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segunda-feira, 6 de julho de 2020

Bibliofilia 180


Integrando a copiosa literatura temática sobre a legitimidade de D. Miguel (1802-1866), em detrimento de D. Pedro IV (1798-1834), à coroa portuguesa, estas duas edições da Impressão Régia saíram com apenas o intervalo de um ano (1828 e 1829) e, creio, não costumam aparecer juntas. Muito embora um dos anteriores proprietários as tenha mandado encadernar em conjunto, modesta mas capazmente, em jeito de miscelânia, talvez por os assuntos se relacionarem. Se D. Miguel I. Obra... (1828) está íntegra e inclui a gravura original, como acima se pode ver, já ao Exame da Constituição de D. Pedro. ...(1829) falta a imagem de D. Miguel que integrava a edição primitiva. Os dois livros custaram-me, no mês passado, 25 euros, após um desconto considerável...
O estado dos volumes (142 e 168 páginas, respectivamente) é razoável, embora estejam com manchas de água, sobretudo o primeiro livro.


O primeiro dos livros tem prefácio de José Agostinho de Macedo (1761-1831), ferrenho miguelista. A obra terá sido traduzida do francês, por João de São Boaventura, mas a sua autoria é incerta, umas vezes atribuída ao Conde de Bordigné, outras, a António Ribeiro Saraiva (1800-1890), lugar-tenente de D. Miguel, que morreu exilado em Inglaterra. O segundo livro foi escrito, ou traduzido (?), por José Pinto Cardoso de Beja e Figueiredo, natural da vila de Gouveia, e bacharel em Leis.
Separadamente, encontrei os dois livros à venda, em alfarrabistas e pela net, a preços que oscilavam entre os 35 e os 80 euros, cada um deles.
Por uma questão de curiosidade, posso referir que a segunda obra teria tido uma tiragem de 5.200 exemplares, segundo informação da Livraria Manuel Ferreira (Porto).

segunda-feira, 26 de março de 2018

Curiosidades 69


De há muito que o coração é usado como imagem e símbolo maior do amor. Já os egípcios o usavam assim. Muito embora alguns filósofos gregos dele tentassem fazer a morada da alma, sem grande sucesso. Também o cristianismo, iconograficamente, o atribuiu e personificou nas figuras do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, em definitivo. Pascal e Descartes pronunciaram-se sobre o assunto, em reflexões conhecidas. De uma forma mais terrena e concreta, poder-se-ia falar do coração de D. Pedro IV, que se conserva, embalsamado, na Igreja da Lapa, e que o monarca português doou, como prova de afecto, à cidade do Porto.
Mais interessante porém é o mito anatómico, criado pelos romanos, de ligar, através de uma fina veia (vena amoris), o coração ao dedo anelar (não sei o que a acupunctura mais séria teria a dizer sobre isto...). E, residualmente, a ideia se ter perpetuado no facto e no símbolo de se usar a aliança de casamento no dedo anelar (esquerdo, muitas vezes). Ao que parece, e até ver, também para sempre.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Descubra as diferenças


É normal que os amigos de um casal, pais recentes, ao verem o recém-nascido, menino ou menina, exclamem sorridentes e efusivos: "é tão parecido com...", " lembra...", "é a cara chapada de..." - procurando um rosto antepassado, para avalizar, pelas feições, a legitimidade do nascituro. Há, neste esforço de procurar as semelhanças, o sentido de uma moral ou de piedade cristã, que só poderemos louvar.
O futuro pode trazer também esse carimbo de legitimidade sanguínia e de genes passados. Se compararmos o rosto de Jorge V (1865-1936), de Inglaterra, com os traços do czar Nicolau II (1868-1918), da Rússia, que eram primos, e ambos netos da rainha Victoria, a semelhança é enorme e impressionante. Mas se compararmos o nosso D. Pedro IV com o seu irmão D. Miguel, portugueses e irmãos, a dissonância dos seus rostos é profunda.
O mistério reside, bem como o nó do probema, na figura augusta da rainha Carlota Joaquina. Porque como diz o povo: mãe há só uma!...
Já agora, e o Menino Jesus, a quem aparentava: ao Espírito Santo ou ao S. José?

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

3 reis e 1 consorte, vistos por um monárquico


Como se sabe, Ramalho Ortigão (1836-1915) foi um monárquico convicto, até ao fim dos seus dias. Mas esse facto nunca o impediu de usar de humor e sentido crítico em relação aos reis portugueses. Em "Perfis e Costumes", Ramalho faz uma apreciação bem disposta sobre 4 representantes da Monarquia portuguesa, assim:
"...D. Pedro fôra um bravo militar, que - como ele próprio escrevia ao marquês de Resende - nos constitucionalizou à força: Sois mon frère ou je te tue.
D. Miguel foi um rei-esbirro, assim como o irmão foi um rei-soldado; acamaradava a dois caceteiros, o José da Polícia e o João Sedvém, êle tinha êste ideal fixo: organizar uma boa sociedade exclusivamente composta de frades e de toureiros, e rachar o resto à bordoada.
D. João VI era um príncipe feito de lombo de porco e marmelada, - um ventre sempre cheio, quási sempre constipado, constantemente polvilhado de rapé e enformado nuns calções sujos.
Enfim Malherbe veio. Chegou o Senhor D. Fernando (Augusto Francisco António).
Um pouco menos rei que os seus predecessores, rei apenas por afinidade, esta circunstância tornava-o simpático. ..."

para MR, em jeito de geminação, por ter falado da morte de D. Pedro IV, no Prosimetron.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

D. Pedro IV, Imperador




Desconheço se a obra terá já tido uma versão portuguesa. O romance histórico "El Imperio eres tú", de Javier Moro, foi Prémio Planeta 2011, em Espanha. E a obra é saudada pelo TLS (nº 5694) muito favoravelmente, a partir de uma leitura de Gabriel Paquette. Estará muito bem documentada e escrita com vivacidade e ritmo. Aqui fica a informação, a quem possa interessar.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Pedro e Domitília


Num compêndio de História, dita séria, Domitília é, quando muito, uma pequena nota de rodapé, mas ainda hoje há quem, no Brasil, lhe ponha, no túmulo, flores frescas e lhe atribua aura de santidade. Algumas prostitutas que, por exemplo, pondo os olhos na história da vida dela, pensem salvar a sua, no futuro. De seu nome completo, Domitília de Castro e Canto Melo, Marquesa de Santos por graça de D. Pedro IV, nasceu a 27 de Dezembro de 1797, de ascendentes açorianos. Tinha, ao que se diz, um corpo muito harmonioso, e era bonita.
Nem sempre se diz, no entanto, mas eu estou convicto que o primeiro Imperador do Brasil, além de ser arrebatado como o irmão Miguel, era também um pinga-amor. Pelo menos, pela quantidade de filhos que deixou no Brasil, para além de outro, que teve de uma senhora francesa (Adèle Bonpland?, Clemence Saisset?), e que veio para a Europa com a mãe. Só de Domitília, teve D. Pedro IV, cinco filhos, 2 deles mortos de tenra idade. Devia ser mulher fogosa, a Marquesa de Santos, e prolífica porque, de dois casamentos e uma ligação régia, teve nada menos do que 12 descendentes. Conta-se que Domitília, durante a relação (1822-1829) que teve com o Imperador, ainda disparou uma arma de fogo contra a irmã, Maria Benedita (Marquesa de Sorocaba) que também se entendia com D. Pedro e de quem teve um filho: Rodrigo Delfim. A relação da Marquesa de Santos com Pedro acabou pouco depois da morte da Imperatriz Leopoldina, quando o primeiro Imperador do Brasil resolveu casar com Amélia de Leuchtenberg.
Domitília voltou ainda a casar com um obscuro brigadeiro, Rafael de Aguiar, de quem veio a ter mais 4 filhos. A Marquesa de Santos morreu, pia e caridosa, a 3 de Novembro de 1867.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Curiosidades 19 : O Grito do Ipiranga


Acontece que amanhã, 7 de Outubro, se completam 105 anos sobre a morte de Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905), célebre pintor brasileiro e autor de um dos mais conhecidos e emblemáticos quadros da iconografia do país-Irmão. Refiro-me a "O Grito do Ipiranga" ou, como inicialmente foi denominado, "Independência ou Morte", obra acabada em 1888, por Pedro Américo, e que hoje se encontra no Museu Paulista. O quadro representa o ponto de partida para a Independência do Brasil, e o grito foi dado por D. Pedro IV de Portugal que viria a ser o primeiro Imperador das terras de Santa Cruz, em 1822.
Por coincidência li, recentemente, uma entrevista a um jornalista/escritor de sucesso, brasileiro (Laurentino Gomes), que refere este quadro e a figura complexa e controversa de D. Pedro IV (1º do Brasil). Acerca do quadro de Pedro Américo, diz ele o seguinte:"...Nada que está ali é real. D. Pedro aparece como um príncipe real bem vestido num cavalo alazão. Ele não estava assim. Ele estava mais como um tropeiro numa mula de carga, que era a forma correcta de subir a serra do mar, os dragões da independência (a guarda de honra do imperador) ainda não existiam, então eram tropeiros, fazendeiros, pessoas simples do vale do Paraíba que haviam constituído a guarda de honra. Nem o riacho do Ipiranga deveria estar ali porque o grito aconteceu a 600 metros do riacho." (Revista do "Público", 3/10/2010, pg. 41)
A fazer fé neste Laurentino Gomes, mais uma vez se comprova que a História é, quase sempre, re-encenada. Por isso, todo o cuidado é pouco...