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segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Da leitura (53)



Como se segue:

"Não é caso único: a Octavio Paz, no fim da vida, ardeu-lhe uma biblioteca cheia de raridades bibliográficas; e o italiano Giovanni Papini perdeu os seus livros, que estavam numa cave, durante umas cheias.Todas as vidas têm um fundamento material, mas a vida de um escritor é quase só papel, um suporte duradouro mas exposto a tantos perigos e inimigos. Perder uma biblioteca é de certo modo perder tudo, o maior pesadelo para quem fez dos livros a sua vida."

Pedro Mexia (1972), in Biblioteca (pg. 236).

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Do que fui lendo por aí... 28


Na minha adolescência, Giovanni Papini (1881-1956) teve lugar cativo e era um dos meus escritores predilectos - li muita coisa dele embora, com obra muito vasta, muita coisa tivesse ficado por ler. Só mais tarde vim a saber que, do ponto de vista político, o escritor italiano teve um percurso algo controverso. Adiante.
Creio que muita gente terá a experiência de algum acontecimento funesto ou menos feliz que, a médio ou longo prazo, pôde vir a resultar numa deriva positiva futura, não esperada, na sua vida. É isso que Papini tenta provar em Desgraças Afortunadas (pg. 100), pequeno capítulo do livro Vigia do Mundo (Livros do Brasil, 1955), com alguns exemplos. 
Que passo a transcrever:

Giambattista Vico tornou-se inteligente só depois de uma queda pelas escadas abaixo; Goya pintou as suas obras mais originais depois de uma cura da paralisia; Beethoven encontrou os gritos mais sublimes da alegria depois que se tornou surdo; Leopardi escreveu as líricas mais perfeitas depois de se tornar corcunda; Proust escreveu a sua obra-prima quando a asma o impediu de continuar a estulta vida mundana.
Poder-se-iam juntar centenas de exemplos. Não é sempre verdade que a desventura gere desventura: muitas vezes ela não é senão a paga antecipada de um dom que vale bastante mais do que o penhor.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

De uma entrevista, Valéry a Giovanni Papini


"Desde os gregos até nós, a verdadeira poesia é também pensamento e, por outro lado, o verdadeiro filósofo não o chegaria a ser se não tivesse em si alguma imaginação, que é a trama secreta da poesia. Poetas e pensadores escrevem ditados fornecidos pelos deuses mas, como você sabe, os deuses são avaros e invejosos, e não ditam mais do que o primeiro verso do poema e o parágrafo inicial do discurso."

sexta-feira, 29 de março de 2013

Citações CXXVII : Giovanni Papini


Os amigos não são senão inimigos com os quais acordamos um armistício, que nem sempre é honrosamente respeitado.

Giovanni Papini (1881-1956).

Nota: tenho a dizer que, embora goste de paradoxos, não concordo com esta afirmação de Papini.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Heresias Literárias



Aqui há uns bons anos, Giovanni Papini (1881-1956) era um escritor italiano, de Florença, muito lido. De um cepticismo inicial tinha passado a um catolicismo relativamente ortodoxo. Mesmo assim, foi quase sempre irreverente em tudo aquilo que escreveu. Uma das suas obras mais conhecidas é "Gog", tendo, mais tarde, escrito a sequência : " O novo livro de Gog". Por uma questão de melhor enquadramento, vou transcrever alguns fragmentos sequenciados de forma a situar a parte final da citação. E desafio, a quem me ler, a tentar identificar as "obras-primas" literárias de que Giovanni Papini faz uma descrição sumária e satírica - daqui a heresia... Aqui vai:

"Envergonha-me dizer onde conheci Gog: foi num manicómio particular. (...) e voltou para me entregar um embrulho de seda verde. - Leia - disse-me -, são folhas que salvei do último naufrágio." Papini refere depois que as folhas manuscritas eram uma espécie de diário em que Gog lançava apontamentos sobre o que ia vendo, lendo e vivendo. No primeiro capítulo ( intitulado "As obras primas literárias") escreve a dado ponto:

"Tive coragem para ler aqueles livros todos, menos três ou quatro, que, logo às primeiras páginas não pude suportar. Hostes de homens, chamados heróis, que se estripavam durante dez anos a fio, sob as muralhas de uma pequena cidade, por causa de uma velha seduzida; a viagem de um vivo à fossa dos mortos, com o fim de falar mal dos mortos e dos vivos; um doido héctico e um doido gordo que vão Mundo fora em busca de sovas; um guerreiro que perde o juízo por uma mulher e se diverte a arrancar azinheiros pelas selvas; um pulha cujo pai foi assassinado e que, para o vingar, faz morrer uma rapariga que o ama e outras personagens diversas; um diabo coxo que levanta os telhados de todas as casas para exibir as suas misérias; as aventuras de um homem de estatura média que faz de gigante entre os pigmeus e de anão entre os gigantes sempre de modo inoportuno e ridículo; a odisseia de um idiota que, através de ridículas desventuras sustenta que este Mundo é o melhor dos mundos possíveis; as peripécias de um professor demoníaco servido por um demónio profissional; a aborrecida história de uma adúltera provinciana que se enfastia e, por fim, se envenena; as surtidas loquazes e incompreensíveis de um profeta acompanhado de uma águia e de uma serpente; um rapaz pobre e febril que assassina uma velha e que depois - imbecil - nem sequer sabe aproveitar um alibi e acaba por cair nas mãos da polícia. ..."