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segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Um poema vertido do galego, de Celso Emilio Ferreiro (1914-1979)

 


Os Ratos


Um rato é uma coisa que se move,
uma coisa que vive pelos sótãos
e tem um coração pequerrichinho
e dois olhos de vidro sempre acesos.

Uma coisa que vai furando as trevas,
surge correndo, passa, foge e vai.
Um rato é uma coisa que está viva,
um entre só, depois já não é nada,
sombra nas sombras tristes dos buracos.

E a noite é um buraco sem orelhas
para os homens, tristes ratos sem refúgio.

Um homem é uma coisa que medita,
cismando sempre, sempre amargurado,
fugindo de outras coisas que se movem,
desarrumando papéis,
e remexendo, 
continuamente remexendo.
Sempre com pressa, atarefado sempre,
caminha, vai choutando entre os buracos,
nos sótãos do mundo,
nas estradas da vida,
nas pedras,
no vento,
nas ruas, 
nos seios das mulheres.

Um rato é uma coisa que se move.

Escuta-me Walt Disney, onde estavas?
que os meus sonhos de pombas não te viram?
Quando o meu coração era menino
e havia caravelas nos meus olhos?


(in Cartafol de Poesía, 1936) 

domingo, 23 de outubro de 2022

Adagiário CCCXLII e/ou Mercearias Finas 183



Pimientos Padrón, unos pican y otros non.


( Provérbio Galego)


Esta parceria temática em memória de A. de A. M., que tanto gostava deles e mos deu a conhecer.



segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Fernando Assis Pacheco (1939-1995), em sequência natural... e a Galiza


Não creio existir assim um testemunho português registado sobre FAP. Mas a Galiza, ao menos, não o deixou passar em branco, legando-nos esta pequena e viva gravação do poeta português, cujo avô era galego.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Manuel Maria Teixeiro (Galiza, 1930-2004)


Carta ao director de um Banco

Senhor Director: o Senhor sabe bem
que os números são justos,
negros, gelados, assombrosos.
São uma espécie de sociedade limitada,
anónima, triste, mercantil.
Só os zeros são humanos
ternos, redondos, bem alinhados.
Se o Senhor pudesse - mesmo que só hoje! -
brincar com os zeros como fazem as meninas
- milagre dos milagres -
jogando inocentes com seus arcos.

Manuel Maria Teixeiro, in Documentos Personaes.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

De um poeta galego


Eu quero oir teu silencio

Como na erva jovem ou à flor da água
quero ouvir teu silêncio, menina.

Um silêncio constelado de sorrisos,
onde os teus olhos sejam dois barcos ancorados.

Eu, único, marinheiro.

Uma funda alegria nas velas brancas, suaves,
- palavras que guardam ainda o ar da flor do linho -
esperando a manhã
em que eu deixe o cais e cego me embarque
capitão dos teus olhos veleiros.


Aquilino Iglesia Alvariño (1909-1961).

domingo, 27 de maio de 2012

O Paraíso reinventado, ou confundir o desejo com a realidade


Era uma vez...
Daqui a muitos anos, quando já nenhum de nós for vivo, a Galiza amiga voltará a reunir-se com o Portucalense condado, e tudo voltará ao início. Biblicamente, ao princípio voltará a ser o verbo.
Rosalía, comovida, terá longos diálogos com o bom do velho Sá, em Amares. Julio Camba vai cozinhar a 4 mãos com Couto Viana e a irmã do poeta, cantarolando entretanto, há-de ir descascando as batatas. Os pimentos Padrón vão alinhar, gulosos, na mesa de Assis Pacheco e Camilo José Cela, e não haverá esquerda nem direita, mas apenas fraternidade. Até Fraga Iribarne, emocionado mas convivial, há-de partilhar um bom cozido à portuguesa, com Santos da Cunha e com Rui Rio que, bastante menos economicista e, embora liberal, vai apoiar a Cultura, com generosidade e alegria.
A troika será uma infâmia impossível e a moeda não terá circulação, nem será precisa. Poderão trocar-se diospiros por cebolas, ou chouriços por um frango, intermediados por um sorriso amigo, leal e confiante. Martim Codax há-de dizer um poema, acompanhado por adufes, flautas e sacabuxas harmoniosas. Afonso X irá presidir, e o neto Dinis, ainda criança, vai bater palmas, entusiasmado. Acídulo e fresco, um Albariño das Rias baxas refrescará as gargantas. E a noite virá de mansinho para não estragar a alegria do reencontro fraterno e sem fronteiras. E outros países virão juntar-se à festa, trazendo wurst, krakauer, camembert, tokay, pesto...eu sei lá!, para partilhar entre si.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Os aleijadinhos



O noroeste peninsular, seja ele espanhol (Galiza), seja português (Minho), faz uso abundante de diminutivos para expressar carinho, sublinhar ternura e derramar sentimentos de caridade, em relação aos infelizes (coitadinho), aos deficientes (ceguinho), aos frágeis e desprotegidos da sorte (pobrezinho) e até mesmo em relação às crias pequenas (cãozinho, cabritinho), etc.. Como, do Minho, foi a minha meninice e adolescência, também não estou imune a este hábito enraízado.
Mas este costume também se fez norma de afecto noutras terras de língua portuguesa. Por exemplo, o primeiro aleijadinho que se me gravou na memória cultural, foi o luso-brasileiro António Francisco Lisboa (1730-1814), santeiro de pedra, genial, com as suas obras de Congonhas (Brasil), além de outras. Pois o mestre escultor é muito mais conhecido pela alcunha (Aleijadinho), do que pelo seu nome de baptismo.
O segundo aleijadinho, na minha memória histórica, só o foi para o final da vida, e era americano e hemiplégico. Soube combater, corajosamente, a Depressão de 1929 e teve um papel preponderante na vitória dos Aliados contra o nazismo, durante a II Grande Guerra. Refiro-me a Franklin D. Roosevelt (1882-1945).
O terceiro aleijadinho, de recordação mental, é português. Um acidente de helicóptero, amarrou-o à cama, durante largos meses, pouco depois do Verão quente do PREC de 1975. Era Pires Veloso (1926), general, e pela sua influência e poder chamavam-lhe, então, vice-rei do Norte. Todos os políticos portugueses o iam visitar - era de bom tom, e importante - para lhe pedir conselhos ou obter o seu apoio, na altura. Hoje, pouca gente se lembrará dele.
Este trio de aleijadinhos, de que falei, é-me simpático. São aleijadinhos da minha estimação e memória. Mas passemos ao quarto, e último dos deficientes.
Vítima de um atentado, em 1990, que o deixou hemiplégico, o quarto aleijadinho é o todo poderoso ministro (europeu) das Finanças, alemão, Wolfgang Schäuble (1942). Diz com sobranceria e arrogância tudo o que lhe vem à cabeça e insulta, economicamente, sobretudo os países do sul da Europa, impunemente. Foi preciso o Presidente da República grega, Karolos Papoulias (1929), há dias, responder-lhe à letra, ofendido, para ele se calar, na sua cadeira de rodas. Infelizmente, a grande maioria dos políticos europeus quase ajoelham em frente a este aleijadinho de corpo e alma - porque nem todos têm espinha dorsal erecta.
Acho que vou deixar de lhe chamar aleijadinho, esquecendo a compaixão minhota. Vou passar a apelidá-lo de: vice-reizinho da Europa. Porque a Rainha, já nós sabemos quem é...