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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Alcunhas e cognomes


Um cognome acaba, muitas vezes, por historicamente marcar um carácter, para a posteridade, muito embora não seja exacto ou não corresponda à maneira de ser do assim nomeado. Tudo depende da perspectiva de quem o alcunhou. O nosso rei D. Pedro I é um bom exemplo deste facto, até por lhe serem aplicados 2 cognomes, opostos: o cru, ou o justiceiro - consoante o ponto de vista que se possa ter das suas acções humanas. Também a católica rainha inglesa Maria I foi apelidada de "bloody (sanguinária)" pelos britânicos que, entretanto e maioritariamente, se tornaram protestantes. Tivessem eles mantido a religião católica e, se calhar, o cognome da rainha teria sido: piedosa...
O imperador do Sacro-Império germânico Frederico I (1122?-1190) tem ligado ao seu nome o apelido de "Barbarossa", que não é verdadeiro. Segundo testemunhos coevos, a barba do imperador era loura, bem como o cabelo, e não ruiva ou roxa... A alcunha foi-lhe posta, já postumamente, pelos seus adversários italianos, para sugerir um temperamento colérico - que ele não tinha, apesar de ter sido um valente guerreiro. Terá passado grande parte da sua vida, não em palácios, mas em tendas de campanha de batalhas. Também fez Cruzadas. Mas tinha, ao que parece, uma índole equilibrada e um modo sereno. Dando fé aos seus contemporâneos era um "homem bem parecido, de altura média, nariz proporcionado e dentes brancos".

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Favoritos L : D. Pedro I



Chamaram-lhe o cru ou o justiceiro, consoante a perspectiva. D. Pedro I, que nasceu a 8 de Abril de 1320, foi um rei controverso. Partilha com D. Sebastião a popularidade mítica das lendas. No caso de D. Pedro, a do amor (por Inês de Castro) para além da morte, que inspirou vários escritores, desde António Ferreira ("A Castro") a Henry de Montherlant ("La Reine Morte"). Mas o rei, que deixou os cofres da Nação a abarrotar - e que seu filho, D. Fernando, se apressou a desbaratar em guerras inúteis e dispendiosas -, D. Pedro I, dizia eu, era também um homem inquieto. Parece que era dado a fúrias repentinas (aliás, na boa tradição dos nativos astrológicos de Áries ou Carneiro) e atreito a frequentes insónias. Nessas alturas, vinha para a rua, alta noite ou de madrugada, dançar, comer e beber com o Povo, à luz das tochas. Mas demos a palavra a Fernão Lopes que, assim, lhe esboça os contornos de retrato:


"Este rei Dom Pedro era muito gago. E foi sempre grande caçador e monteiro, sendo infante e depois que foi rei, trazendo grande casa de caçadores e moços de monte e de aves e cães de todas maneiras que para tais jogos eram pertencentes. Ele era muito viandeiro, sem ser comedor mais que outro homem, que suas salas eram de praça em todos os lugares por onde andava, fartas de vianda em grande abastança. (...) E el-rei Dom Pedro era em dar mui ledo, tanto que muitas vezes dizia que lhe afrouxassem a cinta - que então usavam não muito apertada -, por que se lhe alargasse o corpo por mais espaçadamente poder dar, dizendo que o dia que o rei não dava, não devia ser havido por rei. Era ainda de bom desembargo aos que lhe requeriam bem e mercê; e tal ordenança tinha nisto que nenhum era detido em sua casa por cousa que lhe requeresse. ..."