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segunda-feira, 27 de maio de 2024

5 greguerías de Ramón Gómez de la Serna, traduzidas

 


1. No mais alto da noite é que se compreende que os faróis vivem para si mesmos.

2. É surpreendente como a febre se mete por entre as linhas do termómetro.

3. Os surdos vêem a dobrar.

4. Os orgulhosos dizem "coluna vertebral", e os modestos "espinha dorsal".

5. Ao parar, o combóio produz um silêncio traumático.


Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), in Greguerías (Salamanca, Ediciones Anaya, 1963).


sábado, 8 de julho de 2023

Mais 4 "greguerías" zoológicas de J. G. R.

 

1. O porco-espinho: espalitou-se.
2. As focas beijam-se inundadamente.
3. A zebra se coça contra uma árvore, tão de leve, que nem uma listra se apaga.
4. Seu leque gagueja: o pavão arremia, às vezes, como o gato no amor.

João Guimarães Rosa (1908-1967), in Ave, Palavra (pgs. 67/70).

domingo, 18 de junho de 2023

2 fragmentos de Guimarães Rosa



Estes dois fragmentos de Guimarães Rosa (1908-1967), que vou referir, fazem-me lembrar as greguerías de Gómez de la Serna (1888-1963). No fundo, eu diria que seriam conclusões de pensar o mundo e o real à luz da sensibilidade, com alguma dose de ingenuidade pueril e humor, prevalecentes.
As citações foram retiradas do livro Ave, Palavra (1985), que comprei recentemente à Livraria Lumiére.
Aqui vão os fragmentos:

"A coruja não agoura: o que ela faz é saber os segredos da noite.
...
Os corvos, tantamente cabeçudos, xingam o crasso amanhã com arregritos." (pgs. 194/5)

quinta-feira, 30 de março de 2023

3 Greguerías de Ramón Gómez de la Serna



Estas três greguerías não serão talvez das mais características de Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), mas aqui ficam numa versão portuguesa, que fiz, com alguma liberdade.

- No ovo existe um frango intacto, no interior do qual está a própria alma do pinto. Somente aqueles que sorvem os ovos através dum pequeno furo de alfinete conseguem aspirar esse arzinho espiritual.

- Essas grandes gotas pesadas, terríveis que às vezes caem nos nossos guarda-chuvas, são outra coisa que nos lançou a Providência, tal como esses rapazes que assomam às varandas, cospem sobre o transeunte, fugindo em seguida.

- São tristes as verrugas de carne, são lágrimas da carne... A carne sensível das mulheres finas, brancas e delicadas chora de vez em quando essas lágrimas escondidas.


Ramón Gómez de la Serna, in Greguerías 1920-1927.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Divagações 84


Economista afável e simpático, frontal e realista, acabo de saber que José da Silva Lopes (1932-2015) morreu hoje, no mesmo dia em que Manoel de Oliveira desapareceu do ecrã da vida. Homens de princípios, representantes de uma ética que já não existe e já ninguém recomenda...
O dia parece-me estranho, na sua circunstância de obituário carregado. Ao alto, no céu desta noite morna de Abril, até a Lua cheia parece envolvida num halo verde insólito e inexplicável, que se projecta sobre o rio. E lembro-me de uma greguería de Ramón Gómez de la Serna, a propósito:

A lua é um banco arruinado de metáforas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

5 greguerías (finais) ramonianas


1. O filósofo antigo sacava a filosofia ordenhando a barba.
2. Nas tâmaras, a Natureza dá-nos a sua mão pegajosa e sem luvas.
3. As focas levam sempre os sapatos bem engraixados.
4. Os pretos usam luvas nas solas dos pés.
5. O mal de La Bruyère é que tem nome de queijo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ramoniana breve


1. Há suspiros que fazem comunicar a vida com a morte.

2. Os eucaliptos têm sempre a camisa esgargalada.

3. O panegírico parece alimentício, mas não é.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

2 greguerías alfabéticas


1. O B é a ama de leite do alfabeto.
2. O i é o dedo mendinho do alfabeto.

Ramón Gómez de la Serna (1888-1963).

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

2 greguerías musicais


1. Quando o violoncelista se prepara para tocar parece que vai fazer cócegas ao mundo pelo Equador.
2. Os anjos da guarda dos músicos deviam passar-lhes as folhas da partitura.

Ramón Gómez de la Serna (1888-1963).

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Das primeiras greguerías de D. Ramón


Das primeiras greguerías de Ramón Gómez de la Serna (1888-1963), feitas no dealbar dos seus 20 anos, até às do ano da sua morte, há todo um exercício de depuração, contenção e essencialidade aforística. Entre os longos parágrafos das greguerías iniciais e a brevidade tensa das últimas, apenas e sempre, algumas coisas em comum: uma extrema atenção ao pormenor das acções mais banais ou acontecimentos fortuitos, aliada a uma intuição singular sobre jogos de palavras improváveis, e associações quase surreais; mas também um olhar de inocência, que quase parece infantil, orientado para o deslumbramento e descoberta das coisas de todos os dias, quando não, da sua desmontagem inteligente.
Passamos a traduzir, então, uma greguería ramoniana, do primeiro ciclo, entre 1911 e 1919. Segue:

"Pobre morcãozito brando e voluptuoso metido no coração da fruta!... Encontramo-lo demasiado tarde, quando já não podemos deixar-lhe o fruto só para ele... Sentimos o seu frio repentino ao ser posto perante a intempérie, assim nu e em carne viva... Sentimos o golpe no seu destino, sentenciado a morrer desalojado que foi da incubadora onde vivia tão docemente... E, às vezes, sentimos um súbito arrepio, uma dor penetrante, inadvertidamente, ao cortá-lo em dois, com a faca, quando partimos a fruta!
Terrível susto, o do morcãozito e o nosso!"

sábado, 26 de outubro de 2013

Ainda mais 3 greguerías ramonianas


1. A lava parece um crocodilo que avança.
2. O gato, a máquina fotográfica do mistério.
3. As borbulhas são olhos que morrem ao nascer.

domingo, 6 de outubro de 2013

6 greguerías ramonianas algo melancólicas, ou de Outono


1. As cinzas de cigarro que ficam entre as páginas de velhos livros são a melhor imagem daquilo que ficou neles da vida de quem os leu.
2. No Outono todo o campo está cheio do aroma dos adeuses.
3. Há céus sujos onde parece terem-se limpado os pincéis de todos os aguarelistas do mundo.
4. O sonho é um depósito de objectos extraviados.
5. O tango está cheio de despedidas.
6. Os olhos das estátuas choram a sua imortalidade.

de algum modo, em geminação com MR, que fala de D. Ramón, hoje, no Prosimetron.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

5 greguerías curtas e bem dispostas


1. O espantalho assemelha-se a um espião fuzilado.
2. A idiossincrasia é uma enfermidade sem especialista.
3. Os eucaliptos têm sempre a camisa desabotoada.
4. Às doze os ponteiros do relógio apresentam armas.
5. O que põe a baleia mais danada é chamarem-lhe cetáceo.

domingo, 28 de julho de 2013

Uma dúzia de greguerías ramonianas


1. No mais alto e íntimo da noite compreende-se que os faróis vivam para si mesmos.
2. Há umas nuvens que são como novelos de penas escapadas ao colchão do céu descosido por algum lado.
3. O moscardo recorre a todos os claustros da casa ressoando como um frade desesperado.
4. Quando as botas soam no vazio é que a alma está muda.
5. É uma comovente cena filial a do ciclista que se agarra à traseira de um automóvel.
6. Os anjos da guarda dos músicos deviam ser eles a passar-lhes as folhas da partitura.
7. As costelas não servem senão para localizar as dores. «Dói-me entre esta e esta.» São a pista para o diagnóstico.
8. Todos temos cara de palhaços ao ensaboarmos a cara.
9. Para que o cabelo volte a crescer não há outro meio senão fazer uma viagem pelo peloponeso.
10. Os aplausos têm algo de parecido com as costeletas: muito osso e pouco que comer.
11. Panaceia é a cesta do pão.
12. Quando a mulher pede salada de fruta para dois, aperfeiçoa o pecado original.

sábado, 13 de julho de 2013

3 greguerías ramonianas para o fim-de-semana


1. O melhor das estátuas jacentes é que não é preciso fazer-lhes as camas todos os dias.
2. Era um homem sofrido e calado que tinha nuca de figo seco.
3. As pombas tornam claro que o amor é um queixume incessante.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

As razões díspares do riso e do sorriso


Não deixa de ser curioso constatar como coisas, tão diferentes na sua origem, podem provocar uma mesma sensação no indivíduo receptor.
As greguerías de Ramón Gómez de la Serna têm origem intelectual numa mente privilegiada em cultura, inteligência, imaginação filológica e verbal de associação, e também de fino humor. Quando as leio, não posso deixar de me rir ou, pelo menos, de sorrir.
Num paralelismo insólito e aberrante, provindas da pouquidão mental de alguns cibernautas com cabeças desarrumadíssimas e um grau avançado de iliteracia galopante, chegam ao Blogue, frequentes search words hilariantes e desconexas. Atente-se nestas duas últimas, bem recentes:
- "bribiografia espresso particaalfredo amilcar escher".
- "cancan comeca na na ra ra  na na macrtey".
Como é que eu não podia deixar de me rir às gargalhadas?

domingo, 23 de junho de 2013

4 greguerías para 1 domingo de Junho


1. Enquanto nos banhamos algumas recordações se afogam.
2. A cortina estendida no terraço toureia alegremente o bisonte do vento.
2. As sardinhas em lata viajam sempre em comboios apinhados.
4. Era tão moralista que perseguia as conjunções copulativas.

domingo, 16 de junho de 2013

5 greguerías traduzidas, para um domingo de sol


1. As gaivotas nasceram dos lenços que, nos portos, dizem adeus.
2. Às ondas não lhes importa a chuva, como se tivessem gabardine.
3. Os pinguins são os herdeiros dos fraques dos falecidos, e por isso lhes estão grandes e não podem tirar as mãos das mangas.
4. As formigas têm um passo apressado como se fossem para fechar a loja.
5. O pavão real é um mito jubilado.

domingo, 2 de junho de 2013

A propósito de Gómez de la Serna e as suas greguerías


As greguerías, que foram exercitadas por Ramón Gómez de la Serna (1888-1963) entre 1911 e o ano anterior à sua morte, revelam, se analisadas, uma gradual evolução no sentido da concisão e do fino humor. Mas as primeiras, juvenis, se mais ingénuas e extensas em palavras, ganham por vezes um lampejo e rasgo poético quase naïf, sempre interessante. É dessas primeiras greguerías que vamos traduzir quatro.

1. Que vida mais anódina e sombria não devem levar durante a semana essas raparigas que passam os domingos com as porteiras, sentadas no portal, quietas e inexpressivas.
2. Esse golpe que mata como um raio é um coice que foi dado a esse homem pela providência.
3. O pavão deveria ter um lencinho debaixo da asa para limpar o monco.
4. Os únicos que dão de comer às portas - esfomeadas como aquilo que está faminto - são os meninos que lhes dão a mastigar nozes e nozes.

domingo, 26 de maio de 2013

6 greguerías ramonianas


1. O lápis só escreve sombras de palavras.
2. As violetas são actrizes retiradas no outono da sua vida.
3. Há quem se guarde para dar esmola aos pobres que houver à porta do céu.
4. A morcela é uma transfusão de sangue com cebola.
5. Na manhã do domingo há luz do Vaticano.
6. A cada disparo o canhão recua como que assustado por aquilo que acaba de fazer.