Eurídice, ou a criação poética
Por íntimo discurso ou por fugaz acordo
é que me lanço mudo ao teu encontro, fogo,
como se fora vento a água em que me afogo
e margem possuída a asa em que te mordo.
Como se fora casa o corpo em que me abrigas
e feroz a distância em que me vendo, amor,
calando te persigo e só depois, rumor
tu me pertences. Luz lembrada por antigas
redes de sombra, areia remordida, leve,
onde passaram barcos procurando o mar
desta elegia, morte repetida, neve
onde me perco, amor - sinal de te encontrar.
Eu digo: não te vejo; ou: não me surjas mais
(rasgando a tua face em direcção ao cais...).
1969