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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Do que fui lendo por aí... 34


Não dará para inteiramente eu o recomendar, mas se o tempo de leitura tiver sido vertiginoso (como este foi) o balanço é, para mim, sempre positivo. Li Todo-O-Mundo (2007), de Philip Roth (1933-2018) entre as 16h00, de ontem, e ainda não eram as 23h30, descontando as funções humanas essenciais (refeições, etc.).
O livro não tem tempos mortos, o fluxo narrativo é ágil não deixando de ser denso, e a tradução (Francisco Agarez) pareceu-me competente. Pelo meio é que a obra, talvez pelo excesso de referências clínicas, às vezes, mais parece um vade-mécum de cirurgias cardíacas e correlativos cenários hospitalares.
Não fora isso...

domingo, 9 de dezembro de 2012

De J. M. Coetzee


Muitas vezes, a violência das palavras de J. M. Coetzee (1940), é difícil de suportar. Não será o caso deste pequeno capítulo, que passo a transcrever:
"84. Nesta terra deve haver filhos já adultos que esperam, pacientemente, que os pais afrouxem o controlo das chaves. No dia em que eu cruzar as mãos do meu pai sobre o seu peito e o tapar com um lençol, no dia em que eu tomar conta das chaves, hei-de abrir a fechadura da tampa da secretária e hei-de desvendar todos os segredos que aí guardou: os livros de contabilidade e os canhotos, os registos notariais e os testamentos, as fotografias da mulher morta com a inscrição «Com todo o meu amor», as cartas atadas com uma fita vermelha. E no canto mais escuro, nos fundos de um escaninho, hei-de descobrir os antigos êxtases do defunto, os versos dobrados três, quatro vezes e metidos num envelope amarelado, os sonetos à esperança e à alegria, as confissões de amor, as juras e dedicatórias apaixonadas, as rapsódias conjugais, as quadras «Ao meu filho» e depois mais nada. O silêncio. A veia tinha secado. Algures, entre a juventude e a idade adulta deste homem que foi marido, pai, patrão, o coração ter-se-á transformado em pedra. Terá sido com o nascimento desta filha enfezada? Terei sido eu quem matou a vitalidade dele, tal como ele está a matar a minha?"

J. M. Coetzee, in No Coração desta Terra (Dom Quixote, 2011), trad. de Maria João Delgado.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Recomendado (sob condições) : trinta - Alain de Botton


É um livro leve, mas não ligeiro - no sentido de literatura light -, este "Como Proust pode mudar a sua vida", de Alain de Botton (1969). Comparável ao que eu chamo um "vinho de varanda", um rosé agradável para beberricar no Verão. Mas que não levaríamos para o solene interior de uma mesa, com convidados, mesmo que fossem amigos. E a refeição fosse ligeira.
É um livro para ler em férias, na praia, porque não obriga a grande concentração, embora esteja juncado de citações proustianas e, desagradavelmente, as não destaque (faltam as aspas, ou o itálico) nem as localize, como seria devido e de norma. A Dom Quixote teve também o mau gosto de imprimir, logo na capa (canto superior esquerdo): "«Deslumbrante» John Updike", como a recomendar - fez mal, e é saloio. Por outro lado, há ilustrações, no interior da obra, perfeitamente inúteis e despropositadas. Apelidam Alain Botton de filósofo, o que me parece uma enorme falta de rigor. É por isso um livro tocado por imperfeições várias.
Dito isto, com intuitos de advertência e recomendação condicionada, para ser justo, terei também de dizer que é um livro que se lê com muito agrado, e sem sacrifício, pelo gosto de ler. Desliza fluidamente a nossos olhos, provoca associações interessantes. E, além disso, para quem não consegue (como eu) ler "À la recherche du temps perdu", familiariza-nos com a obra de Marcel Proust. Publicado em 2009, "Como Proust pode mudar a sua vida", de Alain de Botton, é um livro de férias, para ler na praia.
Não lhe devemos pedir muito, mas dá-nos alguma coisa: pelo menos, o prazer de uma leitura leve. Também pode acompanhar um "rosé", num fim de dia calmoso, numa esplanada visitada pela ligeira brisa marítima. Livro e "rosé" estão bem, um para o outro...