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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Do que fui lendo por aí... 76



Do antelóquio de O Capitão Pedro de Faria e Sousa aos que lerem:

" A inteligência é um dom divino que o Criador reparte entre os mortais como lhe apraz, dando a uns mais e a outros menos, sem que êles por si o possam adquirir.Por isso nuns o vemos grande, mediano em outros, pouco em muitos e em alguns tão escasso que mal se lhes conhece. E certo é que, se eles a pudessem adquirir por si, prefeririam o maior ao menor, porque o homem ama sempre o que é bom e, como disse Aristóteles na sua Metafísica, deseja normalmente saber. De não poder-se adquirir por si, disseram os poetas antigos que neles falava Deus: e diziam assim por sentirem que procediam com mais inteligência que os mais dos homens. Nestes a inteligência não se revela por outro meio que o das suas obras; e se estas forem boas, medianas ou más, será bom ou mediano ou mau aquêle entendimento."

Manuel Faria e Sousa, in Ásia Portuguesa (pg. 15).

P. S.: em jeito complementar posso referir que a obra, em 6 volumes, me custou, em finais do século XX, Esc. 4.500$00. O alfarrabista In-Libris tinha, recentemente, um conjunto semelhante para venda pelo valor de 230 euros.

domingo, 31 de maio de 2026

Uma louvável iniciativa 70

 

Com edições fac-similadas inferiores a 1.000 exemplares (normalmente, 987), a M. Moleiro Editor lança no mercado livreiro, ciclicamente, títulos de originais únicos e preciosos elaborados com preocupação de grande qualidade gráfica e textual.



Desta vez, o encarte publicitário faz referência, entre outros, ao Livro de Horas de Jean de Montauban, ao Pergaminho Vindel ("Cantigas de Amigo de Martin Codax") e ao Roman de la Rose, do rei Francisco I. Embora caras, estas obras serão uma mais valia para quem as possa consultar.



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Bibliofilia 232

 
Em associação algo insólita, a Impressão Régia, sob o patrocínio de António Lourenço de Caminha (?-1831), editou em conjunto uma obra histórica sobre Coimbra, de António Coelho Gasco (1595-1666), e obras poéticas inéditas de António de Abreu, que teria sido amigo de Camões, na Índia, e cujos frontispícios dos livros se apresentam em imagem. O exemplar que possuo, desencadernado mas em bom estado, foi impresso em 1807, na sua segunda edição, sendo a original de 1805.
Creio que depois dessas datas os títulos não mais foram reeditados.



Não sendo frequentes as obras, são consideradas raras por alguns alfarrabistas. O meu exemplar, de 1807, foi comprado no início do século XXI por 40 euros. No entretanto, a Bestnet vendeu um da edição original por 100 euros e a Livraria Alfarrabista Liliana Queiroz, da segunda impressão, outro por 350 euros.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Da leitura 65

 


GEMIDO XXXIV

Meteram-se em uma barca os Discípulos com o Senhor, resolvendo-se a não deixá-lo nas tribulações do mar, assim como o tinham seguido nas prosperidades da terra: mas em se fiando das ondas, começou com cerração escura a cair o Céu em nuvens, o ar em chuva, o fogo em raios, os horizontes em ventos, & todo o mundo em confusão, pois o mar se erguia em montanhas, o vento se precipitava em serras, o dia se desfigurava em sombras, o Sol se descorava em trevas; em cuja turvação medonha, cheio tudo de horror, & assombro vagava a mísera barquinha padecendo, quase sorvida da voracidade das ondas, em cada momento um risco, em cada vaivem um naufrágio: viram-se a risco de perder-se os mesmos escolhidos de Deus; desconfiaram de remédios por todas as vias humanas, & recorreram ao Senhor, que dormia, parecendo que no descuido se esquecia dos seus mimosos, & do governo das criaturas. (pg. 134) 
 (Procedeu-se a uma actualização ortográfica do texto original.)

Fr. António das Chagas (1631-1682), in Obras Espirituais.

Nota pessoal: se privilegio o estilo clássico de escrita, nem sempre o barroco me deixa indiferente. A obra de Fr. António da Chagas, pelo seu artifício industrioso, exerce, por vezes, algum fascínio sobre mim.

domingo, 3 de maio de 2026

Surpresa

 


Este livro, cuja capa encima o poste, foi acabado de escrever por Teixeira de Pascoaes (1877-1952), em São João de Gatão, a 17 de Outubro de 1944, tendo saído para as livrarias em 1945. Comprei-o usado e em bom estado, na rua do Alecrim, nº 44 (Lisboa), por Esc. 1.700$00, brochado.
Sempre gostei de folhear catálogos de leilões de livros e boletins bibliográficos que me permitem conhecer características próprias das edições, bem como a evolução dos preços de livros antigos e usados. Por vezes, algumas surpresas ocorrem, que me apanham desprevenido.
Foi o caso, recentemente, e a propósito do I Salão do Livro Antigo, a decorrer no Porto, que estive a consultar o catálogo do ANNO QUARTO/12, deparando-se-me dois lotes, com preços que considerei, com franqueza, algo desproporcionados, na minha perspectiva.
Refiro-os, ambos primeiras edições: o lote 69 (Nobre, António - Despedidas, Porto, 1902), com o preço base de 210 euros, e o lote 73 (Pascoaes, Teixeira - Santo Agostinho, Porto, 1945), com uma estimativa de venda de 350 euros. Serão bem vendidos, se o forem...

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Bibliofilia 231

 

Há livros quase perfeitos. De conteúdo, no aspecto gráfico, até por vezes na sua proporção acertada e justa. Mas raras são as obras que cumprem todos os desideratos de equilíbrio. Este, cuja capa encima o poste, preenche, na minha opinião, o meu gosto estético geral. Pertence a uma editora francesa, que eu desconhecia, e a uma colecção Géants que inclui também volumes com citações de Coco Chanel, Yves Saint Laurent e Dalai Lama, entre outros. O voluminho saiu em 2010 e terá custado 9,90 euros, originalmente.



As fotografias e imagens que ilustram a obra são quase todas excelentes. Traduzindo, aqui deixo uma citação de Winston Churchill (1874-1965), alusiva à temática em questão:

"É uma coisa boa para as pessoas pouco instruidas ler livros de citações... As citações, uma vez gravadas na memória, ajudam a pensar. E elas dão vontade de ler os autores e de saber mais.


agradecimentos a H. N.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Divagações 215

 

Eu creio que qualquer país, que se preze, tem sempre actualizada e acessível uma seleção de obras e autores clássicos da sua literatura. Por iniciativa privada (Rolland, Bibliotheca de  Clássicos Portuguezes [Mello d'Azevedo]), no nosso caso, ou institucional (IN-CM), sobretudo no consulado de V. da Graça Moura (1942-2014), esse cânone deve poder ser adquirido, facilmente, por quem queira acompanhar a sua história e cultura.
Julgo, por exemplar, dever destacar o meritório trabalho, no passado, da Colecção de Clássicos Sá da Costa.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Bibliofilia 230

 

Alentejano de gema, António de Macedo Papança (1852-1913), que foi nomeado Conde de Monsaraz pelo rei D. Luís, publicou o seu primeiro livro de versos, Crepusculares, em Coimbra, no ano de 1876. A obra grangeou-lhe apreço e popularidade, pela sua qualidade, embora com algum tom de raiz regionalista, filiando-o como naturalista e parnasiano. O poeta teve também relações de boa amizade com Cesário Verde.



Hoje é, porém, um poeta esquecido e creio que, de há muito, não é reeditado. O meu exemplar, considerado muito raro pelo alfarrabista que mo vendeu (Esc. 780$00), em finais do século XX, está em bom estado, tendo dedicatória, do autor, a António Maria Seabra de Albuquerque (1820-1892), que foi funcionário da Imprensa da U. de Coimbra e autor de diversas obras históricas e genealógicas. As palavras da oferta estão datadas de Reguengos (de Monsaraz) a 27/8/80.



Exemplares semelhantes tiveram, em leilão, preços diversos, que foram de 40 euros (Livraria Académica) até 50 euros (Livraria Esquina, Porto).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Saber esperar

 

Ao longo da minha vida, comprei alguns livros a preços excessivos, por vezes. Isso deveu-se à urgência de eu ter determinada obra à mão, para estudo, ou à passagem de alguma data comemorativa referente ao autor, que encarecia o produto, temporariamente. Em finais do século XX, as Obras de Sá de Miranda, na sua primeira edição (1595) atingiram um pico bastante alto de preço pela passagem do 4º centenário da sua impressão por Manuel de Lyra, em Lisboa.
Outro exemplo notório de procura e alta de preço deu-se com a Mensagem (1934), de Fernando Pessoa, cuja edição terá sido de 600 exemplares,  de que damos a evolução de valores, ao longo do tempo, e que muito recentemente tinha, na leiloeira ANNO QUARTO, uma estimativa de venda de 2.000 euros. Pois os mais recentes exemplares, saíram assim:

- Leiloeira de Serralves 2011 : 2.500 euros.
- Livraria Castro & Silva : 10.000 euros.
- Bestnet : 4.800 euros.
- José Vicente Leilões, 2019 : 27.850 euros (edição escrita à máquina, com dedicatória manuscrita do poeta para a  irmã).

As variações de preços acabam por ser difíceis de explicar...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Bibliofilia 229

 

É um dicionário monumental, este de Jean-Yves Dournon (1928-2011), reputado lexicógrafo francês, que coligiu 10.000 citações de 850 autores de língua francesa, em 910 páginas de um grosso volume, editado em 1982.
Certamente que já houve melhores tempos para dicionários e enciclopédias, antes porém que a internet viesse ocupar o seu lugar, embora com menos credibilidade. Isso explica talvez que esta obra, usada, me tenha custado apenas 7,5 euros. Posso acrescentar que o livro me tem dado imenso jeito...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

De um livro rejeitado de E. de. A.

 

Em geminação com a Livraria Lumière, que se lembrou do aniversário de Eugénio de Andrade (1923-2005), hoje, aqui deixo um pequeno e singelo poema do terceiro livro (Pureza, 1945) do Poeta, menos conhecido, pois não mais foi reeditado.

Madrigal

Coisinha frágil...:
Teu corpo perdeu-se
no meu coração.

Queres encontrá-lo?
- Tenho-o fechado
na minha mão.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Bibliofilia 228

 


É um livrinho estimado, bem encadernado, e que adquiri em finais dos anos 80 do século passado, em Lisboa, por Esc. 780$00, ao sr. Tarcísio Trindade, na rua do Alecrim. Curiosamente, a obra não consta, ao que parece, dos arquivos da BNF.
O seu autor, Raphael E. M. de Noter (1857-1936), belga naturalizado francês, era um linguista, mas também biólogo e agrónomo. Esta obra, sobre o calão francês, foi editada em 1901. Desta mesma impressão, em leilão do Palácio do Correio Velho (lote 140), em 2021, constava um exemplar, com uma estimativa de venda entre 15 a 30 euros.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Bibliofilia 227

 


Não será rara nem cara esta obrinha de 48 páginas, em imagem acima, pois se trata de uma impressão  facsimilada de uma edição de 1918 (tiragem de 100 exemplares), que Edgar Prestage promoveu, tendo por base o original Craesbeekiano de 1658, dedicado à rainha D. Luisa de Gusmão (1613-1666).
Este meu exemplar é de 1940, integrado na colecção dos centenários da Restauração, que hoje se comemora, e foi organizado pelo prof. M. Lopes d'Almeida (Coimbra), mais tarde ministro da Educação.
Do texto se diz que terá sido ditado por João Rodrigues de Sá e Menezes (1619-1658), 3º conde de Penaguião, ao Padre Vicente de Guzman Soarez (1606-1675), que, por sua vez, o escreveu. E bem.



sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Ainda Eugénio

 

Por opção e exclusão pessoal não mais voltaram a editar-se as primeiras três obras de Eugénio de Andrade (1923-2005): Narciso (1940), Adolescente (1942) e Pureza (1945), sendo que a sua bibliografia canónica se inicia, na prática, com As Mãos e os Frutos, publicado em 1948. Muito embora o Poeta venha a recuperar, em 1978, 9 poemas desses livros iniciais sob o título de Primeiros Poemas, que agrupou com os dois livros já reconhecidos, numa edição conjunta da editora Limiar (Inova).
Assim, pareceu-me interessante reproduzir por imagem dois pequenos poemas de Pureza, cuja frescura juvenil deverá interessar conhecer àqueles que apreciam a poesia de Eugénio de Andrade. E que o Poeta, lá do alto, me perdoe a ousadia atrevida.


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Bibliofilia 226

 


A alguns poderá parecer quase um sacrilégio eu escrever que não aprecio, grandemente, a poesia de Antero de Quental (1842-1891), talvez por ele ter ficado a meio caminho entre pró-filósofo (a que não chegou) e poeta pouco inspirado, para o meu gosto. Fiz, no entanto, um esforço por ler toda a sua poesia.



E um dos últimos livros que li foi o póstumo (1892) Raios de Extincta Luz, que Teófilo Braga editou em Lisboa. O meu exemplar encadernado em meia francesa encontra-se em excelentes condições. Comprei-o na rua do Alecrim, nº 44, ao sr. Tarcísio Tindade, por Esc. 2.800$00, em finais do século XX. 



Esta primeira edição de Antero de Quental não aparece muito à venda, em leilões ou alfarrabistas. Os últimos exemplares foram vendidos por 50 e 140 euros, também encadernados, já no presente século.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Bibliofilia 225



Não é todos os dias que fico surpreendido com uma encadernação. Se não erro, quatro ou cinco me ficaram na memória, e duas delas tinham a marca do artesão profissional que as fez. Esta, da imagem acima e que me foi oferecida (Obrigado, H. N.), é anónima, mas uma linda obra executada.
O estudo, de Jacinto do Pado Coelho (1920-1984), sobre o poeta João Xavier de Matos (1730?-1789), é o mais extenso e completo trabalho que conheço sobre o vate, embora contenha uma ou duas imprecisões, que não desmerecem o valor do conjunto das 36 páginas integradas na miscelânea.



quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Bibliofilia 224

 

Esta obra Laura de Anfriso (1788), do licenciado Manuel da Veiga Tagarro, é um livro esquecido, de poesia, apesar das cadências suaves e harmoniosas dos seus versos. Barbosa Machado dá o autor como natural de Évora e nascido a 6 de Abril de 1597, bem como falecido na mesma cidade no dia 19 de Novembro de 1655. Outros estudiosos são mais prudentes, quanto a certezas, e há quem sinalize a sua morte no ano de 1640. O poeta terá tido, muito provavelmente, uma carreira eclesiástica. 
A primeira edição da sua única obra foi impressa em 1627 (1628) e é raríssima. A segunda, portada em imagem acima (do meu exemplar), é a rolandiana, de 1788, ainda rara. Que eu saiba Manuel da Veiga Tagarro não mais foi reeditado. Dele falaram  Maria de Lurdes Belchior, Jacinto do Prado Coelho e Aguiar e Silva. E há um extenso e importante trabalho de Helena Barbas, de 1990, sobre o poeta eborense.



A sua classificação em escolas literárias é muito desencontrada. Há quem o dê como barroco, maneirista, mas também quem lhe atribua pendores de pré-romantismo e/ou neo-clássico - com que estarei mais de acordo.
O meu exemplar da segunda impressão, em perfeitísimas condições, encadernação da época inteira de carneira, foi adquirido no leilão de Outono de 1993, dos Silva's/Pedro de Azevedo (lote 1603), por Esc. 10.053$00. Inocêncio refere o autor no tomo IV do seu Dicionário (pg. 122) e Samodães, sob o nº 3469.
Anote-se, por curiosidade, que Fernando Pessoa apreciava a obra poética de M. da V. Tagarro.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Da Holanda

 

O lado visionário e paradoxal da obra do holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972) está profusamente documentada neste livro da Taschen que teve a sua versão (2008) portuguesa, fielmente reproduzida da original, e que tem a vantagem de todas as gravuras serem acompanhadas de um texto alusivo e/ou explicativo do seu autor.



A xilogravura 7. Sonho (1935) é legendada pelas seguintes palavras de Escher: " sonha o bispo com um louva-a-deus, ou é toda a representação um sonho do artista?"


Grato reconhecimento a H. N.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Bibliofilia 223



Já por aqui falei  de M. Moleiro Editor, sediado em Barcelona e com delegação em Madrid.
Ciclicamente, recebo encartes que dão conta, por imagem e texto, das reproduções que fazem, para venda, de livros preciosos e raros de vários países. Neste último encarte que recebi, anunciam a edição facsimilada do Atlas de Fernão Vaz Dourado (1571), que consta do acervo da Torre do Tombo.
O editor Moleiro está presente na Feira do Livro de Lisboa no pavilhão D38, até 22 de Junho de 2025. 



terça-feira, 10 de junho de 2025

Curiosidades 112

 

Em imagem, dois livros estrangeiros que vieram de longe e que têm em comum o facto de eu nunca os ter lido completamente. Acompanham-me desde 1963. Se a obra de teatro de Brecht (1898-1956) me foi oferecida, o calhamaço (1.600 páginas) do historiador e jornalista Shirer (1904-1993) comprei-o em Paris, em Setembro desse ano, por 11,35 francos  franceses. Julgo que ainda é considerado um clássico para a história do nazismo.
Por várias razões subjectivas tenho-os em particular estima.