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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Retro (46)


Duplamente desenquadrados, no tempo, estes mata-borrões cinquentenários (1958) lembram paisagens desaparecidas de um Império que teve o seu fim no 25 de Abril de 1974.
E a sua função de absorver os excessos de tinta, na escrita, já quase deixou de ter utilidade. O calendário de Abril de 1958, no entanto, revela-nos uma curiosidade: como hoje, o dia 25 foi uma sexta-feira.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Filatelia LVIII : sucessões, compras e melancolia


Uma colecção que seja avançada, ou feita de muitos anos, encerra em si, quase sempre, outras colecções que, por algum motivo, foram interrompidas. Até ser, ela própria, também absorvida, no todo ou em parte, por ainda outra, com menos anos e mais recente - provavelmente. As sucessões de absorção sucedem-se assim no tempo, interminavelmente. Porque nada é nosso, em definitivo - apenas passa por nós.
A minha colecção de selos encerra (ou é o cemitério de - como eu gosto de dizer) duas pequenas colecções de pessoas que a morte interrompeu na juventude, e que familiares amigos acharam, por bem, confiar-me. Um deles, de apelido Silva, morreu em combate, na Guiné, e a sua colecção enriqueceu o meu acervo, sobretudo, com selos alemães do período clássico. A outra colecção pertencia a alguém de apelido Fernandes, que morreu, em plena juventude, num estúpido acidente de viação entre a Póvoa de Varzim e Guimarães, numa noite de intenso nevoeiro. Do acervo herdado reforcei, grandemente, a minha colecção de selos de Moçambique.
Não oferecidas, nem dadas, há também 3 ou 4 colecções de selos que comprei, ao longo da vida. Completas, em si, foram "retalhadas" (gíria filatélica) e muitos exemplares, portugueses e estrangeiros, vieram ocupar alguns lugares vazios dos meus álbuns e classificadores, engrossando a maioria dos selos nos envelopes de repetidos. Há cerca de duas semanas, voltei a comprar uma colecção, composta por um álbum mundial bastante antigo (em imagem), que vai só até 1889 no lugar para os selos, outro álbum de Portugal e Colónias que termina nos anos 70 do século passado, e ainda muitos selos em envelopes de celofane transparentes.
A monda, a pente fino, já começou. Vê-los um a um, deitar fora os estragados, classificar os antigos por denteado, papel e cores. Minuciosamente, tentar descobrir eventuais erros, anotar, arrumar... É um entretém imenso, que me vai ocupar durante meses. Com gosto.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Para um Avô que faz anos


25-26 de Julho de 2010
Caríssimo:
Não vou falar de Óscar Lopes e de Mário de Sacramento. Muito menos de Thomas Mann, até porque tu sabes aquilo que evoco ou refiro - uma fraterna Amizade. Que, com o tempo e até com a distância geográfica, cresceu, ganhou raízes fundas, palavras certas e nuas (quando é preciso), entendimentos recíprocos - de voz, de expressão de rosto. Vamos-lhe pôr uma data de princípio: 1960, creio eu. Tu dirás, decerto, 1959, mas julgo que estás enganado. Seja como for, estava para começar a guerra portuguesa, em África. Éramos ainda umas crianças, mas fomos obrigados a crescer muito depressa, com a perspectiva da morte. Porque amávamos a vida com tudo aquilo que ela tem de aventura e milagre. E, hoje, ainda a amamos. Mas porque vivemos a guerra e aspiramos o cheiro da morte, escolhi uma tua fotografia da Guiné, visitando uma tabanca, depois de ser atacada. Mas há sempre ressacas. Ou vestígios. Relembro o teu poema de que mais gosto:
Altas paredes brancas me contornam
E eu invento longas madrugadas
Doiro colinas calmas espaçadas
e a dor de te matar cobre-as de neve

Quanto mais há para dizer, menos sabemos dizê-lo. O essencial, felizmente, conhecemo-lo. Hoje, vai música, também: um pequeno excerto do concerto para violino, de Sibelius. Como estás nas tuas sete quintas, com as netas à volta, não será preciso reforçar este abraço de parabéns que te envio. O de sempre,
A.

sábado, 24 de abril de 2010

Abril, Mafra, 1968



Hoje, quando se fala do Convento de Mafra há, habitualmente, dois nomes que surgem por associação: D. João V e José Saramago. Mas há quarenta anos, para muita gente, a imagem do Convento ligava-se à Guerra e à Morte. A uma escola de aprendizagem a matar, e a "lavagens ao cérebro" minuciosamente estudadas e aplicadas. Os corredores do Convento de Mafra eram longos e frios, e as camaratas, ruidosamente ocupadas, não permitiam "outra intimidade, senão fechar os olhos".

Ao fim de três meses de recruta, os "infantes" eram chamados à parada, e alinhava-se o pelotão. Eram nomeados pelos números que acabavam em sessentas (64, 65...), do ano da inspecção. Chamavam os números e era uma espécie de roleta (russa). E, a seguir, diziam o destino: Transmissões, Comandos... Depois, mandavam destroçar e regressar às camaratas. O regresso até aos andares de cima, fazia-se em silêncio, mas ao chegar aos dormitórios, os sentimentos rompiam. Os gritos de alegria de quem ia para especialidades da burocracia militar, e o choro, pelos cantos, dos futuros "caçadores especiais"; e, pior do que isto, ainda era o "afunilamento" da Guiné (Corredor de Guilege, Madina do Boé...) onde, diariamente, morriam 2 ou 3 jovens de vinte e poucos anos. Era assim há quarenta anos para uma boa parte da juventude portuguesa.