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quarta-feira, 28 de junho de 2017

O que é a chuva?...


... - perguntarão as crias implumes desta Primavera, dentro dos ninhos, aos pais.
Porque as únicas aves que vi hoje, quando saí de manhã para comprar o jornal, foram três rolas, com ar desconsolado e penas desalinhadas, que se abrigavam, nervosas, debaixo da frondosa Árvore da Borracha, à beira da Escola. Criaturas saíam dos carros, canhestras, abrindo desabituados guarda-chuvas para enfrentar os pingos. Eu próprio me pareci ridículo, de camisa de manga curta, e desajeitada umbrela aberta.
É certo que desconfiei, ontem à tarde na varanda a Leste, ao ver as nuvens mudarem de direcção. Em vez do Sul-Norte, passaram repentinamente para o rumo Norte-Sul. Era um sinal da Natureza, pelos vistos, que eu não entendi. Mas, afinal, a chuva sempre veio, depois de tão longa seca.
E, assim, é uma boa altura para relembrar esse duplamente galego Dominguez Alvarez (1906-1942), embora nascido no Porto, pintor que se naturalizou português, em 1936, para escapar à Guerra Civil Espanhola. E que pintava muito bem, embora de modo agreste e melancólico, à Rosalía poeta, também ela galega. Ambos, dessa terra a que chamaram sem ossos, acima de Portugal...


sexta-feira, 23 de março de 2012

Osmose (31)


De momentos extremos saem, quase sempre, muito poucas palavras. Formais, esperáveis, de uma banalidade que já nada significa ou expressa, de tantas vezes dita. E que, talvez, acabe por agredir quem as recebe.
Seria mais consentâneo o silêncio, um toque de mão no ombro, ou outra qualquer forma de gesto fraterno - que, muitas vezes, não há.
Nunca saberemos bastante, e totalmente, sobre o que vai no outro. O que pensa, o que sofre, tudo aquilo que dói, nesses momentos extremos.
O humor é, frequentemente, uma fuga para a frente: por isso se contam tantas anedotas nos velórios. Sobretudo quando vimos cá fora, para fumar um cigarro.