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domingo, 13 de julho de 2014

Transmigrações


A vida do poeta alemão Gottfried Benn (1876-1956) está envolta em controvérsia, desde o momento em que foi o médico que acompanhou o pelotão de fuzilamento, na Bélgica, da enfermeira inglesa Edith Cavell, em 1915, no decurso da I Grande Guerra, até à sua simpatia e sequente inscrição no partido nazi, em 1933. Mas isso apenas ensombra um pouco a alta qualidade da sua obra literária. Se devemos julgar, ou não, um artista pelos seus actos e tomadas de atitude, como homem, e penalizar a obra, é um outro problema que, aqui, não vem para o caso. Mas não deixa de ser verdade que, quase sempre, a biografia exsuda para a obra, sobretudo, quando poética, pelo menos ao nível dos sentimentos e emoções, ainda que de uma forma transfigurada e posterior.
Sem preocupações excessivas de fidelidade canina ao texto original, dou conta de uma tradução um pouco livre, que fiz, com a preciosa ajuda de HMJ, do poema Verhülle Dich, de Gottfried Benn. Segue:

Apaga-te por trás de máscaras, e da caracterização
teatral, e pisca os olhos para dar ideia que vês mal,
nunca dês a perceber o quanto és céptico
e bem triste, lá no fundo, dessa face rotunda.

Na luz crepuscular dos jardins, ao entardecer,
o céu é ainda uma brasa incandescente e a noite
pode encobrir as tuas lágrimas e a dureza
já não se pode ver na face esmaecida.

Os desencontros, feridas, transições
no mais íntimo onde a destruição te confronta,
disfarça, faz como se as canções distantes
viessem duma gôndola visível e autêntica.

E, porque em todos os homens, há sentimentos semelhantes, ao traduzir este poema de Gottfried Benn, vieram-me à ideia, por aproximação, os versos de Eugénio de Andrade (do livro "As Palavras Interditas") e que começam assim:

Cansado de ser homem o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água...

Se não transcrevo, por inteiro, o poema de Eugénio é porque alongaria excessivamente este poste. Mas também por desafio às visitas, para que o procurem e o leiam por inteiro. Estou certo que não darão por perdido, o seu tempo...

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O bonito, o belo e o feio


O bonito gera mais amplos consensos de agrado, em Arte, do que o feio, quando representado. Para, esteticamente, apreciarmos o "feio" é sempre necessário ultrapassarmos alguns obstáculos pessoais, sociais e até, por vezes, de cânone consagrado no Tempo. É muito mais fácil gostar ou aceitar a pintura dos pré-rafaelitas, do que admirar a obra de um Chaim Soutine ou de Francis Bacon. Pelo meio ficarão decerto Munch, Lucian Freud ou Paula Rego, e tantos outros pintores. Comecei pela Pintura, para chegar a outra arte. O poema (traduzido por João Barrento, para a Relógio d'Água) que vou transcrever, foi escrito por Gottfried Benn (1886-1956), escritor alemão que exerceu medicina, civilmente e no exército alemão. É, na minha opinião, um bom poema, embora possa não ser considerado "bonito". Intitula-se "Kleine Aster" (Pequena Sécia). Aqui fica:

Um carroceiro afogado foi içado para cima da mesa.
Alguém lhe tinha enfiado entre os dentes
Uma sécia, de um lilás claro-escuro.
Quando, a partir do peito,
por debaixo da pele,
lhe arranquei a língua e o palato
com uma grande faca,
devo ter-lhe tocado, porque ela escorregou
para o cérebro que estava ao lado.
Meti-lha na caixa torácica,
no meio das aparas de madeira,
quando o cosiam.
Bebe no teu vaso até à saciedade!
Descansa em paz
Pequena sécia!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Gottfried Benn e Chopin




Mão amiga me trouxe, ontem, uma voz desconhecida para mim: Gottfried Benn (1886-1956), poeta alemão. Os poemas são traduzidos por Vasco da Graça Moura e, embora não cotejados com os originais, as versões parecem-me de grande qualidade. Escolhi "Chopin".
Não muito fecundo na conversa,
as ideias não eram o seu forte,
as ideias vão de roda,
quando Delacroix desenvolvia teorias
ele ficava inquieto, por seu lado
não podia dar razões para os Nocturnos.
Fraco amante:
sombra em Nohant
onde os filhos de George Sand
nenhum conselho proveitoso
lhe aceitavam.

Doente dos pulmões,
com hemorragias e formação de cicatrizes
naquele modo que se arrasta;
morte tranquila
ao contrário de uma
com paroxismos de dor
ou com salvas de tiros:
encostaram o piano (Erard) à porta
e Delphine Potocka
na hora extrema
cantou-lhe um Veilchenlied.
Viajou para Inglaterra com três pianos:
Pleyel, Erard, Broadwood,
tocava a vinte guinéus por noite
um quarto de hora
nos Rothschilds, Wellington, em Strafford House
e perante inúmeras jarreteiras;
sombrio de fadiga e do acercar da morte
voltava para casa
no Square d'Orléans.
Depois queimou os seus esboços
e manuscritos,
sobretudo nenhuns restos, fragmentos, notas,
esses indícios traiçoeiros -
e disse no fim:
«As minhas tentativas consumaram-se à medida
do que me era possível alcançar».
Cada dedo devia tocar
com a força correspondente à sua estrutura,
o quarto é o mais fraco
(só irmão siamês do dedo médio).
Quando começava, pousava-os
em mi, fá sustenido, lá sustenido, dó.
Quem dele já ouviu
certos Prelúdios,
seja em casas de campo ou
em colinas
ou por portas abertas de terraços,
por exemplo, de um sanatório,
dificilmente o esquecerá.
Nunca compôs uma ópera,
nenhuma sinfonia,
só estas progressões trágicas
de convicção artística
e com uma mão pequena.

Nota breve: G. Benn exerceu durante a sua vida a profissão de médico. Enquanto lia este poema não pude deixar de pensar na "Arte de Música" de Jorge de Sena.