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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Citações CDXLIX



Uma certa qualidade de gentileza é sempre um sinal de traição.

François Mauriac (1885-1970), in Le Noed de vipères

segunda-feira, 8 de março de 2021

Mimetismos...

 


Por muito diferentes que tenham sido os escritores duma mesma geração, eles terão admirado quase sempre os mesmos livros quando tiveram vinte anos.

François Mauriac (1885-1970), in Bloc-notes I (pg. 228).

Nota pessoal: o mesmo se poderia dizer dos leitores comuns. Ou das músicas cristalizadas e favoritas, à roda dos 20 anos, pelos melómenos de uma mesma geração.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Amadeo


É um hábito enraizadamente humano, este de, para melhor localizar ou identificar alguém, o apresentador dizer: "Conhece? É filho de Fulano..." ou "Sabe, é a esposa de Beltrano!" Nestes casos, a pessoa apresentada é, normalmente, menos célebre que o parente referido. O jornal Le Monde não foge à regra e, como se pode ver, pelo título em imagem, socorreu-se de Modiglini, para configurar o nosso outro Amadeo... Quanto ao adjectivo maudit, eu creio que se poderia aplicar a ambos. Porque morreram os dois na flor da vida e com pouco mais de trinta anos, no mesmo ano de 1920. Amadeo de Souza-Cardoso, em Espinho, da gripe espanhola, e Amedeo Modigliani, de meningite tuberculosa, em Paris.
Embora conviventes e amigos, em França, a obra de cada um, no entanto, difere muito. A força da pincelada do português (embora com desenhos de traço muito fino, que parecem pressagiar o traço agressivo de Bernard Buffet) afasta-se da elegância florentina da pintura do italiano. Ambos singularíssimos, naquilo que fizeram e precursores, inimitáveis, do que estava para vir, na pintura europeia do século XX. O jornal Le Monde (28/4/2016) dá nota da magnífica exposição, no Grand Palais (Paris), de parte da obra de Amadeo Souza-Cardoso, composta por três centenas de quadros e documentos, e que estará aberta ao público até 18 de Julho do presente ano.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Osmose (17)




Sérgio dirige-se para as prateleiras dos CD's, sem opções pré-concebidas sobre o que vai ouvir. Por muito que domine o seu chip pessoal, por vezes, não sabe o que, concretamente, irá escolher ou aquilo que precisa de ouvir: jazz, Mahler, fado, Stravinsky, Trenet, Haydn...Barroco ou romântico? Suave ou a roçar o tom épico das marchas militares? Só perante as lombadas dos discos se vai apercebendo em que estado de espírito se encontra. Retira, então o CD e põe-no a tocar. Relaxa e acende o cigarro. Estende as pernas ao comprido e pergunta-se: "- Quem disse que a poesia era a mais nobre das artes?", e responde, em paz consigo mesmo e convicto, para si próprio: "- Enganaram-se redondamente. É a música."

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

François de Mauriac, católico e pecador


Precisamente há 40 anos, François de Mauriac falecia em Paris, poucos dias antes de completar 85 anos: nascera em Bordéus, a 11 de Outubro de 1885. Algum tempo após a sua morte, vieram à luz pormenores da sua vida privada e pessoal que fizeram abalar a sua imagem de figura moral das letras francesas. Engajado num catolicismo socializante, "gaulliste" fervoroso, Mauriac recebera o Prémio Nobel da Literatura em 1952 ("Les grands romans vient du coeur."). Analista cirúrgico das paixões da alma, os seus romances estruturam-se na intensidade trágica dos conflitos humanos sem resolução, onde o bem e o mal - muitas vezes identificado pela religião - se digladiam, interminavelmente.
O Deserto do Amor, Thérese Desqueyroux, O beijo ao Leproso, traduzidos em português, são alguns dos seus romances mais significativos. E de que retenho memória; como ele dizia, "nous méritons tous nos rencontres. Elles sont accordées a notre destiné". Este determinismo, algo dramático ou fatalista, de espírito, que é uma das suas marcas romanescas, não excluía, porém, um sentido de humor agudo e brilhante. Poucos anos antes de falecer, disse: "C'est merveilleuse la veillesse... domage que ça finisse si mal.".