Dona Leocádia é uma condómina estimável e idosa do meu prédio, apesar do seu gato preto ser irreverente e indisciplinado. Ainda hoje, ao fim da tarde, encontrei a pobre da senhora aflita, à procura do Miqui, que se escapulira por uma nesga de porta aberta que a dona Leocádia entreabrira para assinar a recepção de uma carta registada.
O pequeno felino parece divertir-se a desinquietar e pregar partidas à dona septuagenária, que lhe tem um carinho especial e que - julgo eu - o trata com imenso desvelo. Quando ela me perguntou : Não viu o meu gato preto?, eu senti um aperto de solidariedade no coração, mas lembrei-de, também, de uma frase de Montaigne, inserta nos Essais.
E que diz assim: Qui sait si ma chatte ne tire pas plus son passe-temps de moi que je ne fais d'elle? *
Até porque não tenho muitas dúvidas que alguns donos são autênticos escravos dos seus animais de estimação.
* Ora traduzamos, liberrimamente : "Quem sabe se a minha gata não tira muito mais proveito de mim, como passatempo, do que eu, dela."
E que diz assim: Qui sait si ma chatte ne tire pas plus son passe-temps de moi que je ne fais d'elle? *
Até porque não tenho muitas dúvidas que alguns donos são autênticos escravos dos seus animais de estimação.
* Ora traduzamos, liberrimamente : "Quem sabe se a minha gata não tira muito mais proveito de mim, como passatempo, do que eu, dela."