Era um bicho muito estranho, com aquela carapaça espessa, um pouco rugosa e áspera, muito diferente da dos caracóis, fina e frágil, única que conhecia, até aí, naqueles meus tenros anos de infância. Depois, era um animal pouco expressivo, para não dizer inexpressivo. E parecia, na sua dureza, já ser velho ou ter milhares de anos. Foi, lá para casa, levado numa caixa de cartão, com furinhos, e lá o fomos soltar no pequeno quintal vimaranense.
Há dias, e no andar em frente, que tem um terraço grande, talvez porque por lá andam duas crianças, os pais compraram-lhes dois cágados médios. Pelo desleixo e desarrumação desse espaço ao ar livre, temo pelos bichos, porque a família me parece muito desatinada.
O meu cágado da meninice era bem tratado e até tinha direito a uma pequena ração semanal de carne, que ele despedaçava, com impaciência agressiva, entre as suas unhas fortes e a boca. num esforço titânico que me parecia pré-histórico. Hibernava também, reaparecendo pela Primavera. Apesar do bom trato, um dia, e já depois de duas tentativas, em que foi recuperado no quintal vizinho, à terceira evasão foi bem sucedido e desapareceu, para sempre, da minha infância...