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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Pinacoteca Pessoal 85


A escultura tem sido minoritária nesta rubrica do Blogue. Por outro lado, e por razões algo subjectivas, a iconografia religiosa não é também muito frequente aparecer por aqui.
Quanto à representação de Jesus Cristo, em pintura  moderna, tirando Gauguin, Rouault e Dali, creio que pouco mais, daquilo que conheço, me entusiasmou, esteticamente.
No entanto, este "Cristo em Majestade" (1954/5), do escultor Jacob Epstein (1880-1959), judeu americano naturalizado inglês, colhe todo o meu agrado. A escultura pode ver-se na Catedral Llandaff, em Cardiff.

sábado, 22 de junho de 2013

Retratos 10 : o Ben


Eugénio de Andrade escreveu um dia: "Não se escolhe, é-se escolhido". Mas há também encontros que nos orientam caminhos, bem como opções que não permitem senão uma escolha, em nome da solidariedade humana. Ou do dever, seja ele familiar, ou não. Que nos fazem inflectir, ou voltar atrás.
Provavelmente, eu nunca teria feito o trabalho de Seminário para a tese, na Faculdade, sobre John Updike (1932-2009), se não tivesse conhecido o Ben. Não me lembro como é que ele chegou àquela improvável República lisboeta, ou Lar, onde os saberes se misturavam numa Babel única e cristã: futuros engenheiros, historiadores, médicos, professores, advogados... E onde as paredes se juncavam de gravuras escuras de José de Guimarães, ainda com traços muito visíveis e influenciados por Rouault. Mas nesses anos 60, havia, apesar do dinheiro não ser muito, imensa alegria juvenil.
O Ben vinha de uma longa, em tempo, e extensa em geografia, viagem europeia, à boleia. Com pertences sucintos que se acomodavam numa mochila de campismo: livros, umas sandálias ortopédicas, de madeira, 2 ou 3 mudas de roupa, e pouco mais. Vinha cansado e ficou aboletado no Lar por quase um ano. Entretanto, aprendeu a falar português. Aquário e alto, escocês, com cerca de 25 anos, era filho segundo de uma família de agricultores, gostava do ar livre e do sol, de música, e parava muito pouco em casa. Era frugal no comer. Pagava a mensalidade da mesada que o pai e o irmão mais velho lhe destinavam da exploração da Quinta que trabalhavam, na Escócia.
Além disso, o Ben conseguiu criar uma banda de rock, com o António M. e um terceiro elemento, que teve algum sucesso efémero, chegando a ganhar um prémio num concurso do Parque Mayer. Depois, ia tocar a pequenas festas, ou discotecas, e assim arredondava o seu orçamento mensal. Foi-se criando uma boa amizade entre nós. Em Fevereiro de 1967, o Ben recebeu um telegrama da Escócia, em que o velho pai lhe comunicava que o irmão mais velho se tinha suicidado. E que precisava dele, para o amanho da Quinta. Respondeu prontamente à chamada.
À despedida, deixou-me dois livros de Henry Miller e umas sandálias de madeira, ortopédicas, que ainda usei uns bons dez anos. E também herdei "The Same Door", de John Updike, que li sofregamente. O Ben nunca mais deu notícias, embora tivesse prometido escrever...

quinta-feira, 28 de março de 2013

Pinacoteca Pessoal 48 : Salvador Dali


Vamos entrar no tempo de Páscoa.
Não haverá, porventura, tema recorrente mais repetido e executado, na pintura europeia, do que a Crucificação. A proliferação é tanta, pela iconografia religiosa ocidental, que quase me deixa indiferente, a mim que sou um agnóstico empedrenido e um pobre amador de pintura, com conhecimentos muito rudimentares. Porque me parece que as variações nessas inúmeras pinturas são mínimas e dependem apenas dos tiques característicos das escolas, ao longo dos séculos, do vestuário de época, do menor ou maior número de figurantes nos quadros. E da caracterização do Pathos expressivo dos rostos, que podem assumir crispação, dramatismo acentuado, ou apenas a expressão de uma compassiva serenidade, perante a morte de Cristo.
Apesar disto, das pinturas mais antigas, a Crucificação de Mattias Grünewald (Arpose, 2/4/10), não me deixa indiferente e considero-a uma obra-prima, também pelo dramatismo quase selvagem do tratamento do corpo de Cristo. E que faz toda a diferença, em relação a muitos dos quadros banais coevos. Preciso de vários séculos para chegar às obras de que volto a gostar pela sua simplicidade ou povertá: as crucificações pintadas por Gauguin (em 1889) e Rouault, em 1920. Mas a Crucificação moderna de que mais gosto, foi pintada em 1951, por Salvador Dali (1904-1989). Porque, ao fim de tudo, tem ainda algo de novo. 
Por isso, aqui fica.