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segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Os segredos saloios e a poesia de taberna

 

Houve tempo em que não me preocupava, minimamente, com as castas de uvas dos lotes de vinhos que bebia. Com os anos esse facto passou a ter importância e, hoje, é raro comprar vinhos que não informem, no rótulo, a sua composição. Comecei por  atender aos rótulos exemplares da Vinícola do Vale do Dão, que comercializava a celebrada marca Grão Vasco e que, pouco afortunadamente, foi comprada pela Sogrape, em 1957. Até aí, lá vinha indicada essa que eu chamo a trindade santíssima do Dão tinto: Touriga Nacional, Tinta Roriz e Jaen. Pois, decerto logo que pôde, a Sogrape apagou  as castas dos rótulos, fazendo jus talvez ao lema dos comerciantes atávicos: "o segredo é a alma do negócio".
E, hoje, ainda me sorri um pouco ao ler o rótulo de um Esteva tinto Douro 2021 (ex-Casa Ferreirinha) produzido e comercializado agora pela Sogrape que, em vez das castas que esconde, inscreve, no contra rótulo, esta pindérica maravilha:
" O intenso aroma da esteva, arbusto que adorna a paisagem do Douro, invade a região nos dias de Verão. Desde 1984, elegância, tradição, aromas balsâmicos e algo especiados conferem caráter a este vinho."
Realmente, para poetastro de província, o texto não vai nada mal!...

sábado, 3 de junho de 2023

Memória (enológica) 146



Pelo Fugas, do jornal Público de hoje, me vem a notícia de que foi posta à venda a mais recente edição (de 2014) da Reserva Especial da casa Ferreirinha, com o preço recomendado de 280 euros. Ainda me lembro que a sua "irmã mais crescida" Barca Velha, em finais dos anos 70, se vendia numa charcutaria da rua Alexandre Herculano, por cerca de Esc. 600$00. Também nessa altura eu não estava disposto a esportular tal maquia...



Sempre que, nas grandes superfícies, vou escolher vinhos, constato o curto espaço nas gôndolas ocupado pelos vinhos da Bairrada, que sempre foi (injustamente) uma região mal-almada, excepto na zona pelos seus habitantes. Mas também tenho verificado que o linear dos vinhos do Dão, muito celebrados antigamente, se tem reduzido substancialmente, nos últimos tempos.



Ganharam entretanto, e muito, os vinhos do Alentejo e do Douro. E os vinhos Tejo estão também a crescer. Eu vou-me ficando pelas minhas relíquias guardadas, como um muito bom bairradino tinto Sidónio de Sousa de 1998 (garrafa nº 10.328 de 16.000), com 12,8º, que, há dias, acompanhou umas perdizes estufadas. Com o esplendor devido, na sua maturação plena da casta Baga, e com os seus 25 anos de idade.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Mercearias Finas 168

Já por aqui o disse e reincido: o azar do Dão é nunca ter tido um Nicolau de Almeida (1913-1998), genial enólogo e autor do duriense Barca Velha, para realçar as excelências desta região demarcada portuguesa. E que, na minha amadora e modesta opinião, oferece condições vinícolas enormes, por entre a elegância e a longevidade. 



Claro que há os velhos Cabido, o presente Vinha Paz, a que terei, para ser justo, de juntar um recente Fonte de Ouro, reserva tinto 2018 (Touriga Nacional, Alfrocheiro e Jaen), da Companhia das Quintas, que, nos seus equilibrados 13º, lindamente acompanhou um Borrêgo à Pastora, de matriz alentejana, cuja receita trouxemos da Casa Amarela, de Mértola, mas do outro lado do Guadiana, aqui há uns bons anos atrás.

domingo, 14 de outubro de 2018

Mercearias Finas 134


É sempre triste, o primeiro sinal de um desamor.
Provavelmente, o vinho branco, e verde, que me acompanha há mais tempo é o Casal Garcia. Quanto ao tinto seguramente é o Grão Vasco, do Dão. Que integrou a carteira da Sogrape, nos últimos anos. Mudaram-lhe o rótulo, já por duas vezes, para pior. E, mais grave, para mim, trocaram no lote a casta Jaen, pelo Alfrocheiro. Da antiguidade, perdeu a raça e o ADN, desapareceu-lhe a elegância que caracterizava os vinhos do Dão. Mas eu lá o ia bebendo, para celebrar ao menos o passado.
Provei, neste Domingo, a colheita de 2016: é para esquecer.
Tem a rudeza áspera dos piores vinhos de Trás-os-Montes, que não do Douro, evidentemente. É deselegante, de todo. E, sendo do Dão (?), é dos piores vinhos tintos da região que bebi, ultimamente.
Mudem lá de enólogo, que é o que se faz, no futebol, quando os treinadores não são capazes!

domingo, 9 de setembro de 2018

Produções


Se é certo que não viramos ainda, este ano, a página das vindimas portuguesas, já se vai noticiando que a  colheita será das menores de sempre. No Dão, com certeza. Boa justificação para subir os preços, que não estão nada baratos, a não ser nos vinhos regionais que, dizem os entendidos, muitos deles são feitos com uvas de fora... Há, pelo menos, que confiar nos de região demarcada.
Ao que parece, a França não se queixa, nem de uma coisa nem de outra. E L'Obs até traz, no seu último número, algumas sugestões de vinhos com preços diversos, mas numa escala moderada.
Não serei isento, porque gosto muito do Alvarinho Deu-la-Deu, da Adega Cooperativa de Monção.  É sobretudo uma garantia, ano após ano, de boa qualidade e preço justo. Pois o sítio do costume tem-no em promoção, neste momento, ao preço imbatível de 4,49 euros. Vale a pena aproveitar...

terça-feira, 27 de março de 2018

A propósito de vinhos, em geral, e o de Colares, em particular


Creio que a mais antiga referência escrita a vinho português é ao Charneco que, provavelmente, identificava o vinho de Bucelas. Shakespeare, no seu Ricardo III, perpetua a lenda (?) de o duque de Clarence (1449-1478) se ter afogado, ou ter sido afogado, num tonel de Malvasia. O que significa que, já nessa altura, o vinho da Madeira (?) era conhecido na Inglaterra.



Se, enologica e literariamente, Eça é cosmopolita e variado, referindo, nos seus romances, vinhos espanhóis e franceses, o Dão e  o Colares (abundante em Os Maias), o Bucelas e outros vinhos nacionais, Camilo é mais terrunho e limitado. O vinho Verde, nomeadamente de Basto, é muito citado, mas pouco mais aparece, para além de um vago vinho de Setúbal (?) e outro do Cartaxo, nos seus livros.



O Estado Novo optou, marcadamente e com bom gosto, é certo, pelo vinho do Dão, seguindo os seus chefes. Que Salazar produzia nas suas courelas de Santa Comba o vinho que ele consumia em S. Bento, e o venerando Thomaz tinha um fraquinho especial pelo Dão Terras Altas que, na época, era seguramente um bom vinho, lotado com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Jaen.



Mas voltemos ao vinho de Colares, predominante da casta Ramisco, em chão de areia, que conseguiu resistir à filoxera, e que era uma referência literária até meados do século XX. Eu não sou grande apreciador da sua rudeza, apenas mastigável nos primeiros anos. Depois, escapa.
Mas que belos cartazes publicitários, e postais se fizeram dele! Aqui deixo, em imagem, alguns que têm como motivo trajes regionais portugueses.
(Pena não saber quem os fez...)


domingo, 25 de outubro de 2015

Mercearias Finas 106


Vai de vento em popa e de feição, a apetência para pratos de maior substância e, sobretudo, para tintos, que os vinhos brancos já os passei para a segunda fila, na garrafeira. Muito embora, a meio da semana, que hoje termina, ainda nos tivessemos despedido das caldeiradas de peixe (essa, de cação e raia), em muito boa e amiga companhia. Que trouxera consigo, para nos ofertar um elegante Ponte Pedrinha, Dão branco, que nos ficou na memória.

Mas com o vento e a chuva, os tintos chegaram-se à frente, e fazem-se desejar. A alheira de caça do almoço, de hoje, era muito boa, e o desconhecido Fráguas 2012, uma incógnita. Dão tinto e reserva, de bom preço e bom lote (Touriga, Tinta Roriz e Jaen), nos seus 13,5º, mostrou uns taninos ainda não domados, que lhe asseguram boa longevidade. Acompanhou muito bem, na sua irrequieta juventude, a dita alheira transmontana. Mas o melhor ainda estava para vir:


AVP deixara-nos por encetar um queijo de Caldas da Felgueira, porque, depois da caldeirada da semana que passou, tínhamos saboreado um de Azeitão. Hoje, foi a altura do Seia, magnífico. Que se bateu, lindamente, com o Fráguas tinto, em pé de igualdade e galhardia cavalheirosa.
Ah! terras do Dão, que vos falta ainda um Fernando Nicolau de Almeida (1913-1998) para criar um segundo Barca Velha! Matéria prima não vos escasseia, porém!...

com os melhores agradecimentos, renovados, a AVP.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Voltando ao assunto das "Ordenações cuniculares"...


Entre a Portaria 244/2014 (Vinhos do Alentejo) e a 246/2014 (Vinhos do Dão), publicada ontem no Diário da República, vai uma diferença de tomo...
Se a alentejana era pródiga e "mãos rotas" na liberalidade anárquica de castas estrangeiras permitidas (26 em 68 totais), a que disciplina a região demarcada do Dão é muito mais criteriosa e circunspecta, porque apenas permite (3 em 42): Semillon, Alicante-Bouschet e Monvedro - que julgo serem não originárias, tradicionalmente, da região do Dão.
De quem será o mérito desta usura? Do sr. Albuquerque não deve ser com certeza...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Recomendado : quarenta e sete - Prova dos 9, branco, 2012


Da casta Síria, gabo-lhe o gosto, acidulado e fresco.
As cepas abundam pelo interior, em metamorfose de nome que, no Alentejo, se crismou de Roupeiro e Crato Branco, no Algarve. E há quem diga que é a mesma, a Códega duriense. Até tanto não vou eu... porque a experiência e conhecimentos não me levam tão longe. Mas asseguro que é nas terras do Dão que a nobre casta Síria produz brancos de uma acidez singular, levemente agreste, mas muito saborosa.
Eu conhecia-a, estreme, dos brancos da Quinta do Cardo (regional Beiras), e pouco mais, na zona. Mas os vinhos não têm grande distribuição - parece-me. Felizmente, e em boa hora, a UCB (União Comercial da Beira) resolveu lotá-la, neste Prova dos 9, com o Encruzado e a Malvasia Fina, num conjunto harmonioso, em que a Síria mantém sabor predominante. O preço, nem se acredita, aliado à promoção que o acompanha numa cadeia popular de pequenas superfícies, que nem sei se irá durar muito...
O vinho acompanha, lindamente, uns filetes de pescada ou, mesmo, um arroz de polvo, caldoso e malandrinho, bem como outros peixes finos, que venham à mesa. Fica a recomendação amiga.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Mercearias Finas 68 : A casta Jaen, a elegância e os vinhos do Dão


Não se peça, a um vinho do Dão, exuberância ou força excessiva - que ele, naturalmente, não a pode dar, na maior parte dos anos. Mas exija-se-lhe, se ele for de qualidade, elegância, equilíbrio e longevidade, que tudo isso é da sua natureza. Os brancos, por causa da casta Encruzado, com alguma idade, quase ficam perfumados, levemente untuosos, abençoados por aromas difíceis de explicar. E, os tintos, quase podem chegar à perfeição difícil de entre o terreno e divino (aéreo, pelos aromas) - perdoe-se-me este arroubo enológico de quem é um fã entusiasta da região demarcada do Dão.
Tenho a convicção entranhada de que a Jaen é a casta maioritariamente responsável pelo nobre envelhecimento, apoiada na fortaleza da Touriga e da Tinta Roriz. A casta, cujo nome levaria a pensar que é castelhana, segundo os especialistas, é mesmo autóctone portuguesa. Detractores aventam que foram os peregrinos, no regresso de Santiago de Compostela, que a trouxeram, mas contrargumentam os estudiosos que foi precisamente ao contrário. Terá ido, de cá, para lá, pois, na Galiza, a casta Mencia têm algumas características semelhantes à Jaen.
Dizem os entendidos que a Jaen produz bem e amadurece cedo, embora resista mal ao oídio. Dá muita cor aos vinhos (o rubi habitual do vinho do Dão), embora tenha baixos índices de acidez. Precisa da companhia da Touriga Nacional e da Tinta Roriz, para ganhar confiança e força, pelo tempo de guarda. Mas, na minha ingenuidade de amador, eu acredito, piamente, que ela é responsável pela elegância inconfundível dos tintos do Dão. E que assim seja!

sábado, 17 de março de 2012

Oportunismos


São variadas as formas de rapina. E há diversas aves e animais, de médio e grande porte, que a ela se dedicam: os corvos, os abutres, as terrestres hienas. Mas também há animais racionais que vivem desta indústria de proxenetismo que, por vezes, tem aspectos necrófagos. E, neste particular, as especialidades são diversificadas, desde que as carcaças sejam prometedoras.
Pode assumir, até, aspectos literários. Premonitoriamente, o verso pessoano "cadáver adiado que procria", na sua generalidade, alimentou e alimenta a vidinha de muito boa gente mediocre, com propensão canibalesca e necrófaga, pagando-lhe, em troca, congressos, fama e nome de duvidosa qualidade científica - mero oportunismo de rapina.
Mas agora há mais. Um ou dois santacombadenses, com piedosas e nobres justificações esfarrapadas, propõem-se comercializar um vinho do Dão, com o patético e foleiro nome de "Memórias de Salazar". Onde chega este parolo proxenetismo de província?!... Agora já só falta, também, porem no mercado umas botas com a marca e o nome do ditador que aperreou Portugal, de 1932 a 1968...

para AVP, que sugeriu que eu glosasse o tema.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Mercearias Finas 44 : Vinhos de guarda


Pode dizer-se que, de uma forma geral, os vinhos brancos têm uma vida mais curta do que os tintos e, por isso, não devem ser guardados muito tempo. E, em Portugal, pode afirmar-se que os bons vinhos tintos das regiões demarcadas do Dão, Bairrada e Douro, à partida, têm mais potencial de envelhecimento que os do Alentejo.
Para quem, como eu, goste de vinhos velhos, e os guarde na garrafeira, torna-se no entanto um problema saber se um vinho com 10, 15 anos se encontra ainda em boas condições de ser bebido e apreciado. A menos que, tendo várias garrafas da mesma marca, ano e região, vá provando, gradualmente, o vinho para poder avaliar a passagem do tempo, e a qualidade.
Ora, a casa leiloeira Christie's tem um processo simples e prático, embora não totalmente rigoroso, de estimar as condições do vinho, em garrafa. Como o vinho, com o tempo e porosidade da rolha, vai evaporando e perdendo volume, a leiloeira estabeleceu uma escala de altura do líquido, em relação ao gargalo da garrafa, como se pode ver pela imagem, que permite prever o seu estado.
Assim, segundo o esquema, a posição 1 (high fill) é um óptimo sinal para um vinho tinto velho de 10 anos. Pelo contrário, a posição 8, abaixo da curvatura da garrafa, é um indício de que o vinho já não estará em condições de ser bebido. Muito embora esta tabela seja para aplicar aos "Bordeaux", creio que também poderá ser usada em relação aos vinhos tintos portugueses, de guarda.