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quinta-feira, 20 de junho de 2024

Retratos (33)

 


É de Duarte Nunes de Leão (1530-1608), na sua Crónica alusiva, que traça assim o retrato de D. João I (1357-1433):

"Foi El-Rei D. João homem de rosto formoso, e grande corpo, e mui bem proporcionado, e de grandes forças, segundo se vê por algumas peças de armas, que estão no armazém do  Reyno, em que há um elmo de grandeza não vulgar, e uma facha de armas, com que soía pelejar, que se não pode manejar sem grande força. Do ânimo foi mui esforçado, e verdadeiramente magnânimo; nos contentamentos, ainda que fossem grandes, nunca lhe enxergavam no rosto alegria, nem nos casos adversos tristeza, mas tinha sempre uma perpétua serenidade, que dava testemunho de seu grande ânimo, e constância. Era mui clemente, e piedoso, no que também mostrava sua magnanimidade. Pelo que a muitos, que o ofenderam, e que conspiraram contra ele para o matar, lhes perdoou, e restituiu a sua graça; e lhes fez sobre isso honras, e mercês. Dos serviços que recebia era tão agradecido, que a muitos deu mais do que esperavam, sem aguardar que lho pedissem. (...) Finalmente por ele ser tão justo, e magnânimo Rei, e tão excelente Capitão, e haver nele juntas todas as virtudes, que nos seus passados eram derramadas, lhe deram a honorífica alcunha de Rei de boa memória."

domingo, 24 de novembro de 2019

Ainda uma questão de saios


Entre os kilt abastardados nos corredores do Parlamento português, vindos de Oxford (como?), ou as saias dos evzones gregos, admitindo porém as tradicionais sotainas que à religião pertencem, sempre prefiro os saiotes dos trauliteiros lusos de Miranda. Mesmo que sejam celtas de origem. Para não falar do loudel ou pelote, que já D. João I usou em Aljubarrota e se guarda esfiapado e multicentenário no vimaranense Museu Alberto Sampaio.


domingo, 23 de setembro de 2018

Divagações 134


Esta linha semi-circular de luzes ribeirinhas, por cima dos telhados defronte, traz-me sempre uma paz muito singular e pessoal, à noite. Depois, há esse triângulo agudo, cavado, por entre os prédios altos  que permite ao meu olhar ver o Tejo e, mais ao longe, a silhueta semi-iluminada do castelo de Palmela. Fernão Lopes acaba por ser convocado à memória. E as almenaras que D. Nuno, em finais do séc. XIV, fez acender da Outra-banda, para dar ânimo ao Mestre, cercado em Lisboa, pelos castelhanos.
Mas, hoje, há Lua Cheia, o rio é um espelho reflectido de luar. E o Verão, preguiçoso em despedir-se, parece augurar, em temperaturas, um S. Martinho à maneira... Ora, tudo isto recusa, liminarmente, essa melancolia dourada de que o Outono gosta, quase sempre, de se acompanhar. E que também nos inunda, quer queiramos ou não, tantas vezes. Ganha-se assim, benevolamente, um compasso de espera, bem-vindo e inesperado. Assim seja!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Pragmatismo, ou as artes do Poder


Do conselho que foi dado ao Mestre de Aviz, em 1384, por Álvaro Pais, para que o futuro rei D. João I pudesse conquistar mais adeptos, para a sua causa:
"Senhor, fazei por esta guisa: dai aquilo que vosso não é, e prometei o que não tendes, e perdoai a quem vos não errou, e ser-vos-á em grande ajuda para tal negócio no qual sois posto."

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Em louvor de Almeirim


Etimologicamente, o nome da cidade terá tido origem árabe. De 3.181 habitantes, em 1874, tem hoje um pouco mais de duas dezenas de milhar. Terá pouca importância, actualmente, mas D. João I, cujo aniversário do nascimento passa hoje (11 de Abril de 1357), deu visibilidade a Almeirim ao construir, lá, o Paço Real - ao que dizem. Região de vastos vinhedos, abastecia Lisboa do precioso néctar de tintos carregados. Por lá estadiaram D. Manuel I e o filho, D. João III. Lá imprimiu (?) Hermão de Campos o Cancioneiro Geral, em 1516, que Garcia de Resende coligiu. De lá se originou, em boa hora, a conhecida Sopa de Pedra. O Paço de D. João I terá ruído na altura do terramoto de 1755. Mas lá tinham sido estreados alguns autos de Gil Vicente. E, na carta a Pero de Carvalho, pelos seus bons ares e produtos agrícolas, também Sá de Miranda a louvou:

Isto que ora ouvis de mim
não sei se ouvireis d'alguem;
buscai, preguntai sem fim
no desejado Almeirim,
no farto de Santarém.

domingo, 25 de março de 2012

Curiosidades 51 : as medidas do Tempo


Mudou a hora, cresce a luz sobre o dia. Se não estou em erro, esta medida foi tomada, inicialmente, durante a II Grande Guerra, para poupar energia, fazendo coincidir o mais possível, assim, o horário de trabalho e o período de actividade humana com a luz solar.
A contagem do tempo, em Portugal, passou a ter como referência o ano de nascimento de Cristo, apenas a partir de 15 de Agosto de 1422, por uma decisão legislativa do rei D. João I.
Os romanos dividiam os meses em calendas, nonas e idos. Os dias iniciais de cada mês eram os primeiros das calendas. O sétimo dia, era o primeiro das nonas e o décimo quinto era o primeiro dos "idos", nos meses de Março, Maio, Julho e Outubro.
Entretanto, as coisas foram-se simplificando, gradualmente, e estas medidas deixaram de ser usadas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Um Museu e 2 obras

Neste Dia Internacional dos Museus, gostaria de lembrar o Museu Alberto Sampaio, de Guimarães, pela singularidade do seu acervo histórico, e cuja frontaria se mostra. O museu prolonga-se, no interior, pelo claustro da antiga Colegiada que bem merece ser apreciado.
Mas também duas peças que lá se encontram, ambas relacionadas com D. João I e a batalha de Aljubarrota. A primeira é o laudel (ou pelote), peça interior de vestuário, usado pelo Rei na Batalha, e que foi objecto de um cuidadoso restauro efectuado em finais dos anos 50 e de que há um detalhado estudo ("O Loudel do Rei D. João I", Lisboa, 1981 - 2ªed.) .
A segunda peça museológica é o tríptico, dito de Aljubarrota, em prata policromada, despojo da Batalha, e que era uma espécie de "altar de campanha" do rei D. João de Castela. Ambas as obras foram oferecidas por D. João I, de Portugal, a Nª. Senhora da Oliveira, por quem o Rei tinha grande devoção e em acção de graças pela vitória alcançada sobre os castelhanos.
Aproveito para lembrar que Guimarães será cidade Capital Europeia de Cultura, em 2012.



quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Livro da Montaria, de D. João I, a propósito



Entre um computador moribundo (?), lentíssimo a responder nas ligações, com a provecta idade de 9 anos (pelos vistos, atingem a velhice mais cedo do que os frigoríficos) e a sua decisão de abrir, folheio, na mesa, para entreter o tempo, mas com imenso agrado, o Livro da Montaria de D. João I (impresso para a Academia de Ciências, em Coimbra, no ano de 1918), que HMJ comprou muito recentemente.
É, segundo indicação de Francisco Esteves Pereira, conforme com o manuscrito nº4352 da BNP. Não resisto, no entanto, a transcrever da Introdução os desabafos do copista do séc. XVI, anónimo, que trasladou o texto, de outro manuscrito mais antigo. E que rezam assim:
"Copiado fielmente com todas as variações orthographicas que vinham no manuscrito, com todas as phrases não acabadas e periodos inintelligiveis, sem que lhe mudasse cousa alguma: até os borrões lhe copiaria se não temesse que m'os atribuissem, e não ao manuscrito. Só lhe acrescentei alguns acentos para que ficasse menos inintelligivel. Estou certo que me imputarão muitos erros que não são meus. Ora é pena que eu não esteja lá com o manuscrito nas mãos para lhe mostrar o contrario, e lhes roçar os narizes com elle. Que bastante tive em atentar em palavra por palavra, mas até lettra por lettra. F. A. C. (?)".

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Jacarandás, estorninhos e a O. C. D. E.


Timidamente, os jacarandás refloriram e os estorninhos regressaram à boa visibilidade lisboeta. Na Av. 24 de Julho, com atenção, já se podem descobrir no seu renascimento de memória biológica (vide Arpose, 15/6/2010, Dário Castro Alves) e genética brasileira, os cachos azúis e lilazes floridos, esparsos ainda, por entre a folhagem.
Vi também 4 ou 5 estorninhos, discretos, vindos de uma frondosa "ficus ficus", quase no Chiado, atravessar para o jardim da casa, que foi de nascimento, do Conde de Farrobo. Não eram ainda aquelas nuvens densas que se cruzam e recruzam, sobre o Tejo, ao fim do dia, entre Outubro e Novembro. Mas deu para perceber, além da temperatura, que Lisboa entrara no Outono.
Depois, no Telejornal, veio um senhor mexicano (de "paupérrimas feições"[ Guimarães Rosa]) da O. C. D. E., mas sem "sombrero", falar aos portugueses do "Inverno" que se aproxima rigoroso e inevitável, e como contrariá-lo: mais IVA, mais IMI, mais IMT... Raio de globalização, onde até os mexicanos nos vem dar receitas para viver!...
Olho para o semi-círculo de luzes que, no escuro e ao longe, demarcam o Tejo e a terra firme ribeirinha. O luar e o céu limpo deixam ver Palmela das almenaras do Condestável , para dar coragem a D. João I, cercado em Lisboa pelos espanhóis, e digo para mim mesmo: ao menos, deem-nos uma estação de cada vez! Senão, morremos todos embuchados.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Isabel de Portugal e Borgonha


Saído recentemente (Junho de 2010) dos prelos da Editorial Presença, o livro "Isabel de Portugal - Duquesa de Borgonha", de Daniel Lacerda, não perseguindo altas ambições, é uma biografia com ampla informação e bibliografia, simpática de ler, sobre a filha do nosso rei D. João I e Filipa de Lencastre, e que foi esposa de Filipe, o Bom, Duque de Borgonha.
Daniel Lacerda conta-nos o gosto que Isabel de Portugal (1397-1474) tinha por aves e a prenda pré-nupcial, que Filipe III lhe fez, de dois cisnes; também se fica a saber a origem da ordem do Tosão de Ouro, criada em 1429, para celebrar o casamento ducal, onde também se bebeu o "doce moscatel trazido de Portugal".
Não sendo muito habitual, no Arpose, falar-se de livros recentes abre-se uma excepção a este volume histórico-biográfico de leitura muito agradável.