Mostrar mensagens com a etiqueta Cícero. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cícero. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Retratos (24)



Esguio, muito seco de carnes, pele muito branca, o que nele mais surpreendia era o aperto de mão musculado e forte vindo de uma tão aparente fragilidade corporal. 
Naquela vilória desengraçada e repetida, encontrá-lo era um oásis de frescura, no meio das minhas deambulações profissionais desinteressantes. E o prólogo apetecido de dez dedos de conversa estimulante. Bancário reformado, viúvo, pertencera à tertúlia lisboeta de José Marinho, era um ledor compulsivo e os seus diálogos tinham quase sempre um pendor filosofante.
Ele no início dos seus 80, eu a entrar nos sessenta, apesar da diferença de idades, fizémo-nos amigos leais, porque nos entendíamos facilmente. Trocámos muitas ideias e livros, mas há mais de 5 anos que o não vejo. O mais provável é já ter falecido, seguindo talvez o seu amigo Luís Amaro que lhe morava perto e de quem me falava muitas vezes.
O que eu não posso esquecer é que referindo-lhe eu, esmorecido, as leituras de Cícero (De Senectute) e Simone de Beauvoir (La Vieillesse), nos preparatórios para a velhice, J. Braga me tivesse oferecido, alguns dias depois, os Comentarios sobre la Vejez..., de Blanco Soler. Que foi, até hoje, o melhor livro que li sobre o assunto. E que conservo, religiosamente.
E já que falei de coisas santas, e a ele, que era crente, lhe desejo daqui a tranquilidade filosofante, lá, no assento etéreo, para onde provavelmente subiu.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Andar


A primeira vez que reparei no movimento e estética de uma forma de andar ou caminhar, deveria ter cerca de 8 anos. Essa impressão, agradável, de uma pessoa, por mim estimada, viria a transitar, cerca de doze anos depois, para 2 versos de um poema perdido:

"...o honesto caminhar de mãos nas costas
do norte beira-mar..."

Mas com 10 anos já eu gostava de imitar este andar, de mãos atrás das costas, porque achava que trazia ao movimento do corpo uma elegância acrescida e uma seriedade notória.
Lembrei-me disto, hoje, ao ler no TLS (nº 5693), uma recensão ao livro "Walking in Roman Culture", de Timothy O'Sullivan, feita por Mary Beard. Há, nele, referências a Estrabão que transmitiu, em escrito, que os bárbaros ibéricos teriam achado exótico e inútil o facto de um general romano andar de um lado para outro, para pensar. Para os bárbaros, andar só tinha sentido se fosse para A ir ao encontro de B, ou na guerra, em avanços e recuos...
Na recensão crítica do TLS, também se faz alusão ao facto de, para os romanos, o andar masculino ser, por norma, mais enérgico e rápido, e o caminhar feminino, mais lento. De tal forma que Cícero, ao ver a filha e o genro a passear, achou que a filha andava muito depressa e o genro muito devagar (mollius); e disse para a filha caminhar como o marido, abrandando o passo, e que o genro copiasse o ritmo da filha - mais rápido, portanto. 
Na época, o modo de andar era tão importante quanto as parecenças faciais, para reforçar a evidência da paternidade...o que, hoje, nos pode parecer simplesmente uma bizantinice despropositada. Mas, quem sabe?...