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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Da explicação em poesia


Não sei já quem disse que analisar e explicar um poema é a melhor maneira de o destruir. De alguma forma, o estudo escolar de "Os Lusíadas" fez abortar, pelo menos parcialmente, a possibilidade de fruição inteira do nosso poema maior. Por outro lado, neste nosso tempo, raríssimos serão aqueles que terão oportunidade, paciência e o prazer de virem a ler, com proveito e gosto, as estâncias camoneanas descrevendo, genialmente e por exemplo, o fogo de Santelmo, ou, com imenso humor, o episódio  (pícaro) de Veloso. Alguma coisa se vai perdendo para sempre, dos antigos cânones...
Quando releio As Aves (1969), de Gastão Cruz (1941), lembro-me sempre de Sá de Miranda e de Mafra. E dos 6 meses, que por lá passámos, com diferença de 3 meses, na recruta e especialidade. É uma realidade prosaica mas, na altura, com a guerra colonial, essa realidade era também dramática. Tudo isto pode ajudar na leitura deste pequeno (grande) livro de poemas. Sobretudo para quem viveu esses outros tempos e os sentiu na pele.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Gerações


Não posso inteiramente queixar-me. Havia pouca liberdade, é certo, quando eu era jovem; havia a perspectiva da guerra colonial e da morte, também. Mas havia algum bem-estar, mínimo. E, depois do 25 de Abril, abriu-se o futuro e a liberdade. Recentemente, no entanto, tudo começou a andar para trás, e grande parte dos jovens, entre os 20 e os 30 anos, já não terão grandes expectativas de felicidade, em Portugal.
Há dias, numa esplanada coberta, das Avenidas Novas, numa mesa contígua à minha, e muito próxima, vieram sentar-se dois jovens angolanos, ia eu a meio do meu Coelho à Caçador, acompanhado por um modesto tinto alentejano. Um dos angolanos que, pelo ovalado do corpo, poderia ser sobrinho do falecido Savimbi, pediu Bifinhos de Cebolada. O outro, que poderia ser primo da Isabelinha dos Santos, nóvel empreendedora de sucesso, optou por Moelas com batata frita e arroz. Ambos beberam sumos adocicados de lata.
Os jovens africanos falaram, maioritariamente, de miúdas e de pequenos negócios. Pareciam felizes e eu lembrei-me de Eduardo Mondlane e Amílcar Cabral, que morreram assassinados. Recordei-me de Samora Machel... Como as coisas mudaram! O clã dos Santos, de Angola, é dono de um império. Já não andam pela guerra, nem precisam de contar os Quanzas, para comprar posições maioritárias em empresas portuguesas de referência. Só vestem roupas de marca e os seus antigos camuflados só servirão para alacres mascaradas de Carnaval.
É a vingança do chinês..., o colonialismo (económico) ao contrário, a evolução das gerações. Hoje, é notícia que um grupo angolano terá comprado uma participação importante da empresa do "Diário de Notícias". Mira Amaral, flectido ligeiramente, deve com frequência encher de perdigotos, ao beijá-la, a mão delicada e elegante de Isabel dos Santos. Os nossos jovens desempregados devem andar à procura de camuflados, em segunda mão, para voltar a África. Mas não é pela reconquista... Agostinho Neto, na tumba, deve rir-se às gargalhadas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Lembrete, a tempo


É, provavelmente, o melhor trabalho que se fez sobre o tempo e a Guerra Colonial. De Joaquim Furtado, passa, hoje, às 22h40, na RTP 1, o primeiro episódio da última série. 
Às vezes, há serviço público...