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segunda-feira, 14 de março de 2022

Curiosidades 91



Do rei D. Manuel I se dizia que era entroncado, mas tinha o tórax curto e os braços muito compridos, que quase lhe chegavam aos joelhos. Sobre as suas régias mãos não constam as crónicas.
Por diversas vezes, Maria João Pires referiu que o seu repertório evitava Liszt por a pianista portuguesa ter as mãos pequenas e os dedos curtos.
Em Quando os robles também se abatem diz-nos André Malraux (1901-1971) que : "Volto a descobrir, ao apertar-lhe a mão, como as mãos deste homem (Charles de Gaulle), tão grande ainda, são pequenas e finas. Também as mãos de Mao Tsé-Tung, descarnadas, parecem as mãos de um outro." (pg. 20)

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Filatelia CXL

 


Para lá das pajelas dos CTT que anunciavam, com alguma antecedência, as novas emissões de selos, havia algumas iniciativas, normalmente desconhecidas dos filatelistas, que os correios portugueses promoviam. Estão neste caso uns pequenos classificadores esteticamente de bom gosto com que eram presenteadas instituições do Estado, mas também autoridades de relevo e do regime, escolhidas pelos CTT.



São alguns desses classificadores que deixo em imagem, todos das ex-colónias, e o interior de um deles, que continha os selos (1969) alusivos à evocação do nascimento do rei D. Manuel I (1469-1521), de cada um dos territórios ultramarinos.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Recuperado de um moleskine (31)


Por aqui se começam a convocar D. João II e, sobretudo, D. Manuel I, se não quisermos ir mais longe. E para não falar do campo de teixos (o céltico ibhar ou o eburos, gaulês) que também lhe veio ao nome. Mas nós vamos em busca das sombras de Galharde, de Xavier de Matos, que se acolheu ao mecenato generoso de Cenáculo e lhe dedicou várias poesias laudatórias. E espero ter à mão, autógrafos ou não, versos manuscritos de Sá de Miranda. Que decerto lá chegaram a partir de algum dos filhos de D. João III, originalmente, e que foram passando, através dos séculos, de mão em mão, com veneração e respeito.
Como é que pelo Verão, os nossos reis a escolhiam como cidade da sua vilegiatura?, eis o que me pergunto. Sem resposta lógica e suficiente para a minha curiosidade. Mas a cidade acolhe bem, quem venha, e é sempre muito bonita...



Nota: em imagem, apontamentos parciais e pessoais que levei, numa das primeiras visitas que lá fiz.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Retratos de noivas régias


Não seria tarefa fácil, em tempos antigos, para um pintor, manter a estima dos seus mecenas régios, ao retratar as filhas e princesas casadouras. E, isto, porque normalmente o noivo, antes de se comprometer, em definitivo, pedia ao eventual e futuro sogro que lhe enviasse o retrato pintado da pretendida. Tal facto poderá ser visto sob diversas perspectivas: se a noiva fosse feia, a tentação, para o artista, seria aformoseá-la para agradar ao pai-mecenas e convencer o futuro noivo; mas incorreria, certamente, na fúria futura do pretendente régio, quando descobrisse o logro e o estratagema para o convencer a casar, quando visse, ao vivo, a princesa...
Hans Holbein (1497-1543), ao que parece, era intransigente: se a princesa era feia, feia a retratava. Mas nem todos os pintores assim procediam.
A terceira mulher do nosso D. Manuel I, Leonor de Áustria (1498-1558), irmã mais velha de Carlos V, que, além de rainha de Portugal, o foi também de França quando, depois de enviuvar, se consorciou com Francisco I, em 1531, foi retratada por várias vezes e por diversos pintores. O retrato, que encima este poste, foi executado por Joos von Cleve (1485-1541), por volta de 1530, e antes de Leonor se ter casado com o rei de França. E é possível que Francisco I o tivesse visto, antes do casamento. Não sei, também, se o Venturoso requereu um retrato da irmã de Carlos V, antes de tomar uma decisão. Devo lembrar que, a princípio, ela fora escolhida para noiva de D. João III, mas o rei viúvo enamorou-se dela, e foi ele que a desposou...
Mas D. Manuel I era arguto e pediu informações a  quem confiava, sobre a fisionomia, maneira de ser, e aspecto de Leonor de Áustria. O nosso embaixador em Espanha, Pedro Correia, escreveu-lhe assim:
"...Madama Leonor não é muito formosa, nem lhe podem chamar feia; tem boa graça e bom despejo, e julgo-a de condição branda e avisada; não tem bons dentes, é pequena de corpo, parecendo-o ainda mais porque usa chapins só da altura de dois dedos; e é grande dançadeira."
Era um diplomata, este Pedro Correia!...

domingo, 18 de maio de 2014

Sardinhas, jacarandás e Alcochete


As sardinhas, apesar de ainda magras, estavam, as seis, plenas de mílharas, como os jacarandás, cheios de folhas, mas ainda sem flores que se vissem. Ao contrário dos da 24 de Julho, em Lisboa, já floridos, mas despidos de folhagem, talvez por causa da poluição automóvel da avenida, que com as obras, na Ribeira das Naus, ainda está pior de trânsito.
Ora, Alcochete (Al Caxete[árabe]= O Forno) tem aquele rara harmonia de algumas (muito poucas) terras ribeirinhas, em que as águas, o céu e as areias se casam, em aliança equilibrada, com os ventos que sopram, purificando o ar. Para aqui veio, em 1469, D. Beatriz, fugindo aos ares empestados de Lisboa. E aqui deu à luz o venturoso D. Manuel, no último dia do mês de Maio.
Para próximo daqui, Barroca de Alva, veio também Jácome Ratton, em 1767, não já por causa dos bons ares, mas para explorar umas salinas, e para melhor tratar desses negócios, que o Marquês apoiava. 
E eu que só queria falar das primeiras sardinhas que comi este ano... As palavras - dizem - são como as cerejas. E que boas que elas estão, neste ano da graça de 2014!...

quarta-feira, 12 de março de 2014

Há 500 anos, foi assim...


Por palavras de Jerónimo Osório (1506-1580), que foi bispo de Silves, na sua Da vida e feitos de D. Manuel, traduzidas, do latim, por Francisco Manuel do Nascimento, teria sido assim:
"...Este ano ia já no fim, quando el-rei D. Manuel mandou ao papa Leão X três embaixadores: Tristão da Cunha, que era o principal, e Diogo Pacheco e João Faria, dois jurisconsultos muito autorizados em Portugal, por assessores, com um presente digno da sua magnificência real, que constava de sagradas vestimentas, lavradas de obra mui prima com muito ouro, muita pérola e pedraria, muita baixela também de ouro, e muitas jóias custosíssimas pelo peso e pelo valor; (...)
Fizeram êstes embaixadores finalmente sua entrada em Roma no dia 12 de Março de 1514, pela ordem seguinte: precediam os criados vestidos muito ao bizarro; seguia-se a onça nas ancas do cavalo pérseo, em que ia montado o persa caçador, depois o elefante com o seu cornaca; pequeno espaço de trás, no cavalo que já dissemos, Nicolau de Faria cerrava a primeira chusma. (...)
Tremia Roma inteira com o estampido da artilharia, quando apareceram ante o castelo Santo-Ângelo. Destecida a escuridão do fumo, chegou o elefante perto da janela donde o pontífice estava olhando; e, debruçando o corpo todo até afincar os joelhos, com todo o acatamento o saüdou assim três vezes, o que foi causa de muita maravilha para os que isto presenciaram. Mergulhando depois a tromba num grande tonel de água, borrifou quantos estavam pelas mais altas janelas; e daí voltando para a plebe, como por divertimento, copiosamente a orvalhou. ..."
Acrescente-se que Garcia de Resende ia por secretário desta embaixada ao Papa, que demorou uma semana (20 de Março de 1514) até receber os dignatários portugueses, no palácio pontifício. O elefante, a quem deram o nome de Hanno, sobreviveu em Roma, mais dois anos, mas morreu novo: com 6 para 7 anos de vida.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Bibliofilia 99


Não há nada pior do que querermos, a todo o custo, um determinado livro, desesperadamente. Por necessidade inadiável, ou por impaciência. Porque pagamos normalmente bem cara essa pressa. Então hoje, nem se fala, quando os best-sellers desta semana, que custam 20/30 euros, dentro de 6 meses, aparecerão aos montes, nas feiras de livros das estações do Metropolitano, a 5 ou 10 euros, se não for menos...
Este "Livro das Fortalezas de Duarte Darmas", que é uma edição facsimilada (Editorial Império, 1943) de um manuscrito em pergaminho, que se guarda na BNP, tem outra qualidade, mais perene. Comprei o meu exemplar, sem paixão, porque se me atravessou no caminho, ocasionalmente. Não o procurava, mas achei-o bonito e adquiri-o, em 1985, num alfarrabista lisboeta, por Esc. 8.000$00.
Pouco tempo depois (Novembro de 1991), num leilão de José Manuel Rodrigues, aparecia sob o lote 355, um exemplar semelhante ao meu, que foi arrematado por Esc. 38.000$00. Para remate deste poste, aqui deixo as incríveis (e insensatas) oscilações de valor que esta obra facsimilada, com desenhos, traça e plantas do escudeiro de D. Manuel I, tem tido através do tempo:
- Livraria Manuel Ferreira, Porto (referência 1857): 500,00 euros.
- Amazon (actualmente): entre 281 e 289 dólares.
- Martinho Livreiro Alfarrabista, lote 1318: 650,00 euros.
- Leilão de José Vicente (11 e 12 de Dezembro de 2012), lote 16: estimativa entre 150 e 300 euros.
- Próximo leilão (13/18 de Março de 2014) da Livraria Antiquária do Calhariz, lote 508: entre 100 e 200 euros.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sem garantia absoluta...


Sendo, como é, tão escassa a nossa iconografia, sobretudo dos reis da primeira e segunda dinastia, fiquei surpreendido com este quadro, que eu não conhecia, retratando D. Manuel I (1469-1521). A imagem vem no último "Obs.", ilustrando um artigo sobre a expulsão dos judeus, no reinado do rei Venturoso.
Infelizmente, não há qualquer indicação sobre a proveniência ou autor do retrato, mas quis deixá-lo no arquivo virtual do Blogue, mesmo sem a certeza de ele personificar o monarca.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Pinacoteca Pessoal 49


Admito que, incluir nesta rubrica uma das inúmeras iluminuras do "Livro do Armeiro-Mor", será um pouco descabido, mas a excepcional beleza do famoso códice justifica que dele dê conta.
O livro, que se guarda na Torre do Tombo, terá sido executado a mandado de D. Manuel I, no ano de 1509. O seu autor, ou organizador, terá sido João de Crós, luso-francês, e provável rei das armas do nosso monarca Venturoso. Por ele, e assim, ficaria definida a heráldica formal e oficial atribuída às famílias nobres portuguesas.
O "Livro do Armeiro-Mor" teve duas impressões fac-similadas. A primeira, em 1950, com apenas uma tiragem de 500 exemplares. A mais recente data do ano 2000 (Edições Inapa), com a reprodução de 3.000 exemplares do belíssimo códice. Aqui fica, em imagem, uma pequena amostra da beleza de execução das iluminuras que dele constam.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Divagações 45 : pintura, arte e fotografia


Precisamente, 11 dias antes do nosso rei D. Manuel I completar 46 anos, chegou a Lisboa, a 20 de Maio de 1515, e pela primeira vez, à Europa, um rinoceronte. O animal causou enorme curiosidade e admiração. De tal modo a notícia se divulgou, pelo Continente, que, nesse mesmo ano, e através de uma descrição escrita, Albrecht Dürer (1471-1528) representou, por gravura, este rinoceronte indiano. O desenho está longe de ser uma cópia fiel do animal, mas a culpa não terá sido do grande Pintor alemão, mas sim da descrição incorrecta que lhe fizeram.
É minha convicção que o advento e aperfeiçoamento da fotografia, no séc. XIX, terá contribuído, de algum modo para o despontar da pintura abstracta e para o abandono, parcialmente, da transcrição pictórica literal de paisagens e retratos, com maior ou menor fidelidade, em relação aos modelos reais. A imitação objectiva perfeita através dos novos meios (fotográficos), terá ditado a procura de novos caminhos na Arte da Pintura. A pintura abstracta permitiu também, por outro lado, transmitir estados de alma que, até aí, estavam reservados apenas aos escritores e aos músicos.

Obsv.: o rinoceronte branco do postal é oriundo da África do Sul.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os efeitos retroactivos do colonialismo, ou talvez não


Uma crise inesperada acendeu-se, recentemente, entre o Malawi e a Tanzânia, por causa do Lago Niassa. O Malawi autorizou, em soberania plena e como seu único possuidor, a prospecção petrolífera e de gás, nas águas do grande lago. A Tanzânia reinvidicou, de imediato, metade do lago, como pertença territorial, ameaçando "proteger as suas fronteiras a qualquer preço". Creio que Moçambique, embora nação pacífica, também deveria ter uma palavra a dizer...
Entretanto, o Malawi ripostou baseando os seus "direitos" num tratado de 1890, celebrado entre o Império Alemão e o Império Britânico. E o caso está para durar. Oxalá se resolva por vias diplomáticas.
É curioso (penso eu) que, no caso de Cabinda, não se tenha tido em conta um tratado muito mais antigo, do séc. XVI (1509?), ractificado entre D. Manuel I e o rei do Congo (D. Afonso I?), que assegura a independência, embora com vassalagem a Portugal, da região de Cabinda. Mas também sei que o sr. Eduardo dos Santos não é versado em Direito. Julgo que é licenciado em Economia, por uma qualquer  universidade da ex-RDA... E bonda!...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pinacoteca Pessoal 33 : Fons Vitae


Oferecido por D. Manuel I (representado no quadro), em 1520/21, à Misericórdia do Porto, a pintura denominada "Fons Vitae" é atribuida à Escola de Bruxelas e, eventualmente, terá sido executada por um dos elementos da família flamenga dos Van Orley ( Bernard?), entre 1518 e 1520. Cristo crucificado está ladeado, à esquerda por Maria, sua mãe, e S. João, à direita. D. Manuel, D. Maria de Castela (terceira esposa do rei), bem como os 7 (8?) filhos sobreviventes do segundo casamento, estão de joelhos, em adoração.
A pintura, em madeira de carvalho, encontrava-se inicialmente na capela de S. Tiago, mas foi transferida para a Sala de Despacho da Santa Casa da Misericórdia do Porto, onde ainda se encontra. Em 1885, o "Fons Vitae" foi restaurado pelo pintor Manuel António de Moura.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Em louvor de Almeirim


Etimologicamente, o nome da cidade terá tido origem árabe. De 3.181 habitantes, em 1874, tem hoje um pouco mais de duas dezenas de milhar. Terá pouca importância, actualmente, mas D. João I, cujo aniversário do nascimento passa hoje (11 de Abril de 1357), deu visibilidade a Almeirim ao construir, lá, o Paço Real - ao que dizem. Região de vastos vinhedos, abastecia Lisboa do precioso néctar de tintos carregados. Por lá estadiaram D. Manuel I e o filho, D. João III. Lá imprimiu (?) Hermão de Campos o Cancioneiro Geral, em 1516, que Garcia de Resende coligiu. De lá se originou, em boa hora, a conhecida Sopa de Pedra. O Paço de D. João I terá ruído na altura do terramoto de 1755. Mas lá tinham sido estreados alguns autos de Gil Vicente. E, na carta a Pero de Carvalho, pelos seus bons ares e produtos agrícolas, também Sá de Miranda a louvou:

Isto que ora ouvis de mim
não sei se ouvireis d'alguem;
buscai, preguntai sem fim
no desejado Almeirim,
no farto de Santarém.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Retratos por palavras


Tenho um particular apreço por retratos, em prosa (e em verso), de vultos históricos, sobretudo quando a iconografia, sobre eles, é escassa ou até inexistente. As palavras podem suprir, em parte, essa falta. Como é o caso do retrato, por palavras, de Sá de Miranda, que vem no início do volume das suas "Poesias", na edição de 1614. De Garrett, há já uma razoável iconografia, mas não deixa de ser útil o retrato que dele traçou Guedes de Amorim, para melhor o imaginarmos. Também nas antigas crónicas há alguns retratos interessantes, por exemplo, de D. João II e D. Manuel I, cujas iconografias não são abundantes. Mas estes retratos, por palavras, são relativamente sucintos e pouco desenvolvidos pelos cronistas portugueses.
Há dias, no entanto, deparei-me com um interessante e minucioso retrato, em prosa, feito por Fernán Pérez de Guzmán (1376-1460), cronista castelhano do rei Juan II, de Castela. O retratado é Fernando I de Aragão (1380-1416), que foi regente durante a menoridade do sobrinho Juan II, no período entre 1406 e 1416. Vou reproduzi-lo, em parte, traduzindo, livremente, as palavras de Guzmán, como seguem:
"Foi este rei D. Fernando formoso de semblante, homem de corpo elegante, mais alto que mediano. Tinha os olhos verdes e os cabelos da cor da avelã bem madura. Era branco e levemente rosado, tinha pernas e pés de gentil proporção, as mãos largas e esguias. Era gracioso, tinha fala pausada e recebia a todos os que vinham saudá-lo ou negociar qualquer coisa. Era muito devoto e casto, rezando continuamente as horas de Nossa Senhora, por quem tinha grande devoção, e dava sempre espirituosas e boas respostas. Era homem de muita verdade, lia com vontade as crónicas dos feitos passados, dava-se muito a todos os trabalhos, levantava-se normalmente muito cedo, dormia pouco, e comia e bebia moderadamente. E foi muito franco, manso e justiceiro, honrado como todos os bons. Muito piedoso, muito esmoler, homem de grande coração, esforçado e ditoso nas coisas da guerra."

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Memória 48 : Pero Vaz de Caminha


Terá viajado, visto e combatido, pelo menos, em Toro, este Pero Vaz de Caminha, nascido no Porto, em 1450, e que veio a morrer, provavelmente, lutando, em Calecute, na Índia, a 15 de Dezembro de 1500. Menos de 7 meses depois de ter escrito a célebre carta do achamento do Brasil, onde a surpresa nas palavras e frescura do texto é muito superior às primeiras palavras dos americanos, quando chegaram à Lua. Tudo faz crer que era homem que conhecia bem as terras do norte de Portugal, e também o seu apelido permite situar a sua ascendência familiar no Minho. Ao escrever a carta a D. Manuel, para comparação da bondade das terras de Vera Cruz, lembra as terras do Norte português. Assim:
"...A terra, porém, em si, é de muito bons ares, assim frios e temperados como os d'Entre Doiro e Minho, porque neste tempo de agora (Maio) assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem. ..."

terça-feira, 1 de junho de 2010

Em sequência : Sá de Miranda



A fazer fé nos dados mais credíveis, Francisco de Sá de Miranda terá nascido, em Coimbra, nos finais de Agosto de 1481, o que significa que cresceu e se fez homem durante o reinado de D. Manuel I. Pese, embora, o lado polémico da minha afirmação, faço desde já uma declaração de interesses: considero-o um dos maiores poetas portugueses de sempre, ao lado de Camões e de Pessoa. É, porém, uma "frauta ruda" no seu cantar enviezado, nas suas elipses, nos seus versos nem sempre claros, delicados ou fluentes, mas que apontam para longe e para o fundo de nós mesmos.
Esteve em Itália, provavelmente entre 1521 e 1526 - era ainda familiar afastado dos Collonnas, e de Vittoria Collonna (1490-1547), mulher influente, amiga de Miguel Ângelo -, onde tomou contacto com a "modernidade" da época: o Renascimento. Dessa viagem ficou, pelo menos, a "Cantiga feita nos grandes campos de Roma". Quando regressou a Portugal, estadiou em Buarcos (onde também dizem que terá nascido), pousou, reflectiu e voltou, depois, à vida activa. Era um homem de Leis (formado em Lisboa), e a Justiça sempre foi uma das suas questões próprias. A sua poesia faz-se eco disso. E era um varão desassombrado, o que tinha a dizer, dizia: a amigos, a príncipes ou reis. Nunca se coibiu de dizer "não" o que é, sempre, um indício de maturidade mental, sobretudo num país de brandos costumes que inventou o "nim".
A sua ida para o Minho, próximo de Amares (Quinta da Tapada), está envolta em mistério, pelas causas que a originaram, até porque Sá de Miranda era um homem do Paço. Arrisco, especulativamente, uma hipótese insuficientemente documentada, ou por provar: o clima criado pela Inquisição. Há versos sibilinos ("...Não vejo o rosto a ninguém;/ cuidais que são ou não são...") vários pelas suas "Poesias" que denunciam uma perseguição ("...mente cad'hora espia;..."). O reinado de D. João III, com a criação da Inquisição, foi muito diferente do período manuelino anterior. Percebe-se que, com D. João III, houve menos liberdade, havia receios, tudo foi mais domesticamente cristão, mais pequenino e mais conforme...
Sá de Miranda casou tarde. Esse facto deve, também, ter-lhe dado uma visão mais ampla da vida. A morte de um dos dois filhos que teve, em combate, próximo de Ceuta, e o falecimento de sua mulher afectaram-no profundamente. Fragilizado ("...porque se conta dele que, estando sem gente de cumprimento [ e ainda com ela ], se suspendia algumas vezes, e de ordinário derramava lágrimas sem o sentir;..."), vem a morrer em 1558, em data desconhecida, mas posterior a 16 de Maio. De Sá de Miranda, na lição de Pina Martins, escolhi por gosto o seguinte soneto:

Alma que fica por fazer desd'hoje
Na vida mais? se a vã minha esperança
Que sempre sigo, que me sempre foge?
Já quanto a vista alcança a não alcança.

Fortuna que fará? Roube, despoje,
Prometa doutra parte, em abastança:
Que tem com que m'alegre, ou que me anoje?
Tanto tempo há que dei mão à balança!

Chorei dias e noites, chorei anos,
E fui ouvido ao longe, pelo escuro
Gritando, acrescentar muito em meus danos.

Agora que farei? Por Amor juro
De tornar a cantar fora d'engano
E por muito do mal, posto em seguro.
P.S. : para Luís Barata, com estima.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Memória 27 : D. Manuel I



D. Manuel I nasceu a 31 de Maio de 1469, e veio a falecer em 13 de Dezembro de 1521. Porque a iconografia portuguesa é, normalmente, exígua, socorremo-nos do retrato que Damião de Góis, na Crónica de D. Manuel I (cap. LXXXIV), traça do rei:
"Foi el-Rei D. Manuel homem de boa estatura, de corpo mais delicado que grosso, a cabeça sobre o redondo, os cabelos castanhos, a testa alevantada, e bem descoberta deles, os olhos alegres, entre verdes e brancos, alvo, risonho, bem assombrado, os braços carnudos e tão compridos que os dedos das mãos lhe chegavam abaixo dos joelhos, tinha as pernas tão compridas e bem feitas, segundo a proporção do corpo, que nenhuma coisa se lhes podia desejar. Tinha voz clara e bem entoada, era mui atentado no falar, e mui honesto e discreto em suas práticas. Quando comia posto que fosse apressado no comer, nem por isso deixava de praticar e disputar com os letrados que sempre estavam à sua mesa, e sobretudo com homens estrangeiros, ou com alguns dos seus que andaram fora do Reino: foi sofrido, manso e clemente,..."