos lá de casa, esquecendo que a realidade era bem outra. O que até levou um Ministro, após a sua saída, a declarar que “o difícil é sentá-los”, uma evidência que qualquer docente sabia, e bem demais para ser verdade.
O medo perante um “cânone literário” para leccionar, e ensinar, privou uma geração de alunos de uma percepção “cronológica e antológica” da Literatura Portuguesa, substituindo-a por uma salganhada de leituras da “literatura universal”, entremeada por excertos, envergonhados, dos chamados clássicos nacionais. Não merece a pena citar os “bons ventos” responsáveis, nem os famigerados “planos nacionais” que suportam semelhante opção.
Os chamados Programas, ou Metas Curriculares, orientaram-se pela vaidade ou inclinação académica dos seus redactores. Nalguns casos, o aparato “teórico de enquadramento” é um portento. Noutros, para descer a um nível inferior da linguagem, a “montanha pariu um rato”, como é o caso da recente proposta de Programa de Português para o Ensino Secundário, da autoria de Helena Buescu.
Convém recordar que este novo programa surge num momento em que a escolaridade obrigatória se alargou até ao 12º Ano, i.e., declarando-se válido e exequível, para o universo dos alunos, uma recuperação de um determinado “cânone literário”.
E neste “novo Programa”, de “gato escondido com rabo de fora”, sucede que a selecção “cronológica” anda aos saltos e a “antologia” se resume, na generalidade, a excertos, acusando determinadas opções estéticas e particulares dos redactores. O espanto geral perante uma encenação tão inconsistente permite apenas citar alguns exemplos mais aberrantes:
Cantigas de Amigo (escolher 5), Cantigas de Amor (escolher 3), Crónica de D. João I (escolher 2 capítulos), História Trágico-Marítima (Capítulo V), A.Vieira, Sermão de Santo António (passou a ter capítulos, em vez de partes do sermão, Cap. I – integral – o restante em excertos), e, para finalizar, A. Garrett, Viagens na Minha Terra (escolher 5 capítulos!). As opções relativamente ao Século XX dispensam qualquer consideração. Pobres professores, infelizes criaturas !
Tenho saudades do tempo em que os estudantes entoavam “loas”, cantando vivas à Academia e aos professores, porque lhes reconheciam valor na sua capacidade de orientar os seus estudos de uma forma sábia, objectiva e desinteressada.

Post de HMJ

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Da Janela do Aposento 37: Tornar visível


Para quem se dedica à observação atenta e ao estudo do livro antigo, sabe, perfeitamente, que as revelações surgem e surpreendem a cada passo, i.e., a cada olhar. São os pormenores do material tipográfico usado, os detalhes na composição da mancha gráfica ou na impressão que se vão somando e gravando na memória visual. Aconselha-se, contudo, que o registo visual das imagens, sendo humanamente limitado no tempo, se grave, por escrito, para memória futura.
Acrescenta-se, ao prazer de observação do livro antigo, o gozo supremo de o manusear quando o objecto é nosso, permitindo tornar visível o que, frequentemente, fica escondido no meio das letras, ofuscado pela tinta e apenas visível a contra luz. Trata-se, portanto, das marcas de água, ou seja, aqueles símbolos que os fazedores de papel, como demonstra a imagem acima, usavam para deixar a sua marca e atestar a origem do papel. 


Partilho, pois, com os meus leitores, duas marcas de água que fizeram o meu encanto ao fim do dia. Um unicórnio 1, grande, pai ou mãe, e um pequenino, filho, que surgiu quase no final do livro.


P.S. A câmara digital, como recurso rudimentar, não permite transmitir uma imagem mais nítida.

Post de HMJ, dedicado a JAD

domingo, 14 de julho de 2013

Da Janela do Aposento 36: Essa agora ! - A propósito de uma iniciativa infame do "Expresso"


Eça de Queiroz, Páginas de Jornalismo

A parte mais esclarecida, mental e eticamente, deste povo que continua muito sereno não imaginaria, de certo, assistir a uma "burricada" - política - como aquela que o mais alto magistrado decidiu despoletar.
Não contente com esse coice de um qualquer asno, houve meia dúzia de intelectuais - quiçá entalados por outras presidências - que se subjugaram a outro espectáculo não menos degradante, sobretudo porque se enquadra num foro mais elevado, i.e., da esfera da literatura.
Sucede que a publicação dos últimos textos de António Guerreiro, publicados no ípsilon, já deu para perceber que a sua escrita não alcançava o desejado "leitor médio" do "Espesso".
Com efeito, quando A. Guerreiro falava, recentemente, da "proletarização" da função docente - tanto liceal como universitária - faltava, ainda, este "fecho de abóbada" que dá pelo nome de "Eça agora (!)" Encontrou-se, pois, uma forma expedita e pomposa de adulteração de textos literários - chatos, extensos e incompreensíveis - com o objectivo de os servir, num "produto light", tipo "coca-cola zero", para consumo de mentecaptos, discentes, docentes e leitores.
A devassa é geral e a campanha publicitária não consegue iludir a indigência mental deste "Reino da Estupidez" em que vivemos.
Ora, o texto reproduzido acima demonstra que nem o povo, e muito menos o autor, mereciam uma humilhação semelhante.

Post de HMJ