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terça-feira, 24 de novembro de 2020

Citações CDIL

Não consigo habituar-me a colocar a Idade Média depois da Grécia e de Roma.


 Juan Ramón Jiménez (1881-1958), in Etica y Etica Estetica.

domingo, 15 de março de 2020

Glosa (17)


É tão razoável representar uma espécie de encarceramento por uma outra como representar qualquer coisa que realmente existe por qualquer coisa que não existe.

Daniel Defoe (1660-1731), in A journal of the Plague Year (1722).

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Glosa (16)


Um nevoeiro branco, mas opaco, toma conta do rio na manhã dominical. O Sol é um halo pressentido que transfigura a paisagem como nalgumas telas de Sequeira. É aí que me vem à colação um poema de Fernando Echevarría (1929):

Inverno de nevoeiro.
O pulso nele faz frio
e purga-lhe o pensamento,
de repente tão antigo.
A espuma sobe por dentro
desse relógio marítimo
cuja cota conta o tempo
da língua a colher o ofício
e a música. O silêncio
sossega à beira do ritmo.
Irá nevar? Nos pinheiros
a densidão do moliço
pensa pássaros de inverno,
imóveis, pois luz e ninhos

apenumbram a penugem
da língua que toma conta
de se enrodilharem nuvens
no vulto denso da copa.

A poesia de Echevarría quase nos conta uma história. Se a quisermos ouvir (ler) com minuciosa atenção. Sinestesias discretas irradiam dos seus versos. Acompanham e mimetizam a paisagem. Pensam-na por dentro.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Se... um poema


Desde que haja algum talento, traquejo de ofício e sensibilidade, o célebre poema If, de Rudyard Kipling (1865-1936), pode ser acrescentado, de versos, interminavelmente, sem que se lhe altere, de forma significativa, o seu conteúdo original. Ou pode ser glosado até à exaustão, nas suas proposições condicionais e moralistas. Alexandre O'Neill (1924-1986) fê-lo, com humor e sucesso, em Feira Cabisbaixa (1965). Outro tanto se poderia dizer do soneto camoniano "Amor é um fogo que arde sem se ver..." que, por sua vez, também foi imitado (mal, quase sempre), embora de forma séria, por tantos poetas portugueses.
Há que desconfiar, sempre, da qualidade poética destas ladainhas encantatórias e destas verborreias irradiantes e repetitivas que pululam em todas as literaturas, e agradam a muita gente, pouco preparada. Talvez alguns dos poemas consigam atingir a bitola da  verdadeira poesia. Outros, que são a grande maioria, não.
Fica o aviso à navegação.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Em tempo, e glosa poética por contraste (algo críptica...)


Há nomes e apelidos que são um destino. Fatal.
Por excesso, Drummond de Andrade nomeou-o em verso:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: vai, Carlos, ser gauche na vida.
...
É evidente que seria, no mínimo, imprudente e absurdo confundir uma cloaca com um poeta. Muito embora Gregório de Matos fosse um candidato possível à miscigenação libertina dos dois conceitos. Drummond, de maneira nenhuma.
Mas há estações televisivas portuguesas que, embora católicas de nascença, servem actualmente de monturo a dejectos poluentes e a figuras sinistras, ajudadas por pindéricos servidores bem adornados.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Glosa (15)


Ao fazer a tradução do anterior excerto de Paul Valéry, lembrei-me, em simultâneo, de Pablo Picasso e de Herberto Helder, como potenciadores de um público novo ou muito próprio, pela sua ruptura artística com o passado. E que Valéry classifica, em geral, como a segunda corrente de criadores.
Porque a Arte evolui pouco a pouco, e só gradualmente se vão alterando os cânones onde se insere a maior parte dos seus agentes. O que permite habituar, sem transtornos, a corrente maioritária do público e amadores a esse ligeiro e gradual evoluir. Sem qualquer perturbação estética de maior.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Mote e glosa (13)


Heidegger não pensa "sobre algo", mas pensa algo.
...
... a capacidade de nos surpreendermos perante o que é simples (...) e tomar como ponto de partida este sobressalto.

Hanna Arendt (1906-1975), in Revista de Occidente (nº 84, 1970).

................

O tempo desocupado por inteiro pode, nalguns casos e após um período neutro de transição (as férias não são o suficiente...), levar-nos a questionar as coisas mais simples, os factos dados como encerrados, os saberes adquiridos, as frases feitas. O tempo, dito, de reforma ou de aposentação pode, por isso, ser portador de novas curiosidades e descobertas. Criando assim um espaço de reflexão inesperado, natural.
Se a idade, necessariamente, nos faz desaprender, até pelos saberes que fomos esquecendo com o tempo, devido a não os usarmos, esse novo espaço livre pode vir a ser uma fonte fresca e seara de conhecimento, desde que o tomemos como ponto de partida para esse sobressalto.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Glosa 12


Diz, quem sabe, que as árvores fixam a terra e consolidam os terrenos.
Os livros dão vida e eternizam a língua, dando-lhe a existência material que a oralidade não consegue, inteiramente. Daí a importância de Chaucer ou de Fernão Lopes.
Só depois poderemos amar e respeitar a sua pureza, perservando-a, ou, volúveis, a podemos abastardar, enxameando-a de ervas daninhas, estranhas e alheias.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Glosa 11


No seu livro Souvenirs de la Cour d'Assises, André Gide (1869-1951) refere:
Desde sempre os tribunais exerceram sobre mim um fascínio irresistível. Em viagem há, sobretudo, quatro coisas que me atraem numa cidade: o jardim público, o mercado, o cemitério e o Palácio de Justiça.

Se o turismo funerário está hoje na moda ( que o digam o Père Lachaise e o Cemitério de Praga ), os tribunais não creio que tenham sido, alguma vez, motivo de particular atenção para os turistas. Se alguns homens têm especial apetência pelos cafés e algumas senhoras se derretem pelas pastelarias (infâncias amargas?), o turista vulgar gosta sobretudo de sentir as ambiências e surpreender os costumes das cidades ou vilas estrangeiras.
Eu confesso a minha fraqueza pelas livrarias e museus, mas, quando vou a Barcelona, não resisto a dar uma volta por La Boqueria...

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Glosa 7


Pergunto-me, muitas vezes, quando é que se irá dar o redescobrimento de Somerset Maugham (1874-1965). A exemplo de Stefan Zweig (1881-1942), seu coevo parcial, austríaco, que já foi repescado do limbo por que passou, e voltou a ser lido, foram ambos escritores muito populares, em meados do século passado. Muito apreciados e publicados, tinham, ambos, uma escrita de qualidade, realista e gulosa. Mas, também é verdade, não seriam muito prezados pelas academias dessa época. Coisas e caprichos, que costumam ocorrer, com alguma frequência...
Numa altura em que eu devorava tudo o que me aparecesse do escritor britânico, lembro-me que apreciei muito The Summing Up (publicado em 1938), uma espécie de memórias anti-memórias, muito vivas e cheias de pormenores pitorescos e ligeiramente reflexivas, que li na versão inglesa, original, em meados dos anos 60. Ontem, cruzei-me, na biblioteca de um amigo, com a versão portuguesa do livro ( Exame de Consciência), da Livros do Brasil, revista por Freitas Leça (Óscar Lopes?) da tradução brasileira de Mário Quintana. E recomecei a lê-la, com gosto.
A actualidade do seu pensamento, no meu entender, mantém-se. Ora, ouçámo-lo:

"... Os ingleses são um povo político, e muitas vezes fui convidado para reuniões em que a política era o interesse dominante. Não consegui descobrir, entre os eminentes estadistas que lá encontrei, nenhuma capacidade notável. Concluí, talvez apressadamente, que não era necessário um elevado grau de inteligência para governar uma nação. Desde então, tenho conhecido em vários países muitos políticos que atingiram elevados postos. E continuei a sentir-me intrigado com o que se me afigurava a mediocridade do seu espírito. Achei-os mal informados sobre as coisas ordinárias da vida, e quase nunca descobri neles subtileza de espírito ou vivacidade de imaginação. Durante algum tempo senti-me inclinado a pensar que deviam a sua ilustre posição ùnicamente aos dotes oratórios, pois numa comunidade democrática deve ser quase impossível subir ao poder sem captar os ouvidos do público; e o dom da palavra, como sabemos, nem sempre vem acompanhado do poder do pensamento. Mas, logo que vi estadistas que não me pareciam muito inteligentes conduzirem os negócios públicos com razoável êxito, tive de reconhecer que estava enganado: devia ser que, para governar uma nação, é preciso um dom específico, e que esse pode muito bem existir sem aptidões gerais. Da mesma forma, conheci homens de negócios que fizeram grandes fortunas e conduziram vastas empresas à prosperidade, mas que se mostravam desprovidos até de bom-senso em tudo quanto não se referisse ao seu ramo. ..." (pgs. 6/7, da obra citada).

Ora, e aqui, para além da subjacente ironia de Maugham, é que bate o ponto. Neste desencanto e surpresa pela qualidade dos políticos. Pela sua menoridade quase geral, e que, praticamente, todos nós sentimos. Sobretudo, quanto mais avançamos nos anos das nossas vidas. E chego a pensar que tudo isto se repete, de geração em geração, talvez pela exigência maior do nosso sentido crítico, quando envelhecemos. Dos "Vencidos da Vida", da geração de 70, aos Vencidos do Catolicismo (progressista) dos anos 60 do século passado. De degrau em degrau, parece que tudo piora e nos encaminha, sempre, para um pessimismo ontológico, que só a juventude e a superficialidade pueril de muitos não vê ou sente. Desencanto e desistência fatal que Zweig levou à prática, no Brasil, e Maugham foi arrastando pela Rivieira, penosamente e sem grandes ilusões...

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Glosa (6)


Domingo. No tempo em que eu ia à missa, e já começara a pensar, embora impreparadamente, apreciava bastante aqueles oficiantes (raros, aliás) que, depois da leitura do Evangelho, glosavam de forma inteligente e clara aquilo que tinham acabado de ler para os paroquianos, através de uma interpretação pessoal comentada. A grande maioria dos padres, no entanto, limitava-se a reproduzir a história do Evangelho, de forma canhestra, vacilante, como que num eco desfasado e paupérrimo de palavras banais. O que me dava um grande tédio, quando não, bocejo e sono...
Há dias, e durante cerca de 25 minutos, na SIC-notícias, a propósito do recente terramoto de Taiwan, uma inepta e verborreica jornalista tentava, por palavras, comentar as parcas e repetitivas imagens que iam aparecendo no ecrã sobre a tragédia. O que ela dizia não ultrapassava, em nada, o que íamos vendo, porque decerto não sabia chinês, nem lho traduziam para ela poder acrescentar um pouco mais de explicação a essas imagens que, continuamente, iam passando no ecrã. Repetiu, assim, as mesmas banalidades umas quatro ou cinco vezes, num péssimo trabalho jornalístico.
Mas não é caso único. Já me habituei, também, a que depois de um corriqueiro discurso político (do PR, por exemplo) o(a) inefável jornalista de serviço, imediatamente e durante quase outro tanto tempo, comece logo a debitar em sotto voce, como que a explicar aos palermas dos telespectadores, as sábias palavras da mensagem política ouvida. Tudo isto me provoca um inenarrável tédio e uma cansada irritação.
Para não falar da multidão de comentadores minorcas que pululam por aí e que glosam dias e dias, interminavelmente, aquilo que vai acontecendo (política, futebol...) numa linguagem de pau seco e num eco de plágio sistemático que, mesmo muito espremido, não traz sequer uma ideia nova ou uma única achega original. Será que isto nunca mais muda? Será que esta gente não tem um mínimo de sentido crítico?

sábado, 20 de junho de 2015

(Mote e) Glosa (5)


"...Um outro cristão-novo, Manuel Batista Peres, «el capitán grande», nasceu em Ançã em 1589. Aos 5 anos veio para Lisboa, aos 12 para Sevilha, aos 20 torna a Lisboa donde viaja para a Guiné entregue ao tráfego negreiro. Desembarcou umas quatro vezes em Cartagena das Índias com armações de negros. E durante anos navegou em comércio entre Cartagena e Callao, o porto de Lima.
Em Callao era proprietário duma loja na Rua dos Mercadores, dumas casas de morada junto ao convento de S. Domingos, duma quinta no vale de Bocanegra, duma fazenda nas Lomas de Pachacana e de casas para negros em S. Lázaro. Em 1635 a sua biblioteca reunia 150 títulos, de Xenofonte a Plínio e Cícero, e nos contemporâneos Cervantes, Quevedo, historiadores espanhóis, João de Barros, Diogo de Couto, as Rimas de Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Francisco Rodrigues Lobo. ..."

António Borges Coelho, in Os Filipes (pg. 118).

Se me não questiono sobre o resto da vida deste grande comerciante luso, por terras do Peru, outro tanto não acontece sobre qual terá sido o destino da sua interessante biblioteca. Quem sabe se amarelecida pelo calor tropical e pela humidade geográfica local. Pergunto-me, se sobreviventes, por onde andarão as Rimas de Camões, o livro de Quevedo e a, hoje, raríssima (e cara) Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Na melhor das hipóteses, poderão estar no acervo de alguma biblioteca universitária (?) do Peru. Assim seja!

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Glosa (4)


Que devemos herdar destes últimos versos?
Cumpri-los na obrigação metódica da leitura mais próxima das palavras, ainda mornas? Tentar fazê-las quase nossas, na matéria sombria de outra voz tão desigual, ao ouvi-las? Ou seguir o seu procedimento a tracejado, nesta noite parda de calor do dia passado, que parece ressumar e fumegar, ainda, do rio?
Mesmo que aos versos se acasalem, por coevas, as palavras do Amigo que nos sagrou sobreviventes,ao princípio da tarde. No estúdio interior da calçada banal, já só havia passado, coeso embora nas recentes mas últimas telas onde o azul cinzento era preponderante. E nas palavras, que eram simples, despidas de qualquer ostentação. Ou metáfora, que havia de ser - se fosse -  fogo fátuo e vazio, para quem se conhecia há muito...
Em suma e apenas: interrogar o início, imaginar o fim.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Glosa


"...O mundo condena os mentirosos que não fazem senão mentir, até sobre as coisas ínfimas, e vai premiando os poetas, que só mentem sobre as coisas grandíssimas." 
Umberto Eco, in Baudolino (pg. 46).

Depois de Pessoa, é muito difícil dizer, ou mentir, melhor. Ruy Belo tentou, Gamoneda também, talvez com mais autêntica sinceridade, mas não foi longe. Sem o dizer, fazendo da mentira seu voto de castidade poética, Herberto Helder experimentou uma segunda via, com alguns resultados menores, embora de poesia maior. Os melhores poetas são, em última instância, grandes fantasistas, oscilando entre o malabarista talentoso da metáfora, e o mágico truque para consumo doméstico. Buscam um equilíbrio subjectivo por compensação externa. Por extremo, sendo bem sucedidos, conseguem criar uma nova linguagem. Ou uma outra realidade virtual, mas possível.
Se eu disser: o Polo Norte há-de vir a ser o sexto continente - talvez esteja a admitir uma verdade provável. Mesmo que esteja a mentir, no presente. Com o aquecimento global, esta constatação é, apenas, uma mentira menor. E sem grande qualidade poética.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Glosa sobre o "If" Kiplinguesco, com final à O'Neill e imagem de Duchamp


Se os crocodilos tivessem asas,
se as conversas do feicebuque tivessem substância,
se no MOMA(-pintura), as pintoras fossem mais de 5%, mas os nus femininos menos de 85%,
se usassemos as palavras unicamente quando são precisas,
se Bento XVI provocasse um golpe de estado e destronasse o papa Chico,
se os maus poetas se reconhecessem
e os prosadores róseos, de pechisbeque, fossem proibidos de publicar,
se jogar pelo seguro fosse crime ou considerado idiotice
e o Inverno não fosse tão frio,
se os camelos não tivessem bossas
e os peixes tivessem pálpebras,

acaso, tac!, o nosso mundo iria mudar?

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Com a devida vénia a Artur Costa, o seu soneto regionalista


Soneto para dois mil e catorze

Caminhas, calhostro, sem destino,
Arrastado, vergado à camoeca.
Será a da vida ou a do vinho,
Que a tua cancha hoje tanto afeta.

Na janela avistas a camboeira
Que cor, que fragante delícia!
Tua mão avança, bem certeira,
Com fome, mas nunca com malícia!

A canema, atenta, sai da porta
E salta, aos gritos "É ladrão!"
Bates forte, e ela queda morta.

Foges!, já ruge a multidão.
Mas tropeças na caleja torta
E conseguem, infeliz, deitar-te a mão.

Artur Costa (1963).


Nota:  a leitura do primeiro comentário aos "Regionalismos transmontanos (19)" ajudará a compreender a inclusão desta glosa repentista e brilhante, que se fica a dever (com agradecimentos) a Artur Costa.