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terça-feira, 22 de novembro de 2022

Osmose 128



De uma forma lapidar e para sempre (?), C. P. Snow (1905-1980) chamou a atenção, a tempo, para o divórcio entre as duas culturas: Ciências e Humanidades. Mas até mesmo dentro destas duas grandes divisões, entre os seus cultores, há apartados muitas vezes inamovíveis. Não fora, na juventude, o meu convívio amistoso com três colegas, na mesma república estudantil, eu talvez ainda ignorasse nomes importantes de outras áreas das letras. Eduardo Brasão e Orlando Ribeiro, por exemplo. Em troca, eu dei-lhes a conhecer Eugénio de Andrade e Ruy Belo, entre outros. Com isso, viemos a beneficiar e alargar os nossos horizontes culturais.
Lembrei-me disso ao ler um texto muito interessante de Orlando Ribeiro (1911-1997) a descrever a Serra da Estrela. Porque penso que não é nada fácil fazê-lo, do ponto de vista geográfico. Um pequeno excerto,  assim:




" A Serra da Estrela (1.991 m) individualiza-se bem, pela sua massa que avulta por tempo claro e chega a ver-se do Sul do Tejo, pela neve, que, no Inverno, cobre e faz sobressair a parte mais alta, pelas nuvens que até tarde, na Primavera, lhe envolvem e ocultam os cimos. É um dorso enorme, escalvado, monótono e imponente pelo volume, mas sem o fino recorte do Caramulo, por exemplo. O limite SE da serra está numa queda muito brusca de 1.000 m que, vista de longe, figura uma parede quase vertical com as amolgadelas das gargantas ocupadas por antigos glaciares. Aqui acaba o granito, que forma a parte principal e mais elevada da Estrela; para Ocidente, dum e doutro lado  do Zêzere, o xisto é o material de todo o relevo."

Orlando Ribeiro, in Guia de Portugal, III vol. - Beira Baixa.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Genomas


As classificações, científicas ou literárias, regionais ou universais, são meramente indicativas, para os humanos melhor perceberem os conteúdos e as eventuais afinidades, em boa parte dos casos.
O sangue não é, à partida, um ADN absoluto de pertença e herança. A contiguidade e o meio ambiente de convívio têm sempre uma influência maior e decisiva na formação dos seres humanos.
Só a memória, se agradável, no e do passado, pode servir, algumas vezes, de verdadeiro elo de afecto residual ou permanente, para religar este fiozinho humano que se prolonga, de geração em geração, às vezes, intermitentemente. E quase por milagre.


P.S.: desprovido,  que sou, de uma formação científica bastante, de que falava C. P. Snow, peço que me desculpem qualquer impropriedade mais gritante, no texto acima.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O número 3 em questão : considerações dispersas e inconclusivas


1. As decisões indiscutíveis do Tribunal Constitucional alemão são notícia frequente, por cá. Na Alemanha, de forma definitiva e peremptória. Mas, na Alemanha, as deliberações do congénere português também são, por vezes, título de primeira página, embora de forma interrogativa.
Estranho que nunca tenha lido nada sobre o Tribunal Constitucional grego. Será que existe?
2. As idades somadas, do trio à mesa da esplanada, davam uma média de 49 anos para cada um. As opções foram: filetes de pescada, pescadinhas (as marmotas nortenhas) fritas e carne de porco à alentejana. Mas a última dose, por excessivamente generosa, ainda foi dividida pelos que tinham escolhido peixe.
3. Entre as duas Culturas, de que falava C. P. Snow, e uma terceira, neutra, mas ambivalente, alguém propôs, por ordem de grandeza das artes, esta sequência dogmática: Música, Poesia e Filosofia. Inexplicavelmente, a Ciência ficou de fora...  E da Justiça nem se falou.

sábado, 23 de abril de 2011

O uso ligeiro das palavras e dos números





É conhecido o fosso que separa, habitual e culturalmente, os homens da Ciência dos homens da escrita ou das Letras. O assunto foi abordado, e bem, por C. P. Snow (1905-1980) no livro "The Two Cultures", em 1959. Snow sabia do que falava porque era, ao mesmo tempo, físico e romancista. A frequente ignorância, dos cientistas, pelas Humanidades e dos literatos, pelos números, acentuou-se muito, nos últimos tempos. E contribui para a leviandade de alguns raciocínios que, por obrigação, são feitos com palavras.



Li hoje, no jornal "Expresso", de 22/4/11, uma entrevista a um jovem professor (Ricardo Reis) de economia, na Universidade de Columbia, onde a "leveza" com que usa as palavras ao abordar alguns temas, quase me pareceu roçar a demagogia. A uma pergunta do jornalista: "...a produtividade é baixa porque os salários são altos, é verdade?"; o jovem professor responde: " A resposta tem duas versões. A primeira diz-nos: a crise que hoje vivemos deve-se à subida dos salários na última década, incluindo a subida em 2009 - uma decisão eleitoral do primeiro-ministro, José Socrates. Um erro terrível: os nossos custos por trabalhador são hoje 30% mais caros do que na Alemanha. ..." Será que o nóvel economista desconhece que o salário mínimo de Portugal é o mais baixo, ou dos mais baixos, da UE.? E que os salários altos portugueses são, na UE, dos mais elevados? Nem uma palavra sobre a organização do trabalho, em cada um dos países, nem uma frase sobre as agências de rating e a sua co-responsabilidade na crise... Com raciocínios destes, com esta leviandade no uso das palavras, o que é dito, na entrevista do "Expresso", parece-me apenas um abuso demagógico e irresponsável.