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quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Desabafo (85)

 
Lembro-me bem de quando, na região outrabandista, não havia gaivotas senão ao fim do dia, lá no alto, pequenos grupos se deslocavam de leste para oeste, em direcção ao mar. As pombas também não eram excessivas, por essa altura. Estas espécies entretanto tiveram um crescimento enorme e, hoje, no seu crocitar rouco e antipático, acompanhado de vôos agressivos, vi cerca de 40 gaivotas sobre os contentores de lixo, em busca de detritos alimentares.
Recordo-me também de como, aqui há anos, se fez uma campanha racional e saudável, nas Berlengas, para limitar o número dessas aves, e para que não desequilibrassem o sistema ambiental nessas ilhas.
Entretanto, o PAN surgiu dos bosques...

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

As pequenas viagens



Entre o azul cobalto marítimo e o céu anil claro, tímido, estão fantasmáticas, à nossa frente ao longe, as Berlengas e os Farilhões um pouco dissimulados pela névoa rala.



Como antes, antecedendo a zona industrial de Papagovas, nos surgiu do nada, no meio da estrada, inesperadamente, um esbelto e elegante faisão. Que, assustado, fugiu.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Levar connosco


Dispensava, de todo, a arrebicada estátua de S. Pedro, inclinado grotescamente pelo vento, que plantaram, em dias recentes, no adro da igreja homónima, de Torres Vedras. Mas dela levaria o formoso portal manuelino, que resistiu aos séculos.
E, depois, estas Berlengas azúis e irreais, tão raramente descobertas e nítidas, assim, no horizonte.


domingo, 10 de abril de 2016

Estado do mar


Carregado, borrascoso e com carneirinhos agressivos ao longe. Mas que não chegam às Berlengas, envoltas num halo vago de penumbra.
O vento estende uma toalha branca de espuma até à praia. Em planos altos de cinco vagas rítmicas constantes. Nem os surfistas se servem...

Nota: a foto não é do dia de hoje.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Divagações 71 (com as aves e os 4 pontos cardeais)


Constato, através do sitemeter, que um cibernauta, muito provavelmente do Norte, gastou, perdulariamente, 54 segundos do seu precioso tempo, no poste "Bach / Landowska / Menuhin" (15/8/2014), que dura 6 minutos e 7 segundos. E lembrei-me de Eugénio de Andrade e dos seus versos: "Boa noite. Eu vou com as aves!"
Verifico, pelo perímetro que alcança o meu olhar, que não há mais do que 6 andorinhas em redor. E não terá havido muitas mais este Verão. Que as mais ousadas, ou exigentes, já terão emigrado para Sul.
Os meus braços acusam, pelas 20h45, a aragem fria deste mês de Agosto, na varanda a Leste. Não apetece ficar. Mas, pelas notícias da Alemanha, todo este mês tem chovido na Renânia-Vestefália. Por isso, não há muito que reclamar, seguidores que somos, e bons alunos, da batuta germânica.
São quase horas das gaivotas altas, vindas do lado Este, rumarem ao Atlântico, no azul já pálido do céu. Mas hoje não vi nenhuma: devem, também, ter emigrado, todas, para as Berlengas, que já acolhem 30.000 casais! Vi, entretanto, dois estorninhos outrabandistas meio-despistados, e o que julgo ter sido um peneireiro, que seguiu para Oeste. Só as castas e tímidas rolas se vão entretendo por aqui, apesar do frio. E da noite, que começou a cair.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Em louvor da Areia Branca


O cacimbo e a neblina, hoje, não deixam ver as Berlengas. Também o oceano forma apenas quatro linhas de espuma branca, em ondas paralelas e sucessivas, que vêm tornar-se cinzentas, na miscigenação da praia matinal e deserta.
Das terras pequenas se retém a comodidade das pequenas casas: tudo está à mão. Padaria, mercado, correio, café, jornais, é quase só atravessar a rua. Se a isto acrescentarmos, ainda, a visão do mar, a perder de vista, em amplo horizonte, perfaz-se o encanto singular.
Porque também os avios são gentis (embora nem sempre muito rápidos), quem atende, sorri, e quase agradece a visita. As gentes da terra dão o seu melhor, honrando quem entra ou fica, por alguns dias. E na papelaria, que ao mesmo tempo serve de mini-mercado, livraria e quiosque, podemos encontrar algumas coisas desaparecidas de outros lugares: livros esgotados, vinhos velhos bem amadurecidos, postais desenquadrados no tempo, artesanato original...
E, se as roupas que os habitantes usam são modernas e actuais, tudo o resto, das vivendas às placas toponímicas, tem o sabor tranquilo do princípio do mundo ou de um tempo perdido para sempre, na memória, e que volta à tona, num ressurgimento inesperado.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Miscelânea de Oeste


Entre a diligente Marta que serpenteia por entre as mesas, para nos servir, e as 5/6 ondas sucessivas e paralelas que, suavemente, morrem na praia, interminavelmente, vou olhando as Berlengas ao longe, fixas como cachalotes antigos incrustados no mar. A praia vai deserta e limpa com o vento ligeiro de Maio, que alisou a areia sobre as rochas invisíveis.
Do sono me desperta um telefonema nimbado de desespero, que me pede conselho. A voz amiga, a quem não pagam o trabalho extra, há já dois meses, pergunta-me o que deve fazer. E eu, mal desperto, dificilmente consigo atinar uma resposta que não seja violenta, face a tal injustiça. Mundo cão, este, em que nem sequer há hombridade para ensaiar uma explicação humana, perante quem precisa de trabalhar diariamente para o seu sustento.
Volto-me para o inefável, das altas esferas, através do livro (Marcello Duarte Mathias, Diário da Índia, 2004) que mão amiga me deixou pousado sobre a mesa, na casa emprestada:
"...Gisbert narra que a inimizade entre Mittérrand e Rocard levou o primeiro a estabelecer uma lista de possíveis presidenciáveis em que Rocard aparece em sexta posição, logo a seguir ao cão de Mittérrand situado, esse, em quinto lugar.
A este propósito, a Helena Vaz da Silva contava-nos ontem ao jantar que Cavaco, instado a responder nos mesmos moldes, havia esclarecido: «No meu caso, teria de colocar o meu cão mais acima!» "(pg. 58)
Sem dúvida, que outros mundos caninos, mas a mesma desumanidade...

sábado, 31 de agosto de 2013

Férias 6 - Fim: "Viagens na minha Terra"



Nas minhas primeiras viagens, em Portugal, desconhecia aquela que considero a “obra prima” de Almeida Garrett e, também, da Literatura Portuguesa. Certamente não teria, na altura, capacidade para avaliar o seu engenho literário.
Identifico-me, contudo, com os tempos em que as viagens permitiam conhecer lugares insólitos, costumes diferentes, a Cultura e a História, que estimulavam o pensamento – sobre nós e os “outros” – e nos deixavam fisicamente exaustos ao fim do dia, mas com o “papo cheio” de espírito.
Uma aventura memorável, em finais de Setembro e no fim da época das travessias, foi uma passagem de barco, com cheiro a naufrágio, de Peniche até às Berlengas. A demorada travessia obrigou a uma montagem da tenda ao lusco-fusco, no planalto da ilha, numa “covinha” aconchegada. Ao acordar, houve tempo para apreciar a natureza, mas, sobretudo, para dominar o susto ao verificar que a tenda tinha sido montada junto de um precipício.


No entanto, e no final do tema dedicado às férias, fica a noção da evolução do conceito de “viagens” – como forma de enriquecimento intelectual e pessoal – para uma vertente perniciosa de “turismo”, economicista e contabilística.
Com efeito, prefiro as “Viagens na minha Terra” e, como Garrett, “amo a Charneca” quando passo perto de Santarém. E, na passagem pela planície ribatejana, volto a pensar no engenho de sua obra. O aparente sub-género litarário de viagens, reúne, numa construção sem precedentes, o dramático, narrativo e poético, confundindo os nossos sentidos como é próprio da sinestesia.

É obra !

Post de HMJ

terça-feira, 19 de março de 2013

Cuidado com os ilhéus!


Referia eu, há dias, em título de poste (8/3/13), "Tamanho não é problema", esquecendo-me em absoluto de algumas pequenas ilhas cujo poder virtual ultrapassa largamente a sua pequenez territorial. Bastará referir Cuba e a Madeira que tantas dores de cabeça deram aos Estados Unidos e Portugal, para se perceber o que quero dizer. Pois agora foi a vez de Chipre, uma espécie de jangada bancária do Mediterrâneo que, mercê de uma ínfima taxação nos depósitos bancários, fez atrair ao seu pequeno território grandes fortunas russas e britânicas. Pois os senhores da Rússia e o sr. Cameron não devem ter dormido bem, esta noite.
O Parlamento cipriota prepara-se para votar e agravar (ou não), hoje, legislação que poderá fazer aumentar brutalmente os impostos sobre estes depósitos milionários. Até o sr. Schäuble tem andado nervoso, na sua confortável cadeira de rodas alemã. Ora, vejam só, como uma pequena ilha e os seus ilhéus endiabrados podem incomodar os seus gigantescos vizinhos!...
Ainda bem que as Berlengas não são uma off-shore e o seu faroleiro residente é um homem pacato e não tem poderes legislativos!... Já nos basta o sr. Jardim da Madeira, para nos incomodar e tirar o sono continental.

sábado, 16 de outubro de 2010

Areia Branca


Sempre gostei das praias no Outono. A areia sem lixo, imaculada de pegadas e limpa pelas recentes marés vivas. A soada tranquila e ritmada do bater das ondas e o espaço livre, para norte e para sul, no areal. No mar, três surfistas tentavam a sua sorte num ondular quase sem vento. Só a meio da tarde se descobriram as Berlengas que, ao longe, pareciam uma gigantesca baleia e, à frente ou à direita, a silhueta de um pequeno cachalote, pousados ao fundo, no horizonte. Estava assim a Areia Branca "posta em sossego" nestes idos de Outubro.
Depois H. mostrou-me a fotografia, que lá tinha comprado e que lhe disseram ser do início de época balnear (Julho?, anos 50?). O cenário é árido e despido, nesta antiga Areia Branca, quase circunspecta, quebrada apenas pela diagonal de 3 ninfetas reclinadas, uma fingindo(?) que lê, e as duas restantes desafiando o fotógrafo, com o seu sorriso juvenil.

P.S.: para H.N., com agradecimentos.