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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Litorais a Oeste


Mais do que a zona ribeirinha de Cacilhas, que poderia ter outro melhor aproveitamento, a praça central de Porto Brandão, junto ao Tejo, apresenta ainda um aspecto mais confrangedor de ruína e abandono. Carreiras de barcos, de e para Belém, são de hora a hora e acabam às 21h00, os cães preguiçam deitados no chão, velhos circulam lentamente e alguns jovens, na única esplanada aberta, vão apanhando o Sol que podem.



À retaguarda a mesma desolação impera, ganha apenas pelo silêncio da tarde quente que mais parece de Junho do que de Abril. Por todo o lado há traços de actividades extintas e indústrias marítimas que se perderam para sempre. No cais esburacado dois pescadores e uma pescadora lançam a linha sobre o rio quase quieto onde várias taínhas rebrilham em reflexos sinuosos sob as águas. 



E até a garça, inesperada e vigilante sobre o Tejo, depois de se deixar fotografar por nós, se foi embora daquelas paragens, que pouco ou nada já podem oferecer.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Adagiário CLXXVI : temática asinina


1. Burro e carroceiro nunca estão de acordo.
2. Com a raiva do asno virou-se a albarda.

à memória infausta e baixa repentina de 2 assessores em Belém...

sábado, 14 de setembro de 2013

Recomendado : quarenta e um - Museu de Arqueologia, Belém


Creio que foi a terceira vez que lá fui. A primeira, em finais de 60, deixou-me pasmado com as duas (3?) múmias egípcias, que julguei não haver em Portugal. Como a Sagres I, resultado do arresto e confisco, em 1917, de bens germânicos, aquando da declaração de guerra à Alemanha. O largo espaço museológico, no entanto, aproveitando uma parte do claustro dos Jerónimos, pareceu-me desajeitado e pouco arrumado, mais parecia uma insólita Feira da Ladra.
Quando voltei, há dias, ao Museu de Arqueologia, gostei do que vi. O acervo foi distribuido por três núcleos semi-independentes, mais outro, para exposições temporárias. Arte egípcia, antiguidades romanas e Lusitânia. As múmias de falcões e crocodilos pequenos colheram a minha admiração. Lá estavam também as três múmias egípcias, em bom estado de conservação. Os toscos guerreiros lusitanos em pedra, mas também os seus torques (espécie de colares e insígnias dos chefes), em ouro maciço.
Mas gostaria de destacar, especialmente, a galeria de exposição temporária composta, de momento, por um núcleo emprestado pelo Museu de Vila Franca de Xira ao de Arqueologia, reunindo uma série de peças arqueológicas romanas oriundas das escavações, que continuam a decorrer, no Monte dos Castelinhos. Há, por lá, peças de estatuária lindíssimas, de tamanho médio e em boas condições para a idade que já levam.
Fica a recomendação. E, como o Museu de Arqueologia fica em Belém, ainda se pode revisitar os Jerónimos, que são sempre agradáveis de se ver.

sábado, 6 de abril de 2013

O dia seguinte


Não tenhamos ilusões. Porque eu não tenho grandes dúvidas que este ambiente de (aparente) desnorte, que se vive no país, interessa a muita gente. Antes de mais, convém à estratégia de caos pretendida pelos senhores do mundo e da finança; aos comentadores políticos, para a sua banal incontinência verborreica que vai pagando a sua vidinha videirinha. Mas interessa também, e muito, aos gurus estabelecidos, vulgo professores karamba, aos assessores desempregados, às agências de consultadoria, à Santa Casa da Misericórdia, aos anarcas renitentes - enfim, interessa a muita gente que, na prática, de útil nada produz. Para além de permitir intermináveis e suaves diálogos cristianíssimos nos feicebuques de várias paróquias provinciais. Que mais se poderia pretender?
Mas, hoje, eu estava sobretudo interessado em observar a encenação e o dramatismo ensaiado pelos agentes políticos, e quejandos, face à decisão de ontem, do Tribunal Constitucional. E a estratégia que iriam encetar, desenhando (pensei eu) uma tragédia à grega, ou uma tragicomédia à italiana, que viesse a permitir ainda mais abusos e desmandos. Tenho de confessar que saí desiludido: o nosso PM, pedindo previamente audiência, limitou-se a ir ao sarcófago de Belém, onde um mirífico faraó mumificado vai apodrecendo.
O que, como pose e estratégia governamental, me parece um ensaio mal preparado ou representação medíocre de uma companhia de teatro amador, de terceira ordem. Como se dizia nas casas nobres, em dias de festa: "Guardem as pratas, que vêm aí os cómicos!..."

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Diário presente do conjuntivo


Os influxos benéficos da minha viagem intempestiva, de Novembro, já quase se desvaneceram, no tecto baixo da desesperança lusitana. Voltaram as harpias e pitonisas da desgraça, nos telejornais, os títulos cadavéricos dos periódicos macabros (que o sangue sempre se vendeu bem), regressou o manequim de Belém com os seus esgares e tiques estandardizados para dizer nada. Voltou o coelho manso de voz estudada, enquanto o mago contabilista e sádico gaspar vai perorando sibilino - por onde andarão as FP-25?
Os amigos emagrecem, vão-se deprimindo à "apagada e vil tristeza" camoneana. Outros ainda esbracejam, num afogamento psicológico que não tem fim à vista. Parece que vamos todos feridos de morte. Mas é evidente que a 21 não vai acabar o mundo...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O comer dos jerónimos


A minha ideia, de algum modo, era que, salvo em períodos (breves) de dura e pura ortodoxia e rigor, os religiosos não se tratavam mal, em matéria de comida e bebida. Mercê das prebendas e, às vezes, do cultivo das hortas, comia-se bem, para não dizer lautamente, nos conventos e paróquias de Portugal.
Em abono do facto, fui encontrar, improvavelmente, numa monografia (Belém e arredores através dos tempos, de José Dias Sanches, 1940), uns versinhos curiosos de Frei Simão de Santa Catarina, frade jerónimo, descrevendo uma ágape, no Convento dos Jerónimos, em pleno séc. XVIII. Aqui vai um excerto:

"Cobria o cuvilhete
um papel retalhado com acerto
que inda que pequenete
como grande queria estar coberto.
Na marmelada vinha, guaposito,
guarnecido de flores um palito.

Em cada assento havia:
garfo, faca, colher e guardanapo,
dois pães, com bizarria.
Melancia excelente, melão guapo,
figos, uvas, limões, pecegos, peras
sem graça, o cesto enchiam, muideveras.

A ilharga da salceira
um bom tassenho de presunto havia
tão magro e tão lazeira
que a mim me pareceu ser porcaria
também tinha azeitonas e alguém disse
que foram de Elvas.

Foi primeiro prato uma tijela
Cheia em demasia
de caldo de galinha com canela
que da galinha trouxe a propriedade
porque o caldo tinha ovo na verdade.
Foi o segundo prato

Uma bem feita sôpa à portuguesa
que dava de barato
Ofilis e o primor que há na francesa
..."