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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Um poeta à margem


Já aqui falei dele algumas vezes. Até porque os poetas nem sempre são seres angelicais...
Nascido na Baía (Brasil) em 1633, Gregório de Matos veio a falecer em Pernambuco, no ano de 1696. Andou por Coimbra, onde se formou em Leis e começou a poetar de forma desbragada. Regressou ao Brasil, montando banca de advogado, mas não foi muito bem sucedido no negócio de causídico. Temiam-lhe talvez a língua viperina e daí o alcunharem de Boca do Inferno.
Por razões ignoradas foi deportado para Angola, por onde (Luanda) andava "boémio, quase louco, sujo, mal vestido... de viola ao lado, tocando lundus e descantando poesias obscenas...", segundo um contemporâneo, que o conhecia.
O folheto, que dá corpo às imagens, tornou-se raro, embora tenha tido uma tiragem de 1.000 exemplares, em Novembro de 1982. É o número 15 da colecção & etc / contramargem e tem uma nota introdutória de Aníbal Fernandes.
Na altura, o livrinho (32 páginas) custou-me Esc. 100$00.


quarta-feira, 3 de julho de 2019

De um manuscrito dos reservados da BGUC


Dos vários cartapácios, que consultei, há dias, na secção dos Reservados da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, encontrava-se uma miscelânea manuscrita, muito provavelmente do século XVIII. Constituída sobretudo por poesias, algumas atribuídas, outras não. De Gregório de Matos, alcunhado de Boca do Inferno pela sua língua desbragada, de António Lobo de Carvalho, poeta vimaranense, que migrou para Lisboa e pela sua morada lhe chamavam o Lobo da Madragoa. Bem como alguns poemas de um tal Francisco Pereira de Viveiros de quem, até agora, nada consegui saber. É dele a poesia cujo início reproduzo em imagem, em que ele fala de uma Maricas, porventura incontinente e pouco discreta nas suas manifestações...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Em tempo, e glosa poética por contraste (algo críptica...)


Há nomes e apelidos que são um destino. Fatal.
Por excesso, Drummond de Andrade nomeou-o em verso:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: vai, Carlos, ser gauche na vida.
...
É evidente que seria, no mínimo, imprudente e absurdo confundir uma cloaca com um poeta. Muito embora Gregório de Matos fosse um candidato possível à miscigenação libertina dos dois conceitos. Drummond, de maneira nenhuma.
Mas há estações televisivas portuguesas que, embora católicas de nascença, servem actualmente de monturo a dejectos poluentes e a figuras sinistras, ajudadas por pindéricos servidores bem adornados.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Bibliofilia 51 : Tomás Pinto Brandão


O livro, cujo frontispício se mostra em imagem, não é meu: confiou-mo um Amigo, a quem o pedi emprestado, para ler. Mas não desdenhava possuí-lo pois, em tempos e leilões passados, cheguei a licitar outros exemplares desta obra, muito embora não lograsse adquiri-la - até porque não é muito frequente aparecer à venda.
O seu autor, Tomás Pinto Brandão nasceu no Porto, em 1664. É um poeta de cariz essencialmente barroco e as composições (46 sonetos, oitavas, romances...), deste "Pinto Renascido...", caberiam bem e por mérito próprio na "Fenix Renascida" ou no "Postilhão de Apolo". A frescura e jovialidade de alguns poemas ultrapassam, porém, a circunstancialidade cultista da época. Esta segunda (?) edição de 1733 (não referida por Inocêncio que data a primeira de 1732) teve uma terceira (?) edição, em 1753.
Tomás Pinto Brandão foi grande amigo de Gregório de Matos, e teve, além de palavra fácil e atrevida, uma vida turbulenta. Esteve preso várias vezes, uma delas por acção judicial da sua sogra, e de que há um reflexo, em poema: "...A doce liberdade se malogra,/ De todo o paraízo se desterra,/ E de viver, em fim, os termos erra:/ Porque em vida se enterra, se se ensogra:...". O Poeta, que andou por Angola e pelo Brasil, era porém realista e objectivo, como se pode ver por este "Epitáfio" que compôs:

Aqui jaz quem nos intima,
Que a morte é pequeno mal,
por muito que a vida opprima;
Pois o Sabio em Portugal,
Só quando falta, se estima.

Tomás Pinto Brandão morreu em Lisboa, em Outubro de 1743. Este seu livro, em presença, encontra-se em razoável estado de conservação, embora com alguns sinais de traça que quase atingem o texto. Foi comprado em Lisboa, a 18 de Junho de 1993, por Esc. 6.200$00 (cca. 31,00 euros). O que me parece ter sido um preço justo.

Com agradecimentos ao Emprestador e Amigo. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Salão de Recusados XXVIII : Boca do Inferno


Há vários poetas que o Brasil divide connosco, porque viveram antes da Independência (1822). Entre muitos, Gregório de Matos (1636-1695), filho de pai português (natural de Guimarães). Tinha língua temida e ferina, e poetava com jeito barroco. Por atacar, em muitos dos seus poemas, a Igreja, deram-lhe a alcunha de Boca do Inferno. Mas também criticava a Metrópole: "Que os brazileiros são bestas / E estarão a trabalhar / Toda a vida, por manterem / Maganos em Portugal,...". É dele o soneto (brando) que se segue:

Descrição da cidade de Sergipe d'El-Rei

Três dúzias de casebres remendados,
Seis becos de mentrastos entupidos,
Quinze soldados rotos e despidos,
Doze porcos na praça bem criados.

Dois conventos, seis frades, três letrados,
Um juiz com bigodes sem ouvidos,
Três presos de piolhos carcomidos,
Por comer dois meirinhos esfaimados.

Damas com sapatos de baeta,
Palmilha de tamanca como frade,
Saia de chita, cinta de racheta.

O feijão, que só faz ventosidade,
Farinha de pipoca, pão que greta,
De Sergipe d'El-Rei esta é a cidade.