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terça-feira, 10 de março de 2026

Brasileirismos

 

Em tempos, e porque não os conhecia, anotei de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos (1892-1953), alguns brasileirismos (?), para depois vir a procurar-lhes o significado. Assim o fiz e aqui os deixo e partilho, com a indicação do número da página (edição portuguesa da Portugália, 1970) e respectivo significado (via Houaiss).

Pgs.
403. Macrém - magreza; estação seca entre os sertanejos.
414. Cafoso - filho de um mulato e uma preta ou vice-versa.
417. Caolho - que ou quem não tem um olho; estrábico. 
422. Mucuranas - piolhos.
429. Tenesmos - espasmos dolorosos do esfincter, com desejo urgente de defecar ou urinar.
434. Eventração - hérnia. 
455. Baganas - pontas de cigarro ou charuto.
457. Molambo - pedaço de pano velho, roto e sujo; farrapo; roupa velha.
472. Esparro - censura severa e enérgica.
476. Galpão - construção tipo estábulo; costrução rural.
485. Gangorra - divertimento; gorro.
486. Gororoba - almoço ou jantar; comida.
498. Potoqueira - mentira; aquele(a) que mente.



quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Curiosidades 100

 

É conhecida a ligação do escritor Graciliano Ramos (1892-1953) ao partido comunista brasileiro de Luis Carlos Prestes (1898-1990). Informações indirectas podem encontrar-se, abundantemente, em Memórias do Cárcere, obra póstuma publicada em Setembro de 1953. Neste livro é também referido por diversas vezes o Hino do Brasileiro Pobre. Resguardada e pudicamente, o Youtube não acolhe nenhuma versão nas suas páginas de vídeos, muito embora contemple muitas burundangas pimbas e apolíticas musicais - e percebe-se porquê...
Sobre o hino, na net, também as informações são escassas a propósito da obra musical que apoiava e funcionava como cenário coral de reuniões do partido comunista brasileiro.
Consegui entretanto acesso à letra do Hino do Brasileiro Pobre, de que deixo um extracto inicial:

Do Norte, da floresta amazônica
ao Sul a coxilha a vista encanta
a terra brasileira à luz dos trópicos
é como um coração que bate e canta.

Operários, camponeses, 
estudantes, funcionários, pés-rapados
já sofremos mil revezes
já cansamos desta vida de explorados.
Punhos cerrados,
levantados,
protestemos!
...

(A música do hino foi composta por Francisco Manuel Silva e tem letra de Agildo Barata.)

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Últimas aquisições (47)

Mantendo, persistentemente, a longa peregrinação pelas Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos ( vou a páginas 379, na leitura ), reiterando que é um livro de leitura difícil mas compensadora, avancei para a compra de mais dois livros que coloquei na "torre de espera". Um de Patricia Highsmith (1921-1995), editado pela Relógio D'Água, o outro de J. M. Coetzee (1940) publicado pela D. Quixote.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Osmose 130


Há tempos e textos que, por vezes, nos encantam. Não serei muito sujeito a fascínios excessivos e inexplicáveis, mas sei reconhecer e admirar a qualidade de um parágrafo, a concisão de um pensamento ou a nitidez de uma descrição, a forma justa, precisa e realista de narrar um acto. De alguma forma, é isto que sinaliza um bom romancista, um poeta, um artista profissional na sua obra. Ou um homem atento à vida, pelo menos.
A página 258 de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, fez-me parar na leitura para pensar melhor estas palavras assim ditas (ou escritas), do escritor brasileiro:

Não iríamos, por fraqueza, responsabilizar o capitão moreno de voz frágil: ele apenas descobrira as nossas tendências, empregara o meio conveniente para transformá-las em acção. Reside nisso talvez o domínio que certos indivíduos exercem sobre a turba; o seu prestígio vem da faculdade quase divinatória de conhecer aspirações e interesses escondidos, juntar grãos de pólvora derramados nos espíritos, chegar-lhes um fósforo em cima. Certo não nos mexeremos à toa: o mais longo discurso incendiário, profuso de razões, não ressoa cá dentro - e permaneceremos calmos, frios; meia dúzia de palavras curtas nos arrastam.

Eu creio que seria muito difícil conseguir dizer melhor. Este facto bem difícil de descrever: o poder encantatório das palavras ou o timbre contagiante de uma voz.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Da leitura (51)



Descontando do título, benevolamente até porque foi póstumo, o plágio do nome da obra de Camilo, Memórias do Cárcere, confirma a qualidade da escrita do romancista brasileiro Graciliano Ramos (1892-1953). Percebemos pela sua leitura a riqueza da realidade que absorve. O pormenor que não perde e perpetua. E se perceba, a quem atende com algum mínimo sentido crítico, a mediocridade do que se vai publicando, por entre aves de arribação, sacaduras e mãezinhas, dos coelhos brasucas, piercings e afonsos de hoje, uma outra fasquia de excelência, no passado recente da literatura de língua portuguesa... 

segunda-feira, 20 de março de 2023

Antologia 15



Sobre criação literária, refere Graciliano Ramos (1892-1953):

" Afirmavam-me não ser difícil percorrermos um texto, aprendendo a essência e largando o pormenor. Isso me desagradava. São as minúcias que me prendem, fixo-me nelas, utilizo insignificâncias na demorada construção das minhas histórias. Aquele entendimento rápido, afeito a saltos vertiginosos e complicadas viagens, contrastava com as minhas pequeninas habilidades que pezunhavam longas horas na redacção de um período. Julguei Sérgio isento de emoção, e isto me aterrou. Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício, acho medonho alguém viver sem paixões. "

Graciliano Ramos, in Memórias do Cárcere (pg. 206).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Do que fui lendo por aí... 55



Do Rio de Janeiro, em carta de 18 de Abril de 1954, de Fernando Lemos (1926-2019) para Jorge de Sena (1919-1978), em Lisboa, passo a transcrever um pequeno excerto da missiva:

"Estou a ler As memórias do cárcere (1953), do Graciliano Ramos. Gostaria que o lesse, mas não sei se já entrou em Portugal. Mande-me dizer se conhece, porque se assim não for, eu arranjarei maneira de lho mandar (são quatro volumes que, diga-se de passagem, cabiam apenas num, mas...). Vou ainda no primeiro volume, que achei chato, mas estou informado que é o pior dos quatro."


Nota pessoal: a obra acima referida, de Graciliano Ramos (1892-1953), veio a sair editada pela Portugália, em Setembro de 1970. Eu teria dificuldade em subscrever a apreciação radical de FL, e imagino que há por aqui uma certa confusão entre densidade e chateza. Admito porém que o livro de Graciliano Ramos não é de leitura fácil. Nem divertida... Que é o que muita gente procura.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Antologia 14



...
Arriei perto, senti a maciez fofa dos panos: aquilo parecia colchão. Ignoro se veio comida, suponho que todos ficaram sem alimento. De cócoras, deitados, zumbiam à luz fraca da lâmpada muito alta. Exposição humilhante era a sórdida latrina, completamente visível. Sobre o vaso imundo havia uma torneira; recorreríamos a ela para lavar as mãos e o rosto, escovar os dentes. As dejecções seriam feitas em público. A ausência de porta, de simples cortina, só se explicava por um intuito claro da ordem: vilipendiar os hóspedes. Nem cadeiras, nem bancos, inteiro desconforto, o aviltamento por fim, a indignidade. Alguém teve ideia feliz: conseguiu prender uma coberta em frente à coisa suja, poupou-nos a visão torpe. Isso nos deu alívio: já não precisávamos fingir o impudor e o sossego de animais.
...

Graciliano Ramos (1892-1953), in Memórias do Cárcere (pg. 175).




 

sábado, 31 de dezembro de 2022

Balanços e transições


Ainda que tenha feito alguns esforços, vãos, levarei de passagem para 2023 três grossos volumes, para tentar acabar de os ler no próximo ano. São eles, pela ordem do início da leitura, os seguintes: 

1. Memórias do Cárcere (1953), de Graciliano Ramos (1892-1953). Levo lidas 154 páginas, das 650 do livro. É um texto denso, mas de grande qualidade literária, embora com passagens de algum pessimismo ontológico.
2. Felipe II (1937), de William Thomas Walsh (1891-1949), em versão castelhana. Lidos 7 capítulos (pg. 153, das 810). Parece-me obra séria, embora a julgue um pouco influenciada do ponto de vista religioso (católico).
3. Finalmente, Casa Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre (1900-1987), de que levo lidas 135, das 460 páginas. Livro que obriga a uma leitura serena e lenta pela riqueza da informação cultural, histórica e sociológica que contém.



A qualidade dos três volumes é notória. E a leitura tem ritmo, cor e reflexão. Vou dar uma perspectiva, traduzindo para português o início do capítulo VIII (Segunda boda de Felipe) da biografia do rei espanhol. Segue:

"Quando Filipe desembarcou em Southampton não era um homem qualquer. A sua pele branca e o seu cabelo e barba, ruivos, mais de inglês do que de espanhol, faziam contraste com o seu traje negro de terciopelo e com a sua capa escura com adereços de ouro. Pedras preciosas dignas de um rei brilhavam na sua cabeça, no seu peito e nos pulsos. Ao pescoço o colar  da Ordem de Jarreteira que o conde de Arundel lhe acabara de conferir. Parecia um rei e era-o na verdade, pois Carlos V havia-o nomeado rei de Milão, para que não fosse menos do que Maria (Stuart). Atravessou a cidade sobre um rocim andaluz, enviado pela noiva, dirigindo-se à igreja de Holy Road, onde ouviu missa e deu graças a Deus pela sua feliz viagem. A nobreza inglesa e o povo estavam encantados vendo o seu ar sóbrio e varonil, o seu nobre maneio do cavalo, bem como o seu afável sorriso." 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Superlativos


Às vezes, embora habituado aos abusos da linguagem, à leviandade e excessos sentimentais expressos em palavras que, hoje, já quase nada significam (o verbo amar, nomeadamente, anda todo esfarrapado), à força de serem mal usadas, ainda me surpreendo com o desatino e ligeireza de alguns sujeitos. Ontem, por exemplo, um plumitivo, que escreve por aí e tem algum nome na praça, ao referir a morte de Rubem Fonseca (1925-2020) caracterizava-o como o "maior escritor brasileiro do século XX". Por muito que eu preze o falecido, então qual será o valor de Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa, de Drummond ou Cecília Meireles, para não falar de outros?
Tento na língua, não faz mal a ninguém!

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Como íamos transcrevendo...


A prosa de Graciliano Ramos (1892-1953) é seca. Melhor dizendo, enxuta e essencial, sem desperdícios de adorno ou rodriguinhos de estilo, para fazer batota com o leitor e o seduzir, por aspectos secundários. No fundo, prosa honesta de homem sério.
Com Machado de Assis e João Guimarães Rosa ele pertence, para mim, à trindade magnífica e maior da ficção brasileira. Daí o facto de o ter escolhido, nesta temática sobre o passado-presente-futuro do País-Irmão, como ilustração exemplar daquilo que se pode vir a repetir, por lá.
Por isso, e como íamos transcrevendo:
                                                                                                                                                    
"... Agadanhavam-me e, depois de uma noite de insónia, despachavam-me para o Recife? Capricho. Certamente me forçariam a interrogatórios morosos, testemunhas diriam cobras e lagartos, afinal me chegaria uma condenação de vulto. Sem dúvida. Quais seriam os meus crimes? Não havia reparado nos enxertos em 1935 arrumados na constituição. Num deles iria embrulhar-me. A conjectura de que me largariam ao cabo de dois ou três dias, por falta de provas, sumiu-se. Aquela transferência anunciava demora.
Em frente de mim, os cotovelos na mesa, Tavares, sonolento, bocejava com dignidade bovina. Nenhuma aparência de cão de guarda: um boi. De espaço a espaço mugia uma questão, a que eu respondia por monossílabos, afirmando ou negando com a cabeça. Voltei ao carro de primeira classe, diligenciei entreter-me com as divagações do meu companheiro. Não conseguia, porém, dispensar-lhe atenção: mudo e chocho, isento de curiosidade, andava aos saltos no tempo, brocas agudas verrumando-me o interior. ..."


Graciliano Ramos, in Memórias do Cárcere (pgs. 39/40).                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
                                              
                                                                                                                                                                                                                              

sábado, 20 de outubro de 2018

Outros tempos, mesma temática


"...O congresso apavorava-se, largava bambo as leis de arrocho - e vivíamos de facto numa ditadura sem freio. Esmorecida a resistência, dissolvidos os últimos comícios, mortos ou torturados operários e pequeno-burgueses comprometidos, escritores e jornalistas a desdizer-se, a gaguejar, todas as poltronas a inclinar-se para a direita, quase nada poderíamos fazer perdidos na multidão de carneiros.
Pensando nessas coisas, desci do automóvel, atravessei o pátio, que, em 1930, vira cheio de entusiasmos enfeitados com braçadeiras vermelhas. Numa saleta, um rapaz me recebeu em silêncio, conduziu-me a outra saleta onde havia uma cama e desapareceu. O mulato fez a última viravolta e desapareceu também. À porta ficou um soldado com fuzil. ..."

Graciliano Ramos (1892-1953), in Memórias do Cárcere (pgs. 29/30).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Dois ritmos


Não há dúvida que foi um luxo. Ler Graciliano Ramos (Viagem) acompanhado, em simultâneo, pela música de Schubert (Sonata para piano, op. 78). Mas não há dúvida: nenhuma das artes perturbou a outra - completaram-se. Porque me parece que distribuí bem a minha atenção...

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Bibliofilia 128


Nas últimas semanas, a oportunidade e a tentação da compra de livros usados tem sido mais que muita, ultrapassando largamente a minha capacidade de leitura e criando uma indisciplina quase caótica por sobre mesas, sofás e mesinha de cabeceira. Acalmo-me, ilusoriamente, pensando que haverá períodos de defeso em que nada haverá que mereça ser comprado. Mas o certo é que Steiner, Beauvoir, A. J. Saraiva, J. Pacheco Pereira, alguns livros de poesia inglesa, aguardam, numa já enorme lista de espera, o tempo de serem lidos.
Nos anos 50 e 60 do século passado, proliferou pelas editoras a publicação da temática: viagens. Era uma altura em que, por questões económicas, poucos se podiam dar ao luxo de viajar, pelo menos, para longe. E, por isso, a temática tinha muita procura e leitores. Também, para os intelectuais de esquerda, era de bom tom e norma visitar a U. R. S. S., tal como para os crentes do Islão, ainda hoje, é importante ir a Meca. Dessas viagens ao Leste comunista, ficaram livros de Gide, Sartre e Beauvoir, Tavares Rodrigues, por exemplo.
Graciliano Ramos (1892-1953) é um dos meus autores de referência. E, por isso, este Viagem, de 1954, obra póstuma do grande escritor brasileiro, logo prendeu irresistivelmente a minha atenção, no alfarrabista. O preço era módico e, ainda por cima, a capa do livro era de Portinari (1903-1962). Lá veio para casa e ficou a encimar uma das torres de leitura, a haver...

domingo, 16 de agosto de 2015

Interlúdio 52


Receita

Experiência é uma comparação prolongada.
Porque a dúvida, sendo em última instância uma gaguez afectiva da sensibilidade, abstém-se, delicadamente, em afirmar.
Tomem-se três livros de ficção, em boa calma; depois, leiam-se 2 páginas de cada um, ao calhas, de forma concentrada e responsável: o que mais se nos afeiçoar, é porque é o melhor. Mesmo assim deixe-se a abeberar a decisão, por uns cinco minutos, em banho-maria.
Com alguma sorte, até pode ser que o escolhido tenha qualidade literária.
A fartura permite esta exorbitância diletante.

P. S. : decisão tomada - Angústia, de Graciliano Ramos.


sábado, 16 de agosto de 2014

Uma dedicatória de Graciliano Ramos


Especialista que não sou de genealogias, penso que este Jaime Cortesão Casimiro, que teria falecido em Oeiras no início deste ano de 2014, e a quem o livro "Angústia" está dedicado, seria parente (Filho? Neto? Sobrinho?...) do médico, escritor e historiador português Jaime Cortesão (1884-1960), que esteve emigrado no Brasil, entre 1940 e 1953.
Mas o que, de mais interessante, me importava destacar era a bem-humorada frase (A Jaime Cortesão Casimiro/ envio esta longa maçada. - Rio - 1947) do escritor brasileiro Graciliano Ramos (1892-1953). Que aqui fica para que conste. O livro foi-me oferecido, há dias, por um bom e generoso Amigo. A obra é a 3ª edição do romance, que foi editado, pela primeira vez, em 1936.

domingo, 27 de outubro de 2013

Favoritos LXXXVII : Graciliano Ramos


Para ser verdadeiro, eu teria de dizer que nenhuma das obras de Graciliano Ramos (1892-1953), das que li até hoje, me desagradou. Acabei, ontem, este S. Bernardo, cuja capa de Santa Rosa aparece em imagem, e também gostei de ler este romance de paixão, ciúme e morte. Não terá o fôlego encantatório de Infância, mas não desmerece, em nada, o escritor brasileiro. Até por lá se encontra uma interpelação ao leitor, que me lembrou Camilo. Aqui vai um bocadinho:
"...Essa conversa, é claro, não sahiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, repetições, malentendidos, incongruencias, naturaes quando a gente fala sem pensar que aquillo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Supprimi diversas passagens, modifiquei outras. (...) Uma coisa que omitti e que produziria bom effeito foi a paizagem. Andei mal. Effectivamente a minha narrativa dá idea duma palestra realizada fóra da terra. ..."
Desengane-se o improvável e futuro leitor que S. Bernardo não é uma hagiografia, embora inclua um padre sertanejo e algumas incursões sobre Religião, nem sempre abonatórias. É um romance sobre a terra e o amor fatal de um homem bruto, no melhor sentido da palavra, com sentimentos densos, e uma Desdémona loura e frágil, professora na província.
Graciliano vem à colação porque passa, hoje, mais um aniversário do seu nascimento. E morreu cedo, há precisamente 60 anos. Aqui fica lembrado, para que o leiam.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Graciliano Ramos por Agrippino Grieco


No seu livro "Poetas e Prosadores do Brasil", o crítico e ensaísta brasileiro Agrippino Grieco traça, do seu ponto de vista, um retrato curioso do romancista Graciliano Ramos (1892-1953). Aqui o deixo:
"...Conheci o autor em Maceió. Passava eu por lá, em direcção a Recife, quando José Lins do Rego, Aloísio Branco, Valdemar Cavalcanti e Graciliano me foram buscar a bordo, para, nas duas ou três horas de parada do navio, correr a cidade, comer um sururu e ver as formosas igrejas da terra. Mas uma das coisas que vi com mais gosto foi o romancista dos «Caetés», alto, magro, pouco palrador, sem nenhum talento no sorriso, com um jeito de revisor suplente de jornal aqui do Rio, dos que recebem sempre em atraso. Indo para a terra, ou voltando para bordo, num desses barquinhos a vela, desarticulados e bambaleantes, que parecem ameaçar-nos sempre de inquietante mergulho, quase não lhe ouvi dez palavras.
Li-lhe depois o volume de estreia e verifiquei que tal romance era bem de tal homem. Nada de gastar saliva inutilmente. Nada de consumir papel quando não seja para dizer qualquer coisa realmente proveitosa ao gosto ou à sensibilidade dos demais.
Mas é estranho como esse patrício se conservou assim discreto, pouco verboso, pouco gesticulante, numa zona de derramados, de criaturas que gostam de despejar metáforas às carretas nos livros. E que civilizada finura manteve em lugares como Palmeira dos Índios, onde o seu livro decorre e onde, se não estou equivocado, foi prefeito, por sinal que prefeito pouco panglossiano quanto aos frutos da própria administração, aludindo com desdém meio swiftiano à sua municipalidade e respectivos munícipes. ..."

sábado, 27 de outubro de 2012

Nos 120 anos do nascimento de Graciliano Ramos


Da introdução de Antônio Cândido a Caetés (7º edição, 1965), um pequeno excerto:

Para ler Graciliano Ramos, tavez convenha ao leitor aparelhar-se do espiríto de jornada, dispondo-se a uma experiência que se desdobra em etapas e, principiada na narração de costumes, termina pela confissão das mais vividas emoções pessoais. Com isto, percorre o sertão, a mata, a fazenda, a vila, a cidade, a casa, a prisão, vendo fazendeiros e vaqueiros, empregados e funcionários, políticos e vagabundos, pelos quais passa o romancista, progredindo no sentido de integrar o que observa ao seu modo peculiar de julgar e de sentir De tal forma que, embora pouco afeito ao pitoresco e ao descritivo, e antes de mais nada preocupado em ser, por intermédio da sua obra, como artista e como homem, termina por nos conduzir discretamente a esferas bastante várias de humanidade, sem se afastar demasiado de certos temas e modos de escrever. ..."

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Em louvor de "Infância", de Graciliano Ramos


O último capítulo de "Infância" (1945), de Graciliano Ramos (1892-1953), intitula-se, simbolicamente, Laura e narra o princípio da adolescência de uma criança de 11 anos, com a descoberta do seu primeiro amor. Como todo o livro, está admiravelmente bem escrito, e onde não falta, também, alguma ironia. É, quanto a mim, uma obra-prima da língua portuguesa. Antes que passe o volume para mãos amigas, numa partilha da alegria de o ter lido, aqui deixo mais um pequeníssimo excerto ( da página 273) desse último capítulo:
"...Mal percebi o rostinho moreno, as tranças negras, os olhos redondos e luminosos. O meu ideal de beleza estava nas donzelas finas, desbotadas, louras, que deslizavam à beira de lagos de folhetim, batidos pelos raios de luar, cruzados por cisnes vagarosos. Laura não possuía o azul e o ouro convencionais, mas dividia períodos, classificava orações com firmeza, trabalho em que as meninas vulgares em geral se espichavam. Imaginei-a compondo histórias curtas, a folhear o dicionário, entregue a ocupações semelhantes às minhas - e aproximei-a. Se ela estivesse próxima, não me seria possível concluir a veneração que se ia maquinando. Situei-a além dos lagos azuis, considerei-a mais perfeita que as moças do folhetim. ..."