Não sei já quem disse que analisar e explicar um poema é a melhor maneira de o destruir. De alguma forma, o estudo escolar de "Os Lusíadas" fez abortar, pelo menos parcialmente, a possibilidade de fruição inteira do nosso poema maior. Por outro lado, neste nosso tempo, raríssimos serão aqueles que terão oportunidade, paciência e o prazer de virem a ler, com proveito e gosto, as estâncias camoneanas descrevendo, genialmente e por exemplo, o fogo de Santelmo, ou, com imenso humor, o episódio (pícaro) de Veloso. Alguma coisa se vai perdendo para sempre, dos antigos cânones...
Quando releio As Aves (1969), de Gastão Cruz (1941), lembro-me sempre de Sá de Miranda e de Mafra. E dos 6 meses, que por lá passámos, com diferença de 3 meses, na recruta e especialidade. É uma realidade prosaica mas, na altura, com a guerra colonial, essa realidade era também dramática. Tudo isto pode ajudar na leitura deste pequeno (grande) livro de poemas. Sobretudo para quem viveu esses outros tempos e os sentiu na pele.