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segunda-feira, 2 de março de 2026

Lembrete 77

 


Acabo de referir ao meu amigo C. S. a genial reflexão do rei D. João II, de que: "há um tempo de coruja e um tempo de milhafre." Assim há de facto, creio que para todos nós, um período de loquacidade, mas também há um espaço que recomenda silêncio e discrição nossa para com os outros, ainda que grandes amigos.
Estamos no tempo de peixes do rio, em que eu dou supremacia à saborosa lampreia. Altura em que C. S. reunia, em sua casa alguns, poucos, amigos para um almoço de um arroz do celebrado ciclóstomo acompanhado por um Sousão de Trás-os-Montes, ou Vinhão minhoto tinto. Aproveitei assim a efeméride, para quebrar esse silêncio de coruja. E falar-lhe.

domingo, 18 de novembro de 2018

Paco Ibáñez (1934) canta Jorge Manrique (1440?-1479)


Este poema maior da literatura castelhana, intitulado Coplas por la muerte de su Padre, de Jorge Manrique, era - diga-se, por uma questão de curiosidade - um dos preferidos do nosso rei D. João II que, normalmente, trazia consigo, no bolso, uma cópia manuscrita destas Coplas.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Recuperado de um moleskine (31)


Por aqui se começam a convocar D. João II e, sobretudo, D. Manuel I, se não quisermos ir mais longe. E para não falar do campo de teixos (o céltico ibhar ou o eburos, gaulês) que também lhe veio ao nome. Mas nós vamos em busca das sombras de Galharde, de Xavier de Matos, que se acolheu ao mecenato generoso de Cenáculo e lhe dedicou várias poesias laudatórias. E espero ter à mão, autógrafos ou não, versos manuscritos de Sá de Miranda. Que decerto lá chegaram a partir de algum dos filhos de D. João III, originalmente, e que foram passando, através dos séculos, de mão em mão, com veneração e respeito.
Como é que pelo Verão, os nossos reis a escolhiam como cidade da sua vilegiatura?, eis o que me pergunto. Sem resposta lógica e suficiente para a minha curiosidade. Mas a cidade acolhe bem, quem venha, e é sempre muito bonita...



Nota: em imagem, apontamentos parciais e pessoais que levei, numa das primeiras visitas que lá fiz.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Pinacoteca Pessoal 128


Dele nos diz Manuel Telles da Silva, no seu Vida e Feitos de D. João II, que: "Foi de estatura um pouco elevada e de corpo delgado até à adolescência, mas depois obeso; o rosto comprido e formoso, entre o branco e o corado; os olhos negros e agradáveis, mas, quando se irava, raiavam-se de sangue e incutiam temor; o nariz de justa medida. Os cabelos eram densos e arruivados, e, embora tivessem embranquecido precocemente, não deixou arrancar as cãs."



Tiveram vida breve os dois filhos de D. Afonso V (1432-1481). Se D. João II (1455-1495) ultrapassou em pouco mais de 5 meses, os 40 anos, sua irmã mais velha, princesa Sta. Joana (1452-1490), finou-se com 38, em Aveiro. Da iconografia existente verifica-se uma parecença física notável. A boca, o rosto alongado e provavelmente a cor dos cabelos, para além dos olhos. Mas também a obstinação de carácter os irmanava. D. Joana na recusa em casar-se, D. João II na forma desapiedada e firme com que consolidou o seu poder pessoal e régio.
O retrato da Princesa, considerado da escola de Nuno Gonçalves, é um dos ex-libris do Museu de Aveiro, homónimo. Em Sevilha, na Fundação da Casa Ducal de Medinacelli, está o retrato de D. João II, cópia de um retrato perdido do Príncipe Perfeito, pintado talvez em 1490, de autor desconhecido.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sobre a verbosidade


Sempre privilegiei a concisão clássica em relação à incontinência barroca, embora nesta última tenha alguma tolerância para com o conceptismo, em detrimento do cultismo.
Nem sempre serei contido, mas julgo que quase poderia fazer minha a sábia máxima de D. João II: "Há um tempo de coruja e há um tempo de milhafre." Quanto à escrita, tenho consciência de que raramente resisto a um bom adjectivo, para uma situação apropriada ou para sublinhar um sentimento, mas tenho a noção de que, às vezes, abuso dos advérbios. E também tenho o sentido das minhas fraquezas: nunca chegarei à usura exemplar da escrita de Georges Simenon, que passa páginas e páginas sem usar um único adjectivo...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Jorge Manrique / Amancio Prada


A elegia "Coplas a la muerte de su padre", de Jorge Manrique (1440-1479), é - para quem não souber - um dos poemas maiores de Espanha.
Tendo em vista o tema, poderá ser polémica esta versão encenada, de Amancio Prada (1949), mas de que eu gosto particularmente.
Em jeito de curiosidade, e citando a informação de Garcia de Resende, lembro que este belíssimo poema de Manrique foi encontrado manuscrito por entre as roupas de D. João II (1455-1495), aquando da sua morte, em Alvor.

P. S. : eu sei que, para o cibernauta-médio, 17 minutos de vídeo (15, em acto lírico-musical) é muito tempo. Mas a Bíblia também diz: "muitos são os chamados, poucos os escolhidos"...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Dizer o que já foi dito, ou talvez não


Por uma mera circunstância temporal, coincidiu eu ter tido conhecimento de uma grandiosa exposição, em Roma (que seguirá em Março para Paris), bem como da saída de um livro, sobre o imperador romano Augusto (63 a.C.-14 d.C.), simultaneamente, com o facto de ter folheado um grosso volume, com vários estudos sobre Camões (Gulbenkian, Paris, 1981), que li muito em diagonal. Deste último, apenas um artigo de Andrée Rocha me despertou a atenção, pela originalidade de perspectivas apresentadas. Grande parte dos outros estudos falava do que já foi dito, por outros académicos, inúmeras vezes. Não tendo havido, que eu saiba, descobertas recentes espectaculares sobre Augusto, tenho dúvidas que esse novo volume, de 336 páginas, acrescente coisas novas sobre o Imperador romano.
No entanto, por vezes, temos surpresas. Em tempos, ofereceram-me um livro sobre D. João II, de Luís Adão da Fonseca (Temas e Debates, 2007), sabendo o ofertante que eu apreciava a figura deste rei português. Na altura, fiquei contente e agradeci efusivamente, mas também pensei que iria ler o que já sabia - enganei-me. Porque o historiador abordava, sob perspectivas originais, a estratégia de Poder do Príncipe Perfeito, sobretudo, no papel que atribuía às ordens religiosas. Assim, a leitura foi-me proveitosa, pese embora talvez a pouca exigência de um leitor amador, que não é historiador. Outra exigência é provável que encontrasse lacunas na fundamentação argumentativa e documental.
Por isso, e modestamente, há que ter confiança, ou dar o benefício da dúvida aos historiadores italianos (com Eugenio La Rocca, à cabeça), que talvez possam ter descoberto novas coisas sobre Augusto...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Um livro precioso


Deu-me grande satisfação, hoje, saber que a Fortaleza da Torre Velha, onde Francisco Manuel de Melo esteve preso, próximo de Almada, foi classificada como Monumento Nacional. É uma construção única da arquitectura militar portuguesa, projectada no tempo e sob a traça avisada de D. João II (já aqui falei, no Blogue, desta Torre singular). A última vez que lá estive, fiquei consternado, porque a decadência era muita. Pode ser que, agora, sendo Património reconhecido e nacional lhe restituam a dignidade perdida. Porque, nem sempre, os portugueses sabem estimar e conservar os bens preciosos que nos vieram dum passado que, em muitos aspectos, foi rico e grandioso.
Por outro lado, e quase em simultâneo, tive conhecimento, através do TLS, que a British Library, com o contributo de vários mecenas, conseguiu adquirir por cerca de 9 milhões de libras (à volta de 11 milhões de euros) o famoso e único Cuthbert Gospel of St. John. É um livro de mão ( ou de bolso: 13,2 por 9,2 cm.) manuscrito do sec. VII e pertencia ao Stonyhurst College, instituição dos Jesuítas, no Lancashire. O manuscrito encontra-se intacto e com a encadernação da época. Terá sido colocado, em 687, no túmulo de S. Cuthbert, daí foi retirado em 1104, e bastantes anos depois foi entregue aos Jesuitas ingleses. O preço vultuoso da venda coloca este este livro manuscrito como o 2º mais caro, desde sempre.
Acrescente-se que, após a compra, a 17 de Abril de 2012, a British Library o vai mandar digitalizar. O que é uma óptima notícia para os estudiosos e bibliófilos interessados.

De Diogo Brandão

Este poeta do Cancioneiro Geral, Diogo Brandão, pertenceria a uma família do Porto, e faleceu pouco antes de Agosto de 1529, ou em 1530, como Jorge de Sena refere. Terá sido criado na corte de D. João II. E Garcia de Resende incluiu várias composições suas na colectânea que organizou. Fez bem, porque Diogo Brandão é um poeta estimável. Segue uma esparsa de sua autoria.

Esparsa sua a uma senhora que se chamava "da Costa"

Quem bem sabe navegar
pola vida segurar,
a esperança tem posta
dentro no pego do mar,
mas aqui por se salvar
deve certo vir à Costa.
Porque, posto que naquela
de vivo se veja morto,
ganha-se tanto por vê-la
qu'é milhor perder-se nela
que salvar-se noutro porto.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Retratos por palavras


Tenho um particular apreço por retratos, em prosa (e em verso), de vultos históricos, sobretudo quando a iconografia, sobre eles, é escassa ou até inexistente. As palavras podem suprir, em parte, essa falta. Como é o caso do retrato, por palavras, de Sá de Miranda, que vem no início do volume das suas "Poesias", na edição de 1614. De Garrett, há já uma razoável iconografia, mas não deixa de ser útil o retrato que dele traçou Guedes de Amorim, para melhor o imaginarmos. Também nas antigas crónicas há alguns retratos interessantes, por exemplo, de D. João II e D. Manuel I, cujas iconografias não são abundantes. Mas estes retratos, por palavras, são relativamente sucintos e pouco desenvolvidos pelos cronistas portugueses.
Há dias, no entanto, deparei-me com um interessante e minucioso retrato, em prosa, feito por Fernán Pérez de Guzmán (1376-1460), cronista castelhano do rei Juan II, de Castela. O retratado é Fernando I de Aragão (1380-1416), que foi regente durante a menoridade do sobrinho Juan II, no período entre 1406 e 1416. Vou reproduzi-lo, em parte, traduzindo, livremente, as palavras de Guzmán, como seguem:
"Foi este rei D. Fernando formoso de semblante, homem de corpo elegante, mais alto que mediano. Tinha os olhos verdes e os cabelos da cor da avelã bem madura. Era branco e levemente rosado, tinha pernas e pés de gentil proporção, as mãos largas e esguias. Era gracioso, tinha fala pausada e recebia a todos os que vinham saudá-lo ou negociar qualquer coisa. Era muito devoto e casto, rezando continuamente as horas de Nossa Senhora, por quem tinha grande devoção, e dava sempre espirituosas e boas respostas. Era homem de muita verdade, lia com vontade as crónicas dos feitos passados, dava-se muito a todos os trabalhos, levantava-se normalmente muito cedo, dormia pouco, e comia e bebia moderadamente. E foi muito franco, manso e justiceiro, honrado como todos os bons. Muito piedoso, muito esmoler, homem de grande coração, esforçado e ditoso nas coisas da guerra."

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A voz, D. João II e o Conde de Borba


Aqui há uns bons 30 anos, conheci alguém (R. de S.) cuja carreira profissional administrativa tinha sido feita, exclusivamente, nas Colónias, sobretudo em Angola. Tinha uma alcunha sugestiva mas de que eu desconhecia a origem e a que se devia. Era um homem urbano e afável. Ora, numa festa de aniversário, R. de S. pediu licença para discursar. E, quando ele começou, fez-se-me luz no espírito. A sua voz era empolgada e tonitruante. A alcunha de R. de S. era "O garganta do Império", e assentava-lhe que nem uma luva.
Lembrei-me do episódio, porque ontem li uma pequena história contada por Garcia de Resende, sobre o Conde de Borba, D. Vasco Coutinho, um próximo do rei D. João II. Ao que parece, o Conde quando falava baixo mal se ouvia mas, se falava alto, a sua voz dominava tudo. D. João II ter-lhe-á dito, um dia: "Conde, os vossos baixos são tão baixos que vos não ouve ninguém, e os altos tão altos que se não ouve ninguém convosco!"

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Pequena história (2) : D. Jorge de Lencastre


Passou há poucos dias o aniversário do nascimento (12 de Agosto) de D. Jorge de Lencastre (1481-1550), filho bastardo de D. João II e de Ana de Mendonça. Dizem que era de baixa estatura, culto e de boas maneiras. Conta-se, também, que sendo ainda de pouca idade o pai quis casá-lo com uma filha dos reis de Castela, Fernando e Isabel, com vista a assegurar-lhe um futuro real. Para isso, mandou D. João II, secretamente a Castela, Lourenço da Cunha que foi levado à presença da Raínha Isabel. Exposto o assunto, a raínha, com manifesta cortesia e ironia, respondeu ao fidalgo português que não poderia casar a sua filha com um bastardo, embora real. E acrescentou que, como o seu marido (Fernando) também tinha uma filha natural, talvez pudessem tratar desse outro casamento. Incomodado, Lourenço da Cunha que tinha respostas rápidas, terá dito: "Senhora, El-Rei meu Senhor, não pretende tanto aparentar-se com El-Rei D. Fernando, mas com V. A., por isso se V. A. tiver outra filha bastarda, ele a tomará para seu filho."

terça-feira, 3 de maio de 2011

Coincidências




É, no mínimo, curioso que três das mais marcantes figuras da História Portuguesa sejam todas do mesmo signo astrológico: Touro (21 de Abril a 21 de Maio). O signo do Touro é caracterizado, ao que dizem, por ser prático, paciente, tenaz e com grande força de vontade no que, às qualidades, diz respeito; em relação aos defeitos, apontam-se-lhe: o seu lado possessivo, a avareza, a teimosia e a inflexibilidade das suas ideias, normalmente de índole conservadora. As três figuras históricas, que referi acima, são, por ordem cronológica: D. João II (que nasceu faz hoje, exactamente, 556 anos), o Marquês de Pombal, nascido a 13 de Maio de 1699, e, finalmente, António de Oliveira Salazar que viu a luz no Vimieiro (Sta. Comba Dão) no dia 28 de Abril de 1889. Em épocas muito distintas (sécs. XV, XVII e XIX), três ditadores, figuras marcantes para Portugal (no bom e no mau sentido), três nativos do signo astrológico Touro. Coincidências...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Leituras Antigas XXV : Legendas de Portugal, de Rocha Martins


Estas "Legendas de Portugal", de Rocha Martins, são uma das boas memórias de leitura que fiz, na pouco extensa, mas bem escolhida biblioteca do meu Tio Jorge, poveiro de gema e aquariano exemplar, trabalhador e viajante por necessidade. Li os fascículos entre o final da infância e o início da juventude, com enorme prazer. Estas leituras ajudaram-me a criar um patriotismo saudável, um gosto ameno pela História de Portugal, e uma ética. Nas imagens das capas: D. João II e Carlota Joaquina, mulher do rei D. João VI. D. João II, como legenda, foi associado, por Rocha Martins, à cidade de Setúbal. A rainha Carlota Joaquina, a Vila Real.

sábado, 27 de novembro de 2010

Recomendado : sete - Torre Velha


O livro A Torre de S. Sebastião de Caparica..., de Pedro de Aboim Inglez Cid (Edições Colibri), é o resultado de uma tese da UNL, e foi publicado há, já, três anos (Dezembro de 2007). Devo a sua descoberta a HMJ, que dele me deu notícia, recentemente, por informação colhida no site da Livraria Escriba. Ainda não li muitas páginas, mas deu para me aperceber que está bem escrito e com clareza, que é obra de fôlego e traz novidades, e que valeu a pena tê-lo comprado.
Não sou totalmente isento, porque fala de personagens históricas por quem me interesso: D. João II e Francisco Manuel de Melo. Aborda a hipótese de o arquitecto Diogo de Arruda ter sido o autor do projecto da chamada Torre Velha, com a ajuda e orientação do Príncipe Perfeito. Fala da arquitectura militar portuguesa. Há referências neste livro à correspondência de Francisco Manuel de Melo que lá esteve preso, uma boa parte dos 11 anos em que o privaram da liberdade. Lá escreveu algumas das suas obras, cartas e poesias. Um dos seus sonetos começa por "Casinha desprezível, mal forrada...", referindo-se à sua cela na Torre Velha.
Recomendo o livro a quem goste destes temas, se interesse por D. João II e pelo poeta Melodino. Aconselho a que se dê uma vista de olhos pelas páginas, se vejam as magníficas fotografias, e depois se tome a decisão - de comprar ou não. Ir à Torre Velha, que hoje está muito destruída, será um pouco mais difícil...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A vitória "moral" : PT 1 - Telefónica 0



Não foi Aljubarrota. Foi uma espécie de batalha de Toro em que D. Afonso V fugiu, mas D. João II, ainda príncipe, se manteve, ocupando o campo de batalha no final da refrega - em teoria, era o que fazia o vencedor, nos tempos de antanho. De forma simplificada: o Estado Português usou a "golden share" para inviabilizar a compra da "Vivo" pela "Telefonica", na Assembleia Geral da PT, hoje realizada. Para já, portanto, a "Vivo" brasileira continua a pertencer, em 50%, à PT. Mas, por outro lado, é preciso dizer que 76% dos accionistas eram a favor da venda da "Vivo" à "Telefonica". Os nacionalistas vendem-se barato, hoje em dia. Babam-se por euros...
O tempo é, muitas vezes, a verdade. É ponto assente, hoje, que a batalha de Toro foi ganha pelos castelhanos. Se não fosse a nossa derrota, ontem, no Mundial de Futebol, será que o Estado Português teria usado, hoje, a "golden share"?
Veremos, como diz o cego...

P. S. : para Luís Barata, no seu Prosimetron, que, como eu, gosta de História; e, ao contrário(?) de mim, parece gostar de futebol. Mas também porque usou, há uns dias, a palavra "antanho" de que eu gosto muito.
Nota importante: muita atenção ao comunicado que o BES fará, ainda hoje.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Bibliofilia 20 : Folhetos de Cordel e Entremezes



Não sou grande conhecedor de entremezes nem de folhetos de cordel. Tenho, sim, vários folhetos de poesia do séc. XVIII, e outros de José Daniel Rodrigues da Costa, já do séc. XIX. Os primeiros entremezes parece terem tido origem nos sécs. XIV/XV. Rui de Pina fala deles na sua crónica sobre D. João II. Segundo Luiz Francisco Rebello, a palavra portuguesa entremez provém do francês "entremetz".
Quando me ofereceram, ontem, por um preço módico, estes dois folhetos que se reproduzem, não resisti a comprá-los. Após leitura ligeira, fazem-me lembrar pequenos "libretos" de revista à portuguesa, "avant la lettre". Não têm grande qualidade literária, nem indicam os nomes dos seus autores, mas são divertidos. Têm 16 páginas, cada um. E a tipografia, onde foram impressos, é a mesma (Typ. de Mathias José Marques da Silva, na Rua do Ouro, em Lisboa). Creio que, pelo menos um ("Novo Entremez/ intitulado/ O Gallego Lorpa e os Tolineiros."), terá algum interesse sociológico sobre o período em que foi editado.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Em sequência : Sá de Miranda



A fazer fé nos dados mais credíveis, Francisco de Sá de Miranda terá nascido, em Coimbra, nos finais de Agosto de 1481, o que significa que cresceu e se fez homem durante o reinado de D. Manuel I. Pese, embora, o lado polémico da minha afirmação, faço desde já uma declaração de interesses: considero-o um dos maiores poetas portugueses de sempre, ao lado de Camões e de Pessoa. É, porém, uma "frauta ruda" no seu cantar enviezado, nas suas elipses, nos seus versos nem sempre claros, delicados ou fluentes, mas que apontam para longe e para o fundo de nós mesmos.
Esteve em Itália, provavelmente entre 1521 e 1526 - era ainda familiar afastado dos Collonnas, e de Vittoria Collonna (1490-1547), mulher influente, amiga de Miguel Ângelo -, onde tomou contacto com a "modernidade" da época: o Renascimento. Dessa viagem ficou, pelo menos, a "Cantiga feita nos grandes campos de Roma". Quando regressou a Portugal, estadiou em Buarcos (onde também dizem que terá nascido), pousou, reflectiu e voltou, depois, à vida activa. Era um homem de Leis (formado em Lisboa), e a Justiça sempre foi uma das suas questões próprias. A sua poesia faz-se eco disso. E era um varão desassombrado, o que tinha a dizer, dizia: a amigos, a príncipes ou reis. Nunca se coibiu de dizer "não" o que é, sempre, um indício de maturidade mental, sobretudo num país de brandos costumes que inventou o "nim".
A sua ida para o Minho, próximo de Amares (Quinta da Tapada), está envolta em mistério, pelas causas que a originaram, até porque Sá de Miranda era um homem do Paço. Arrisco, especulativamente, uma hipótese insuficientemente documentada, ou por provar: o clima criado pela Inquisição. Há versos sibilinos ("...Não vejo o rosto a ninguém;/ cuidais que são ou não são...") vários pelas suas "Poesias" que denunciam uma perseguição ("...mente cad'hora espia;..."). O reinado de D. João III, com a criação da Inquisição, foi muito diferente do período manuelino anterior. Percebe-se que, com D. João III, houve menos liberdade, havia receios, tudo foi mais domesticamente cristão, mais pequenino e mais conforme...
Sá de Miranda casou tarde. Esse facto deve, também, ter-lhe dado uma visão mais ampla da vida. A morte de um dos dois filhos que teve, em combate, próximo de Ceuta, e o falecimento de sua mulher afectaram-no profundamente. Fragilizado ("...porque se conta dele que, estando sem gente de cumprimento [ e ainda com ela ], se suspendia algumas vezes, e de ordinário derramava lágrimas sem o sentir;..."), vem a morrer em 1558, em data desconhecida, mas posterior a 16 de Maio. De Sá de Miranda, na lição de Pina Martins, escolhi por gosto o seguinte soneto:

Alma que fica por fazer desd'hoje
Na vida mais? se a vã minha esperança
Que sempre sigo, que me sempre foge?
Já quanto a vista alcança a não alcança.

Fortuna que fará? Roube, despoje,
Prometa doutra parte, em abastança:
Que tem com que m'alegre, ou que me anoje?
Tanto tempo há que dei mão à balança!

Chorei dias e noites, chorei anos,
E fui ouvido ao longe, pelo escuro
Gritando, acrescentar muito em meus danos.

Agora que farei? Por Amor juro
De tornar a cantar fora d'engano
E por muito do mal, posto em seguro.
P.S. : para Luís Barata, com estima.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Privilégios dos Cidadãos do Porto



Em 1 de Junho de 1490, encontrando-se D. João II em Évora, em carta régia, concedeu aos cidadãos do Porto alguns privilégios que viriam a ser confirmados por Filipe I, em Novembro de 1596. Recordemos alguns deste privilégios:
1.- Não serem presos nem metidos a tormento senão nas mesmas condições em que os fidalgos o podiam ser.
2.- Poderem trazer por todo o reino e senhorios régios quais quer armas, quer de noite quer de dia.
3.- Desfrutarem dos mesmos privilégios que gozava Lisboa ressalvando a proibição de andarem em bestas muares.
5.- Não serem obrigados a hospedar gratuitamente poderosos, nem tomadas as suas casas, adegas, cavalariças, bestas de sela e albarda ou qualquer outra coisa contra sua vontade.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Memória 22 : D. João II



D. João II nasceu a 3 de Maio de 1455 e veio a falecer " sem pai, nem mãe, sem filho, nem filha, sem irmão, nem irmã, e ainda com muito poucos, fora de Portugal, no Reino do Algarve em Alvor muito pequeno lugar", em 1495, como escreveu Garcia de Resende na sua Crónica.
Rui de Pina compõe-lhe assim o retrato: "Foi El-Rei D. João II homem de corpo, mais grande, que pequeno, mui bem feito, e em todos os seus membros mui proporcionado; teve o rosto mais comprido, que redondo, e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos, e corredios; e porém em idade de trinta e sete anos, na cabeça, e na barba era já mui caão, de que mostrava receber grande contentamento, pela muita autoridade que a sua Dignidade Real suas caãs acrescentavam: e os olhos de perfeita vista, e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e magoas de sangue, com que nas cousas de sanha, quando era dela tocado, lhe faziam o aspeito mui temeroso. E porém nas cousas d'honra, prazer, e gasalhado, mui alegre, e de mui Real, e excelente graça: o nariz teve um pouco comprido, e derribado algum tanto sem fealdade. Era todo mui alvo, salvo no rosto que era corado em boa maneira. E até à idade de trinta anos foi muito enxuto de carnes, e depois foi nelas mais revolto. Foi Príncipe de maravilhoso engenho, e subida agudeza, e mui místico para todas as coisas; e a confiança grande que disso tinha, muitas vezes lhe fazia confiar mais de seu saber..."