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terça-feira, 7 de novembro de 2023

Citações CDLXXIX




Os nossos pensamentos mais importantes são aqueles que contradizem os nossos sentimentos.

Paul Valéry, in Tel Quel

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Citações CDXXVI


O espaço é um corpo imaginário tal como o tempo um movimento fictício.

Paul Valéry (1871-1945), in Tel Quel.

sábado, 12 de novembro de 2016

A par e passo 178


Um livro tem valor a meus olhos pelo número e pela novidade de questões que levanta, anima ou reanima no meu pensamento. As obras que impõem ou postulam a passividade do leitor não são do meu agrado. Eu espero das minhas leituras que elas me provoquem observações, reflexões, daquelas paragens súbitas que suspendem o olhar, iluminam perspectivas e despertam a nossa curiosidade profunda, os interesses particulares das nossas investigações pessoais e o sentimento imediato da nossa presença de estarmos vivos.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 269).


Nota pessoal: terminámos, hoje e por aqui, as transcrições e traduções de excertos, que temos vindo a fazer, desta obra de Paul Valéry. Bem como, pelo menos, esta fase da rubrica "A par e passo".

domingo, 10 de julho de 2016

A par e passo 170


Na realidade existe no poeta uma espécie de energia espiritual de natureza própria: manifesta-se nele e revela-se-lhe em certos momentos de importância infinita. Infinita para ele...
E eu digo: infinita para ele, porque a experiência, no fundo, ensina-nos que esses instantes que nos parecem de valor universal são, muitas vezes, sem futuro, e fazem-nos meditar nesta máxima: o que vale para um único não vale nada. É a lei aérea da Literatura.
Mas todo o verdadeiro poeta é necessariamente um crítico de primeira ordem. (...) O espírito é terrivelmente volúvel, enganador e enganado, fértil em problemas insolúveis e soluções ilusórias. Como é que uma obra notável poderá sair deste caos, se este caos que contém tudo aquilo que continha também aquelas oportunidades de se conhecer a si mesmo e de escolher o que pode e deve ser retirado desse mesmo pequeno instante e ser cuidadosamente utilizado?

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 156/7).

domingo, 6 de dezembro de 2015

A par e passo 154


Eis pois que eu me divertia de novo com sílabas e imagens, semelhanças e contrastes. As formas e as palavras que convêm à poesia tornavam-se sensíveis e frequentes no meu espírito, e eu tinha-me esquecido, por isto ou por aquilo, de esperar por estes agrupamentos notáveis dos termos que nos oferecem, subitamente, uma feliz composição, em si mesmo, na corrente impura das coisas mentais. Como um conjunto definido se precipita de uma miscelânea, assim como alguma figura se adivinha e destaca da desordem, no flutuar comum do nosso borbulhar interior.
É um som puro que soa pelo meio dos ruídos. É um fragmento perfeitamente executado para um edifício inexistente. É o pressentimento de um diamante que brota da massa informe da «terra azul»: instante infinitamente mais precioso do que qualquer outro, e que diversas circunstâncias produziram.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 113).

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A par e passo 139


A vida moderna tende a poupar-nos ao esforço intelectual tal como o faz em relação ao esforço físico. Ela substitui, por exemplo, a imaginação pelas imagens, o raciocínio pelos símbolos e escrita, ou pela mecânica; e muitas vezes por nada. Ela oferece-nos todas as facilidades, todos os meios simples de atingir os objectivos sem ter de cumprir um caminho. E se isso é excelente, não deixa de ser também perigoso. (...) A necessidade do esforço físico foi amortecida pelas máquinas, o atletismo veio, muito felizmente, salvar e mesmo exaltar o ser musculado. Será necessário talvez pensar na utilidade de fazer pelo espírito o que era feito pelo corpo. Eu atrevo-me a afirmar que tudo aquilo que não exija esforço não é senão tempo perdido. Mas há, com certeza, alguns átomos de verdade nesta fórmula atroz.

Paul Valéry, in Variété IV (pgs. 141/2).

terça-feira, 8 de julho de 2014

A par e passo 97


Eu não saberia exemplificar melhor do que usando, dos escritos do próprio Leonardo (da Vinci), uma frase em que se pode dizer que cada termo se complicou e purificou até se transformar numa noção fundamental do conhecimento moderno do mundo: O ar, diz ele, está preenchido por linhas infinitas e irradiantes, entrecruzadas e entretecidas sem que, no entanto, nenhuma delas siga o percurso de outra e elas representam para cada objecto a verdadeira FORMA da sua razão (da sua explicação). «L'aria e piena d'infinite linie rette e radiose insieme intersegate e intessute sanza ochupatione luna dellaltra representano aqualunche obieto lauera forma della lor changione» (Man. A, fol. 2). Esta frase parece conter o primeiro germe da teoria das ondulações luminosas, sobretudo se a compararmos e aproximarmos de algumas outras sobre o mesmo assunto. Ela dá a imagem do esqueleto de um sistema de ondas em que todas as linhas seriam as direcções de propagação. Mas eu não dou excessiva importância a este tipo de profecias científicas, sempre suspeitas; há demasiadas pessoas que pensam que os antigos já tinham inventado tudo. Além disso, uma teoria só vale pelos seus desenvolvimentos lógicos e experimentais.

Paul Valéry, in Variété I (pgs. 245/6).

Nota pessoal: para um melhor entendimento deste pequeno extracto de Valéry, importará saber que no capítulo em que está inserido, o Autor aborda a arquitectura, a construção de edifícios e o urbanismo.

domingo, 9 de março de 2014

A par e passo 82


Mas, enfim, há pessoas que gostam de publicar, que querem inculcar as suas ideias nos outros, que não pensam senão para escrever e que não escrevem senão para publicar. Estes aventuram-se assim no espaço político. E, aqui, desenha-se o conflito.
A política, obrigada a falsificar todos os valores que o espírito tem por missão controlar, admite todas as falsificações, ou todas as reticências que lhe convêm, que estão de acordo com ela e repele mesmo violentamente, ou proíbe tudo o que se lhe opõe.
Em suma, o que é a política?... A política consiste na vontade de conquista e da conservação do poder; ela exige, por consequência, uma acção de constrangimento ou de ilusão sobre os espíritos; que são a matéria de todo o poder.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pg. 285).

sábado, 11 de janeiro de 2014

A par e passo 74


Previno-vos que eu entro aqui naquele fantástico do espírito, sobre o qual escrevi atrás, referindo que nem Verne, nem Wells, nem o próprio Poe, o maior e mais profundo dos autores desta espécie, tinham ousado imaginar as possibilidades. Lembremo-nos, antes de mais, que não sabemos nada sobre o espírito em si e quase nada sobre os nossos sentidos. Aconteceu-me, algumas vezes, dizer a físicos, quando a conversa nos levava até às novidades e descobertas imprevisíveis, onde a ciência se embaraça nos nossos dias que, apesar de tudo, a retina deve ter as suas ideias sobre a luz, sobre os fenómenos ondulatórios nos quais se confundem as nossas expressões de linguagem antiga, matéria, energia, continuidade e descontinuidade.
- É preciso prever, dizia eu, que seremos obrigados, mais dia menos dia, a concentrar as nossas pesquisas sobre a sensibilidade e os orgãos dos sentidos.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pgs. 254/5).

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A par e passo 69


Considerada na pessoa do autor, a literatura é uma profissão singular. O material reduz-se a uma caneta e algumas folhas de papel; a aprendizagem, o ofício é aquilo que se quiser: de curta ou infinita duração. A matéria-prima é também aquilo que quisermos, encontra-se em qualquer lado; na rua, no coração, no bem e no mal. E, quanto ao trabalho em si, ele é indefinível, porque cada um pode dizer que pertence a esta profissão e quer vir a ser um mestre. (...) Afastemos a imagem romântica do poeta de cabelos compridos, de longa fronte fatal, que se sente transformar em lira ou harpa no meio das tempestades ou pela noite, ao luar, na margem de um lago... Nada de bom se faz nestas circunstâncias extraordinárias. Os melhores versos amadurecem no dia seguinte da inspiração.

Paul Valéry, in Regards sur le Monde actuel (pgs. 244/5).