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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Há manhãs...


Há manhãs em que penso que, até ao fim do dia, o vou encontrar - o Poema. Talvez como aquele de que falava Guilherme de Aquitânia (1071-1127) e que se propôs fazer: "Farei um poema do puro nada. ..." Mas é possível que eu nunca o encontre, na minha vida. Há, felizmente e no entanto, aproximações dessa poesia pura de que falava Guilherme.
Hoje, contento-me com estes versos de João Miguel Fernandes Jorge (1943), que encontrei em Lagoeiros (2011), sob o título Faltam-nos os anjos de outrora:

Esperava-o para o jantar. A cadeira de verga sob
o queixume do corpo
como se o vime tomasse a dor inteira e
a levasse na cor da palha queimada do verão antigo.
Faltam-nos os anjos de outrora
que rasgavam o azul com uma flor de liz
e nos davam a imagem das folhas
a passagem da água.

domingo, 8 de agosto de 2010

Salão de Recusados XXI : o soneto, em questão



1. Um soneto me manda hacer Violante


Um soneto, que eu faça quer Violante:
nunca me vi na vida em tal espeto.
Catorze versos dizem que é o soneto:
brinca brincando vão já três adiante.

Pensava não achar mais consoante
e na metade estou de outro quarteto;
mas se me vejo dentro de um terceto
não há nestes quartetos que me espante.

No primeiro terceto vou entrando,
e parece que entrei com o pé direito,
pois fim com este verso lhe vou dando.

E já estou no segundo, e até suspeito
que vou uns treze versos acabando.
Contai se são catorze, e eis que está feito.

Lope de Vega (1562-1635), traduzido por Jorge de Sena.


2. Quatorze versos


O primeiro é assim: fica de parte.
No segundo já posso prometer
que no terceiro vai haver mais arte.
Mas afinal não houve... Que fazer?

Melhor será calar, pois que dizer
nem do sexto conseguirei destarte.
Os acentos errados é favor não ver;
nem os versos errados, que também sei hacer...

Ó nono verso porque vais embora
sem que eu te sublime neste décimo?
Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.

Errei-o. Mas que importa se a poesia,
mesmo que o não errasse, já não vinha?
É este o último e, como os outros, péssimo...

Alexandre O'Neill (1924-1986).


Nota: Já Guilherme de Aquitânia (1071-1127), poeta, dizia: "Farei um poema do puro nada..." (vide Arpose, Poesia provençal, 14/1/2010). O soneto, como supremo desafio, merece ser desafiado... Ou, como diz o meu amigo poeta, António de Almeida Mattos (1944): "...um rápido pavor em desmanchar / a regra..."

P. S.: para MR, pelo O'Neill, e não só.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Poesia Provençal



Guilherme de Aquitânia (1071-1127), nono duque de Aquitânia e sétimo conde de Poitiers, foi poeta e guerreiro. É considerado um dos grandes nomes da poesia provençal. Há um poema, de sua autoria, que irei traduzir, parcialmente, abaixo, muito ambicioso na intenção. Guilherme de Aquitânia queria fazê-lo do nada; ou seja, que ele fosse pura poesia: início, meio e fim. Não sei se o conseguiu, mas tentou...


Farei um poema do puro nada.
Não falarei de mim nem de outra gente.
Não celebrará o amor nem juventude
nem coisa alguma,
só que o poema foi composto
dormindo sobre um cavalo.


Não sei a que horas nasci,
não estou alegre nem triste,
não sou estranho ou sociável,
e não posso fazer outra coisa,
que para isto fui de noite fadado
no alto de uma montanha..."