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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Da leitura 65

 


GEMIDO XXXIV

Meteram-se em uma barca os Discípulos com o Senhor, resolvendo-se a não deixá-lo nas tribulações do mar, assim como o tinham seguido nas prosperidades da terra: mas em se fiando das ondas, começou com cerração escura a cair o Céu em nuvens, o ar em chuva, o fogo em raios, os horizontes em ventos, & todo o mundo em confusão, pois o mar se erguia em montanhas, o vento se precipitava em serras, o dia se desfigurava em sombras, o Sol se descorava em trevas; em cuja turvação medonha, cheio tudo de horror, & assombro vagava a mísera barquinha padecendo, quase sorvida da voracidade das ondas, em cada momento um risco, em cada vaivem um naufrágio: viram-se a risco de perder-se os mesmos escolhidos de Deus; desconfiaram de remédios por todas as vias humanas, & recorreram ao Senhor, que dormia, parecendo que no descuido se esquecia dos seus mimosos, & do governo das criaturas. (pg. 134) 
 (Procedeu-se a uma actualização ortográfica do texto original.)

Fr. António das Chagas (1631-1682), in Obras Espirituais.

Nota pessoal: se privilegio o estilo clássico de escrita, nem sempre o barroco me deixa indiferente. A obra de Fr. António da Chagas, pelo seu artifício industrioso, exerce, por vezes, algum fascínio sobre mim.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Pinacoteca Pessoal 118


A meio caminho entre a Renascença e o Barroco, quanto à expressão pictórica, o artista flamengo Jan Gossart (1478-1532), também conhecido por Jan Mabuse (da sua terra natal), deixou-nos uma obra pessoalíssima de ressonâncias difíceis de classificar. Do Auto-retrato (1515-20) que faz lembrar Dürer, aliás seu contemporâneo, até ao singular Neptuno e Anfitrite, de 1516, passando por Danae (1527) fecundada pela pródiga poalha divina de Zeus, o seu exercício criativo marca um percurso charneira muito singular nos primórdios da melhor pintura do século XVI.

Nota: Jan Gossart está representado na Fundação Medeiros e Almeida (Lisboa) por um quadro intitulado "Cristo coroado de espinhos".