É óbvio que existe uma enorme diferença e "modo de usar" entre a poesia de Herberto Helder e os poemas de Ary dos Santos, para referir exemplos claros e extremos. Não pretendo fazer um juízo de valor e qualidade, neste caso, mas não tenho a menor dúvida que os versos de Ary dos Santos ganham uma mais valia ao serem (bem) ditos; e que os poemas de Herberto Helder devem, sobretudo, ser lidos em silêncio para melhor serem entendidos. Mas, em relação à poesia, há muita gente que tem opinião diferente da minha. Vou traduzir e dar voz a Basil Bunting (1900-1985), poeta inglês, que, em contraditório por vários aspectos, defende, num texto de 1966, o seguinte:
"A poesia, como a música, é feita para ser entendida. Ela é feita de sons, curtos ou longos, de ritmos, pesados ou ligeiros, de relações tonais entre as vogais, de relações entre as consoantes, análogas à cor instrumental da música. A poesia morre sobre a página desde que uma voz não a desperte, assim como a música que, na pauta, não representa nada senão instruções para os músicos. Um bom músico pode imaginar um som, em certa medida, e um bom leitor pode tentar entender mentalmente as palavras impressas que os seus olhos lêem: mas nem um nem outro ficarão satisfeitos antes dos seus ouvidos escutarem o som real produzido no ar. A poesia deve ser lida em voz alta. ..."