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sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A força das imagens



Sempre que o espadarte me vem à mesa, na refeição, lembro-me da hábil Mirandolina que, vinda de Belas pela manhãzinha, os expunha, pendurados, na sua pequena banca de Oeiras e, depois, já com mais espaço, no hipermercado de Cascais. Talentosa vendedora, ao fim do dia, já não havia nenhum resto do peixe.
Há imagens que marcam, definitivamente, as situações reais ou de ficção.
Embora na novela "O Velho e o Mar" traduzida de forma exemplar, para português, por Jorge de Sena, nunca se diga de que peixe gigantesco se tratava, aquele que o velho pescador tentava trazer para terra, o elegante desenho de Bernardo Marques, na capa da edição dos Livros do Brasil, sempre me pareceu de um espadarte. E para mim assim o será, em definitivo.

sábado, 6 de abril de 2019

Memória de Belas


De Belas, eu poderia dizer muita coisa, mas vou ater-me ao essencial que me ficou, definitivo. Até porque - pecado meu original - não consigo lembrar-me da primeira vez que lá fui. Mas sou ainda do tempo em que, por Setembro, lá iam estadiar, em quintas frondosas, algumas famílias ricas de Lisboa, até venderem os terrenos para urbanizações selvagens e mais rendosas aos empreiteiros saloios que já tinham destruído a natureza primitiva e singular do Monte Abraão. Onde num Agosto solitário veio a morrer Ruy Belo - acrescente-se - num andar anónimo por entre a floresta de betão, alcantilada.
Depois, vem-me à memória, e em caminho, um chalet derruído, debruçado sobre a ribeira do Jamor, que foi pertença ancestral da família do meu amigo J. N.. Por essas bandas, tive também lições de condução, por dias e dias que me pareceram, na altura, intermináveis e fastidiosos. Adiante.
Agora, há um tempo que por lá não passo. Nem sei se o pitoresco mercado ainda existe ou se a estação de Correios, em cenário antigo de decoração datada, ainda funciona. A modesta pastelaria dos Fofos de Belas é que ainda pode adoçar a boca dos passantes, se por lá pararem, antes de seguirem pela estrada da Idanha ou, em retorno, quiserem voltar a Queluz. Percurso este que me traz afectuosas recordações de um princípio de tarde primaveril...



Por Belas andei, também, em busca de vestígios de António Nobre, para um artigo que foi publicado no nº 8 dos "Cadernos do Tâmega", de Dezembro  de 1992. Um velho barbeiro, ainda em exercício, localizou-me o edifício de um dos hotéis (modestíssimo) onde se hospedara o poeta do , quando, em busca de ares lavados e de saúde para a sua tuberculose terminal, por lá se aboletou. Expulso, devido às hemoptises frequentes, e por causa de outros clientes, viera depois hospedar-se na York House, às Janelas Verdes, em Lisboa.
Da torre antiga dos Coelhos, e do Paço de D. Pedro I, mas que D. Duarte ainda habitou, julgo-a hoje integrada na Quinta do Senhor da Serra que, outrora, era anualmente franqueada ao povo, para uma romaria afamada. Até que os senhores Marqueses de Belas se cansaram da devastação a que os seus campos eram sujeitos sob pretextos religiosos. E do lixo que ficava dos piqueniques populares, nesses domingos de reinação ruana...


Entretanto, a vila ganhou o sossego dos condomínios fechados e o golfe aristocrático dos campos relvados a perder de vista, em zonas reservadas, tornando-se cada vez mais igual a outros espaços, que abundam por aí.
Foi perdendo, aos poucos, o seu encanto primitivo e que eu apreciava tanto.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Mercearias Finas 137


Por muito alternativos que sejamos, ou inovadores na originalidade e maneira de ser, todos temos rotinas, ainda que bissextas. Quando vamos, no fim-de-semana, ao mercado da estrada de Almoçageme, frequentemente no regresso, refeiçoamos em Queluz, até para reencontrar o inamovível e insubstituível Fernando, que já vai nos seus 58 anos, sempre leves, bem dispostos, ágeis e simpáticos dos seus mais de 40 de bom serviço. Antes, eu cumpro o meu indeclinável dever de ir cumprimentar e ver a minha amorável ribeira do Jamor, com os seus patos que, às vezes, se aventuram do Palácio, mas nunca chegam a Belas... A ribeira, por sua vez, é dissimuladora: parece tranquila mas, quando ganha força e poder, pode transformar-se em destruidora e assassina. Como já o foi, no passado.



Desta vez, e como o "Abílio" tem sempre peixe fresco e de confiança, fomos nos filetes de Linguado e nas Pescadinhas contorcionistas, com um malandro arroz de grelos, bem verdinho. Quanto ao vinho, a decisão foi mais lenta. A garrafeira do restaurante já não é a que foi, embora a quinta do Cartaxo, do sr. Abílio, octogenário, continue a produzir tinto, branco e uma aguardente bagaceira, ainda estimáveis, embora de alta graduação. E é por aqui que começa a história...



Não nos apetecia o vinho da casa. Perguntei ao Fernando, que foi avô recentemente, quais seriam as opções, a princípio, de brancos. Referiu-me o banalérrimo JP que eu raramente aprecio pelo excesso de sabor a Fernão Pires. E o Planalto, duriense, que, pouco mais tarde, me referiu já não ter, desculpando-se.
Fomos então para tintos, desmanchando a regra e porque também estava frio.



Falou-me, então, de um Lybra, que tinha sido engarrafado à má fila, por um consagrado produtor do Ribatejo que, tendo comprado as uvas Syrah, ao sr. Abílio da sua quintinha do Cartaxo, o comercializava sob o seu nome, para lhe dar um estatuto maior.
O tinto monocasta era realmente muito bom. O "produtor"-engarrafador, pelos vistos, é que deixa muito a desejar...
Para sobremesa, optámos por Arroz-doce e Maçã assada. E ainda passámos, ao sair, pela "Marianita", para trazer uns Sonhos enriquecidos e umas belíssimas Broas Castelar - que o Natal já anda perto!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Uma louvável iniciativa (48)


De Belas (19/20), que me convoca, histórica e cronologicamente, D. Pedro I, D. Duarte e António Nobre, para não falar da extinta romaria do Senhor da Serra, na Quinta dos Marqueses da dita vila, até à "piscosa" Sesimbra (10/20) que acabou a referenciar uma edição de "Os Lusíadas", passando pela suburbana Damaia (7/20) de pouca beleza actual e desordenada arquitectura, por aqui anda margem para lendas e sonhos de terras portuguesas. Que raramente excluem o amor, das narrativas. Pretexto que foram para o exercício da imaginação popular, na arte de contar, e que o Café Chave d'Ouro registou, e muito bem, em pacotinhos de açúcar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Onírica e burlesca


Esta chuva contínua de ontem, este cerco líquido, este dilúvio em redor das casas, talvez ambicione, em si, um cenário interior de defesa, o ambiente e os ingredientes necessários para, entre paredes, contar ou ouvir histórias. Mas estamos no princípio de Setembro e o tempo propício às narrativas eu costumo situá-lo, com mais propriedade, nas longas noites de Inverno.
O pior, no entanto, é que esta imemorial vontade narrativa, pela água excessiva e exterior, acaba por exsudar para o sonho ou, neste caso mais próximo, para um pesadelo que, como em quase todos, eu conto e faço viver a mim próprio. E em que não controlo o desenvolvimento, nem prevejo o fluxo narrativo e nem sequer tenho poderes para abortar a acção, ou dela sair.
Imagine-se um gueto hostil, onde há dois mensageiros benéficos que me vão aconselhando, duvidosos, tudo isto num cenário que parece de velhas metalurgias abandonadas. Vou descalço, num chão viscoso e escorregadio. Procurando, obstinado, um táxi livre que não há, por um dédalo de ruas estreitas e sombrias. Preciso urgentemente de transporte, para seguir para um casamento de quem não sei, nem os noivos, nem a hora, nem mesmo o local, talvez à volta de Belas...
Que o sr. Freud me dê uma ajuda! Ou me faça chegar, a tempo, à boda!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A ribeira do Jamor


Passei por lá, ontem. Quase diria, em romagem de saudade. Foi na ribeira do Jamor que vi as primeiras galinhas de água. E, se não fosse um velho explicá-las ao neto, nem hoje saberia dizer o nome daqueles pássaros pernilongos. Viam-se, pela ribeira, pequenos patos que subiam do Palácio de Queluz, melros, pintassilgos e pequenos pardais. Ouviam-se rãs a coaxar, no Verão, cigarras e grilos musicavam o ar. E havia uma figueira, antiquíssima, que a crassa ignorância e desapego da freguesia de Queluz ou da Câmara de Sintra mandou arrancar. Dava uma sombra benfazeja, nos dias de calor, para quem atravessasse a pequena ponte quase artesanal que nos levava ao outro lado. E figos, bem saborosos - que ainda comi dois ou três...
Ontem, a ribeira do Jamor ia transparente e límpida. Normalmente, quando lá passava, na ponte, as margens estavam juncadas de lixo e detritos. A atenção ao ambiente já morreu há muito e as criancinhas também aprenderam pouco, nas escolas portuguesas, de agora... Como eu dizia, a ribeira ia clara e limpa em direcção ao Palácio. Na sua placidez inofensiva e bucólica, esquecemos que esta ribeira do Jamor, aquando das chuvas do Inverno, também pode ser assassina. Matou nos anos 60, voltou a matar em Fevereiro de 2008 : duas jovens que iam, de Belas, para o seu trabalho, logo pela manhãzinha. Quem a visse, ontem, à ribeira do Jamor, cantarolando entre os seixos lavados e os limos verdes, não acreditaria.