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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Bibliofilia 101


Este portuense ilustre, cujo retrato, em litografia de José Alves Ferreira Lima, encima o poste, nasceu a 2 de Março de 1807, na Cidade Invicta. De seu nome, José Gomes Monteiro, estudou, em Coimbra, leis e cânones, não chegando a completar o curso. Foi para Inglaterra, ainda novo, e, posteriormente, veio a fixar-se em Hamburgo, alguns anos, onde chegou a criar uma empresa comercial, que não foi bem sucedida.
Na cidade hanseática, viria a publicar os Autos de Gil Vicente, baseados numa edição original, existente na Universidade de Göttingen. Mais tarde, regressou ao Porto, onde viria a falecer a 2 de Junho de 1879.
Bom conhecedor da língua alemã, traduziu e publicou, na sua cidade, em 1848, o livro Eccos da Lyra Teutonica, com versões de poemas de Uhland, Chamisso, Heine, Goethe, Schiller, Lessing e outros poetas germânicos, alguns deles em apresentação bilingue. Esforço meritório, que fez acompanhar de um Appendix, com notas explicativas. O conhecimento e amizade que teve com Almeida Garrett, terá tido, provavelmente, alguma importância no seu interesse por poesia.
Comprado em finais dos anos 80, do século passado, este meu exemplar custou-me Esc. 1.700$00, e encontra-se em bom estado de conservação.

quinta-feira, 27 de março de 2014

No Dia Mundial do Teatro


Creio que a primeira peça de teatro que li terá sido o "Auto da Alma", de Gil Vicente. Também por razões escolares, seguiu-se-lhe "Frei Luís de Sousa", de Almeida Garrett. E até pouco depois dos 30 anos continuei, com regularidade, a ver e a ler obras teatrais.
Subitamente, e mais ou menos por essa altura, o meu interesse começou a declinar, a pouco e pouco, e julgo que há mais de dez anos que nem vejo, nem leio teatro. Mas também não consigo explicar a razão deste meu desinteresse acentuada por essa temática literária.
E, embora não a pratique de todo, actualmente, neste Dia Mundial de Teatro, que se celebra hoje, quero deixar, em imagem, algumas das obras que li e recordo, com maior satisfação, do passado.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Da Janela do Aposento 38: Helderzinhos




Após uma longa vida de trabalho, “albardando os burros” e carregando figuras sinistras e toda a espécie de medíocres durante décadas, julga, o comum dos mortais, que se tinha livrado de semelhante espécie ao entrar para o “rol” dos séniores. Eufemismo bacoco e efémero !
O respeito perante a sabedoria acumulada deu lugar a uma compaixão disfarçada perante a chamada 3ª Idade. Foi sol de pouca dura para se chegar “ao osso”, i.e., “para falar verdade” e chamar velhos aos que estão em final de vida, término infelizmente muito prolongado. Azares do avanço da ciência !
O teatro de marionetes costuma ter umas figuras rústicas, fisicamente toscas, provincianas e, frequentemente, apoucadas, sem comparação possível com a ironia das personagens vicentinas. Os actuais Helderzinhos saberão do que estou a falar ? Tenho dúvidas !
E como também são ralos na benesse natural de penugem física, são cada vez mais parecidos com os “manequins” da Rua dos Fanqueiros. Ao que parece, seus vizinhos próximos na pequena “City” de Lisboa.
Vem tudo isto a propósito de uma recente irritação. O cabelo ralo é que não permitiu que se notasse o incómodo. Questionado sobre o motivo de não usar o Fundo de Pensões do Banco de Portugal, à semelhança do que sucede com o restante dos subscritores e cidadãos, para comprar dívida pública, a criatura apenas se irritou, sem que os cabelos se “pusessem em pé”.
O PR e alguns beneficiários do BP agradecem. Ter-se-iam lembrado, certamente, do final da “Tabacaria”, ou de outro verso, caso soubessem o número de cantos d’Os Lusíadas. Com efeito, recomendo uma reflexão sobre a “apagada e vil tristeza”.

Post de HMJ


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Idiotismos 13


Algo documentada, desde há muito, em obras literárias, a expressão ir bugiar ou mandar bugiar significa mandar à fava ou, mais literalmente, mandar pentear macacos, como refere Alexandre de Carvalho Costa, na sua obra já aqui referida. No fundo, uma forma mais extremada de dizer: Não me aborreças!
Parece que a expressão terá tido origem em Bougie (Argélia), onde os espanhóis, quando lá aportaram teriam visto muitos macacos. Foi esta terra do norte de África que Teixeira Gomes escolheu para exílio, e lá acabou por morrer.
Mas, e voltando ao princípio, a expressão já aparece na Ulysipo, de Jorge Ferreira de Vasconcelos:
 Vai, vai Joana bugiar,
não andes no alparvado.
E Gil Vicente usou-a também, no Auto de Mofina Mendes:
Senhora não monta mais
semear milho nos rios.
Que queremos por sinais
meter coisas divinais
na cabeça dos bugios.
Porque, classicamente, bugio é uma classe de macacos. Muito embora já tenha visto o vocábulo utilizado para significar rochedo, no meio das águas. E no feminino (bugia) valha, também, por pequena vela de cera, ou griseta.
Antenor Nascentes lembra que o étimo do nosso bugiar talvez possa ter origem comum ao do verbo italiano bugiare - dizer mentiras. Custa-me a aceitar. Mas seja como for, a expressão está ligada a macacos e, sobre isso, não há dúvidas.
A propósito, já agora, pergunta-se porque chamaremos nós, Forte do Bugio, à pequena fortaleza, com farol, na Barra do Tejo? Com planos mandados fazer, ainda no reinado de D. Sebastião, mas só edificada no tempo de Filipe I, foi instalada na ilhota de Cabeça Seca. Inicialmente denominado por Forte de S. Lourenço, o povo crismou-o, para sempre, como Forte do Bugio (do macaco?).

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Idiotismos 11


Tome-se por inteiro, e antecipadamente, que não se vai chegar a uma conclusão definitiva e rigorosa sobre as origens, razões de uso e significado exacto da expressão portuguesa: fazer fosquinhas. Muito embora Alexandre de Carvalho Costa (Gente de Portugal/ Sua linguagem - Seus costumes, Portalegre, 1982) lhe atribua equivalência a: fingir afectos que não se sentem.
Ao que parece, os Getas e Citas, antigos povos germânicos, atribuiam aos cavalos um poder adivinhatório através da interpretação dos seus relinchos, sobretudo aos cavalos brancos, que eram consagrados ao Sol. Daqui, para Portugal, vão uns séculos, mas há notícia de uns "cavalinhos fuscos" que, obrigatoriamente, integravam a procissão lisboeta do Corpo de Deus. Por sua vez, S. Jorge, iconograficamente, aparece quase sempre montado num cavalo branco. Ou seja, de novo, uma ligação ao sagrado.
Já no "Auto das Fadas", Gil Vicente refere: "Cavalgo no meu cabrão - e vou a val de cavalinhos..." E, também, Francisco Manuel de Melo os refere (cavalos fuscos) na "Feira de Anexins". Em 1517, no Regimento da Câmara de Coimbra se regista: "...os cordoeiros, albardeiros, odreiros e tintureiros levam quatro cavalinhos fuscos bem feitos e bem pintados...". E Cruz e Silva, no Hissope, nos finais do século XVIII, escreve:
E por dar mais prazer aos convidados,
De cavalinhos fuscos, depois dele
Na vaga sala, com soberba pompa
O galante espectáculo prepara.
Ou seja, em jeito de conclusão, fazer fosquinhas seria, talvez, "imitar o cavalo, nos seus movimentos, caracoleios e relinchos". E fiquemo-nos por aqui, hoje.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Em louvor de Almeirim


Etimologicamente, o nome da cidade terá tido origem árabe. De 3.181 habitantes, em 1874, tem hoje um pouco mais de duas dezenas de milhar. Terá pouca importância, actualmente, mas D. João I, cujo aniversário do nascimento passa hoje (11 de Abril de 1357), deu visibilidade a Almeirim ao construir, lá, o Paço Real - ao que dizem. Região de vastos vinhedos, abastecia Lisboa do precioso néctar de tintos carregados. Por lá estadiaram D. Manuel I e o filho, D. João III. Lá imprimiu (?) Hermão de Campos o Cancioneiro Geral, em 1516, que Garcia de Resende coligiu. De lá se originou, em boa hora, a conhecida Sopa de Pedra. O Paço de D. João I terá ruído na altura do terramoto de 1755. Mas lá tinham sido estreados alguns autos de Gil Vicente. E, na carta a Pero de Carvalho, pelos seus bons ares e produtos agrícolas, também Sá de Miranda a louvou:

Isto que ora ouvis de mim
não sei se ouvireis d'alguem;
buscai, preguntai sem fim
no desejado Almeirim,
no farto de Santarém.

domingo, 3 de abril de 2011

Três Andamentos


1. Outubro de 86, num café do Porto: um pintor e um poeta. Este pergunta ao Pintor se ele sabe o paradeiro de todos os quadros que fez. O artista responde que há dois que não sabe onde estão. E, num guardanapo de papel, com pequenas e breves hesitações de traço, desenha-os, linearmente. O Poeta diz-lhe: "- Do triangular, sei quem o tem!" O Pintor explica que o título do quadro é "O Massacre de Chicago", em homenagem à liberdade de associação sindical; e, depois, interroga: "- Onde está?" O interlocutor responde, cauteloso, em termos vagos: "- O dono, sei que está em Madrid..." O Pintor, após um ligeiro silêncio, exclama: " - Diga-lhe que pode ficar com ele."

2. Maio ou Junho de 86, um pai e um filho, depois de jantar (o filho dirá, mais tarde, que foi antes do jantar e que nem chegaram a comer juntos), dirigem-se para a Feira do Livro, no Parque Eduardo VII. Vão comprar, aproveitando os descontos, um livro com um auto de Gil Vicente, de que o jovem precisa para a Escola. Junto do Pavilhão Carlos Lopes há um monte de lixo e sucata, restos de fórmica e esferovite espalhados pelo chão - despojos da exposição-celebração do 15º aniversário da CGTP. Mas, no meio, e nas costas de um contraplacado de 1,20 x 1,20, há um nome: Angelo de Sousa. O filho não sabe quem é, mas o pai sabe. E, uma hora mais tarde, o quadro, de táxi, atravessará o Tejo, em direcção à Outra-banda.

3. Algures no séc. XXI, de novo, no Porto. O Pintor e o filho do homem encontram-se e conhecem-se durante uma exposição. O jovem fala ao Pintor (que se parece com o João César Monteiro, mas é menos desbocado), já sexagenário, do quadro "O Massacre de Chicago" e confirma-lhe que o pai o tem, pendurado, na sala do pequeno apartamento de Lisboa. O Pintor pede, então, ao jovem que tire uma fotografia da obra e lha mande. O jovem diz que sim. Mas com a falta de tempo e os trabalhos, nunca chegará a enviar a foto. E, entretanto, como diz a canção do José Afonso - "O Pintor morreu..."

para A. de A. M. e ms, e à memória de Angelo de Sousa.