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quarta-feira, 21 de março de 2018

Sic, a propósito do tempo que passa


Um só mau oficial
que ha em üa cidade
destrui a comunidade:
vede bem se faram mal
muitos desta qualidade.
Deus e el-rei nom sam servidos,
os povos sam destruidos,
a policia damnada,
a república roubada,
e os pobres oprimidos.


Miscelânea (estância XXXIII), de Garcia de Resende (1470-1536).


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Nota pessoal: por razões porventura líricas e primaveris, resolveu a Unesco consagrar o Dia Mundial da Poesia neste 21 de Março de 2018. Evitando o derrame lírico, optei, no entanto, por um excerto mais musculado, do séc. XVI, onde costumes e gentes são objecto de crítica, pela voz de Garcia  de Resende. Como hoje, aliás, também poderiam ser, numa ausência, que se vai notando, de ética e de princípios...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Jorge Manrique / Amancio Prada


A elegia "Coplas a la muerte de su padre", de Jorge Manrique (1440-1479), é - para quem não souber - um dos poemas maiores de Espanha.
Tendo em vista o tema, poderá ser polémica esta versão encenada, de Amancio Prada (1949), mas de que eu gosto particularmente.
Em jeito de curiosidade, e citando a informação de Garcia de Resende, lembro que este belíssimo poema de Manrique foi encontrado manuscrito por entre as roupas de D. João II (1455-1495), aquando da sua morte, em Alvor.

P. S. : eu sei que, para o cibernauta-médio, 17 minutos de vídeo (15, em acto lírico-musical) é muito tempo. Mas a Bíblia também diz: "muitos são os chamados, poucos os escolhidos"...

quarta-feira, 12 de março de 2014

Há 500 anos, foi assim...


Por palavras de Jerónimo Osório (1506-1580), que foi bispo de Silves, na sua Da vida e feitos de D. Manuel, traduzidas, do latim, por Francisco Manuel do Nascimento, teria sido assim:
"...Este ano ia já no fim, quando el-rei D. Manuel mandou ao papa Leão X três embaixadores: Tristão da Cunha, que era o principal, e Diogo Pacheco e João Faria, dois jurisconsultos muito autorizados em Portugal, por assessores, com um presente digno da sua magnificência real, que constava de sagradas vestimentas, lavradas de obra mui prima com muito ouro, muita pérola e pedraria, muita baixela também de ouro, e muitas jóias custosíssimas pelo peso e pelo valor; (...)
Fizeram êstes embaixadores finalmente sua entrada em Roma no dia 12 de Março de 1514, pela ordem seguinte: precediam os criados vestidos muito ao bizarro; seguia-se a onça nas ancas do cavalo pérseo, em que ia montado o persa caçador, depois o elefante com o seu cornaca; pequeno espaço de trás, no cavalo que já dissemos, Nicolau de Faria cerrava a primeira chusma. (...)
Tremia Roma inteira com o estampido da artilharia, quando apareceram ante o castelo Santo-Ângelo. Destecida a escuridão do fumo, chegou o elefante perto da janela donde o pontífice estava olhando; e, debruçando o corpo todo até afincar os joelhos, com todo o acatamento o saüdou assim três vezes, o que foi causa de muita maravilha para os que isto presenciaram. Mergulhando depois a tromba num grande tonel de água, borrifou quantos estavam pelas mais altas janelas; e daí voltando para a plebe, como por divertimento, copiosamente a orvalhou. ..."
Acrescente-se que Garcia de Resende ia por secretário desta embaixada ao Papa, que demorou uma semana (20 de Março de 1514) até receber os dignatários portugueses, no palácio pontifício. O elefante, a quem deram o nome de Hanno, sobreviveu em Roma, mais dois anos, mas morreu novo: com 6 para 7 anos de vida.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Idiotismos 19


Ontem, ao re-comentar um comentário, aqui no Blogue, utilizei uma palavra que faz parte de uma expressão popular e que, não lhe sabendo a origem, acho, pelo menos foneticamente, muito sugestiva. Trata-se da expressão dar-lhe um tranglomango, e fui procurá-la nos alfarrábios que por cá tenho.
Embora não cabalmente, valeu-me, uma vez mais, Alexandre de Carvalho Costa que, nas páginas 215/6 do seu primeiro volume ("Gente de Portugal - Sua linguagem - Seus costumes"), dá algumas achegas. O autor refere que o povo a usa para caracterizar uma morte repentina de que se não sabe a causa, ou um ataque de origem desconhecida.
Teófilo Braga e Carolina Michaelis também se teriam interrogado sobre o dito popular, mas sem concluir certezas quanto à origem. O primeiro inclina-se para que o vocábulo tanglomango designasse uma antiquíssima divindade de espírito maléfico; enquanto Carolina Michaelis a considera equivalente a tangro-mango ou tengo-mengo,  e aponta o texto português em que, pela primeira vez, aparece. Precisamente no Cancioneiro Geral (1516), de Garcia Resende, numa cantiga de termos obscuros, feita por Álvaro de Brito Pestana, dirigida a Pero Borges, que diz assim:

"...Arisco gozo corrido,
Saro rravalco, mostrengo,
Não há mais num bexodido
Quase, quase tengo mengo. ..."

As informações não ajudarão muito, mas foi tudo o que consegui saber...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Idiotismos 10 : ainda sobre argueiros e araújos


Falei aqui, algumas vezes, de argueiros e araújos, a propósito de uma visita importuna e indesejável, que vem ao Arpose. Referi, por exemplo, que araújo é um argueiro no olho - incómodo, portanto. Mas, há dias, vim a descobrir mais algumas coisa sobre este vocábulo.
O seu uso é antigo, porque já na "Aulegrafia" (1619), Jorge Ferreira de Vasconcelos refere: "...não sofrer argueiro nas orelhas...", no equivalente a pulga, decerto. Carolina Michaelis comparou-o, por sua vez, ao ácaro (daí a imagem). João Ribeiro (Frases Feitas, 1908) explica que argueiro é "qualquer partícula ínfima e levíssima das que andam no ar".
Por sua vez, no Rifoneiro português, embora com significado um pouco distinto, existe o provérbio: "Fazer de um argueiro um cavaleiro". E, mais uma vez, para me justificar e comprovar a sua antiguidade, cite-se do "Cancioneiro Geral" (1516) de Garcia de Resende:
Pode ser maior marteiro
Se no ombro cai argueiro
Que não se há-de espenicar?
E, já que estamos em verso, para terminar, registe-se da "Hora do Recreio", de J. Baptista de Castro:
Quem case não case às cegas,
Mas seja sagaz e astuto,
Argos em vez de argueiros
E nos lances lince agudo.
Por hoje, de araújos e argueiros, é tudo.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

De Diogo Brandão

Este poeta do Cancioneiro Geral, Diogo Brandão, pertenceria a uma família do Porto, e faleceu pouco antes de Agosto de 1529, ou em 1530, como Jorge de Sena refere. Terá sido criado na corte de D. João II. E Garcia de Resende incluiu várias composições suas na colectânea que organizou. Fez bem, porque Diogo Brandão é um poeta estimável. Segue uma esparsa de sua autoria.

Esparsa sua a uma senhora que se chamava "da Costa"

Quem bem sabe navegar
pola vida segurar,
a esperança tem posta
dentro no pego do mar,
mas aqui por se salvar
deve certo vir à Costa.
Porque, posto que naquela
de vivo se veja morto,
ganha-se tanto por vê-la
qu'é milhor perder-se nela
que salvar-se noutro porto.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Em louvor de Almeirim


Etimologicamente, o nome da cidade terá tido origem árabe. De 3.181 habitantes, em 1874, tem hoje um pouco mais de duas dezenas de milhar. Terá pouca importância, actualmente, mas D. João I, cujo aniversário do nascimento passa hoje (11 de Abril de 1357), deu visibilidade a Almeirim ao construir, lá, o Paço Real - ao que dizem. Região de vastos vinhedos, abastecia Lisboa do precioso néctar de tintos carregados. Por lá estadiaram D. Manuel I e o filho, D. João III. Lá imprimiu (?) Hermão de Campos o Cancioneiro Geral, em 1516, que Garcia de Resende coligiu. De lá se originou, em boa hora, a conhecida Sopa de Pedra. O Paço de D. João I terá ruído na altura do terramoto de 1755. Mas lá tinham sido estreados alguns autos de Gil Vicente. E, na carta a Pero de Carvalho, pelos seus bons ares e produtos agrícolas, também Sá de Miranda a louvou:

Isto que ora ouvis de mim
não sei se ouvireis d'alguem;
buscai, preguntai sem fim
no desejado Almeirim,
no farto de Santarém.

terça-feira, 6 de março de 2012

Bibliofilia 60 : camoneana




Este livrinho com a encadernação quebrada e em mísera situação tem, no entanto, o miolo e texto em boas condições. Comprei-o truncado porque é apenas o terceiro e último volume das obras completas de Luís de Camões, impressas em Paris, no ano de 1759, a expensas de Pedro Gendron. Por incompleto, comprei-o barato, em Lisboa, no ano de 1987, mas não me lembro, exactamente, por quanto o adquiri. Sei é que o li, à beira Reno, próximo de Colónia, em Agosto de 87 ou 1988. Com gosto e prazer.
Tem uma particularidade. É que inclui o poema, em 3 cantos, intitulado "Da Criação e Composição do Homem" que, durante cerca de 200 anos, foi atribuído a Camões. Só em 1824 foi descoberto, na Misericórdia de Guimarães, um manuscrito apógrafo das obras de André Falcão de Resende (1527-1599), que permitiu autenticar a autoria correcta e pertencente ao descendente de Garcia de Resende. Deixou, a partir daí, de ser incluído nas obras de Camões.
O poema, em si, é bem trabalhado e de boa cepa lírica. O que explica e justifica o engano. Se eu tivesse que acompanhar o poema "Da Criação e Composição do Homem" de imagens, escolheria um quadro de Hieronimus Bosch. Porque foi composto com uma imaginação lírica prodigiosa, embora com acentos renascentistas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A voz, D. João II e o Conde de Borba


Aqui há uns bons 30 anos, conheci alguém (R. de S.) cuja carreira profissional administrativa tinha sido feita, exclusivamente, nas Colónias, sobretudo em Angola. Tinha uma alcunha sugestiva mas de que eu desconhecia a origem e a que se devia. Era um homem urbano e afável. Ora, numa festa de aniversário, R. de S. pediu licença para discursar. E, quando ele começou, fez-se-me luz no espírito. A sua voz era empolgada e tonitruante. A alcunha de R. de S. era "O garganta do Império", e assentava-lhe que nem uma luva.
Lembrei-me do episódio, porque ontem li uma pequena história contada por Garcia de Resende, sobre o Conde de Borba, D. Vasco Coutinho, um próximo do rei D. João II. Ao que parece, o Conde quando falava baixo mal se ouvia mas, se falava alto, a sua voz dominava tudo. D. João II ter-lhe-á dito, um dia: "Conde, os vossos baixos são tão baixos que vos não ouve ninguém, e os altos tão altos que se não ouve ninguém convosco!"

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cancioneiro Geral (VI) : Garcia de Resende


Garcia de Resende a uma mulher que disse que ele ria muito


Tem-me tão morto o cuidado,
que me faz já não sentir,
e de muito transportado,
em vez de chorar vou rir.

Que se meu mal me lembrar,
como me lembrais meu bem,
meu prazer será chorar,
pois tão fora de cuidar
está em mim quem me tem.
E pois sou tão transportado,
que já não tenho sentir,
quem me vir folgar ou rir
creia que é de mor cuidado.


Nota: procedi a algumas actualizações ortográficas.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Memória 22 : D. João II



D. João II nasceu a 3 de Maio de 1455 e veio a falecer " sem pai, nem mãe, sem filho, nem filha, sem irmão, nem irmã, e ainda com muito poucos, fora de Portugal, no Reino do Algarve em Alvor muito pequeno lugar", em 1495, como escreveu Garcia de Resende na sua Crónica.
Rui de Pina compõe-lhe assim o retrato: "Foi El-Rei D. João II homem de corpo, mais grande, que pequeno, mui bem feito, e em todos os seus membros mui proporcionado; teve o rosto mais comprido, que redondo, e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos, e corredios; e porém em idade de trinta e sete anos, na cabeça, e na barba era já mui caão, de que mostrava receber grande contentamento, pela muita autoridade que a sua Dignidade Real suas caãs acrescentavam: e os olhos de perfeita vista, e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e magoas de sangue, com que nas cousas de sanha, quando era dela tocado, lhe faziam o aspeito mui temeroso. E porém nas cousas d'honra, prazer, e gasalhado, mui alegre, e de mui Real, e excelente graça: o nariz teve um pouco comprido, e derribado algum tanto sem fealdade. Era todo mui alvo, salvo no rosto que era corado em boa maneira. E até à idade de trinta anos foi muito enxuto de carnes, e depois foi nelas mais revolto. Foi Príncipe de maravilhoso engenho, e subida agudeza, e mui místico para todas as coisas; e a confiança grande que disso tinha, muitas vezes lhe fazia confiar mais de seu saber..."

quarta-feira, 24 de março de 2010

Salão de Recusados XII : O alheio




1. "...Té que vão os Portugueses
por venderem junto, e bem:
mais modo no trato têm
que Veneza, e Genovezes..."

Século XVI, Garcia de Resende.


2. "...os nossos, às vezes, falam de Germânias e de Américas, com linguagem de ervilhaca e olhos de pacóvios deslumbrados..."


Século XIX, José Policarpo da Sylva.


3. "...quem se entretem a falar dos outros países fá-lo, muitas vezes, por ignorar ou para esquecer o nosso...."

Século XXI, M. Tavares da Cruz.