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quarta-feira, 13 de abril de 2022

Mercearias Finas 177



Anho ou cabrito, pela zona geográfica crismado, o cordeiro está ligado indissoluvelmente à Páscoa como refeição privilegiada, até por razões litúrgicas. Nos últimos anos, nem sempre temos cumprido a regra e já vieram perdizes estufadas à mesa, no almoço de Domingo. Provavelmente no próximo encomendaremos uma dose de leitão a quem o assa, desde os 15 anos, à moda bairradinha e como deve ser. A experiência que tivemos anteriormente foi muito promissora e deixou-nos boca para mais...
No entretanto, e como faltam dias, dei com uns versos de Bocage (1765-1805), que falam de papas nas suas dúplices funções. Por aqui os deixo, por lhes achar graça:

Pra que viva a cozinheira,
que tão boas papas fez,
confesso por esta vez
que bem me sabe e me cheira.

O Papa, em sua cadeira,
vestido de estola e capa,
não faz coisa tão guapa.

A cozinheira faz mais:
o Papa faz cardeais,
a cozinheira faz papa.

sábado, 30 de setembro de 2017

Adivinhas e folhetos de J. D. R. da Costa


Soube viver, ao que parece, este Josino Leiriense, poeta arcádico, de seu nome completo: José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832). Sobretudo por se ter acolhido a altos patrocínios, como o do Intendente Pina Manique. Mas escrevia e publicava muito, coisas menores é certo, mas divertidas. Que se vendiam bem pelo Rossio e pelas Portas de Sto. Antão, em forma de folhetos de cordel. Além disso, teve acesas polémicas com Bocage, que talvez não lhe perdoasse a índole conservadora.
Bem gostaria eu de saber quem lhe compraria as publicações: talvez escriturários e comerciantes, alguns poetas menores, mestre-escolas, média burguesia letrada, provavelmente, a pequena fidalguia ociosa...



Deste Barco da Carreira dos Tolos, em 12 fascículos mensais, adquiri 9, ficando a faltar-me o I, VI e VII (respectivamente, dos meses de Janeiro, Junho e Julho), que não os havia no alfarrabista. São da segunda (?) edição, de 1820, pois a original foi publicada em 1803. O magano do José Daniel usava de alguns pequenos truques para manter acesa a curiosidade e fidelidade dos leitores. No final de cada folheto, por exemplo, punha uma adivinha, cuja solução só era fornecida no folheto do mês seguinte...


Em relação a esta última adivinha, posso informar que a resposta era: Sepultura.
Também fiquei a saber, pelos folhetos, que machacaz era, na altura, um indivíduo corpulento, mas desajeitado; por vezes, finório, espertalhão. Quanto à expressão andar à donata, não lhe consegui descobrir o significado. Estes idiotismos, populares decerto, nem sempre tiveram seguimento de vida, no tempo.


sábado, 31 de outubro de 2015

Filatelia CVIII


Em menos de 20 anos, a Primeira República não se esqueceu dos escritores portugueses e lembrou, em cuidadas emissões filatélicas, Luís de Camões, em 1924, e Camilo, em 1925, pelo centenário do seu nascimento. Ambas as séries, de 31 valores, foram executadas a talhe doce pela Waterlow & Sons (Londres), com base em desenhos de Alberto de Souza. Dos selos, em imagem, ficam algumas taxas das emissões.
À ditadura do Estado Novo, mais do que a literatura interessava-lhe celebrar a História. Nos seus 48 anos de vigência, os CTT, se não estou em erro, lembraram apenas Bocage, pelo seu 2º centenário (1966), e, anteriormente, em 1957, dedicaram emissões a Cesário Verde e Almeida Garrett. Chegamos assim ao 25 de Abril, com a temática Escritores Nacionais, composta por apenas 5 séries de selos. Não foi muito...
Nos últimos anos, pode dizer-se que o programa dos CTT tem sido pródigo em lembrar as figuras literárias portuguesas. Mas não deixa de ser curioso que, um dos mais conhecidos, lidos e populares dos escritores, Eça de Queiroz, tenha tido que esperar pelo ano 2000, para ser homenageado pelos Correios Portugueses, na passagem do centenário da sua morte.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Bibliofilia 114


Quando hoje de manhã, displicentemente e ao acaso, para passar o tempo, abri o primeiro volume da Opera Omnia (Bertrand) de Bocage, e li um soneto de circunstância, o óbvio tornou-se um clarão irrefutável. E disse para comigo: "Mas isto podia ser um Junqueiro mais antigo!" Tinha percebido, indesmentivelmente, uma evidência que me escapara, anos e anos...
Mas se, com alguma prática de leitura, conseguimos perceber a filiação de um poeta em algum vate mais antigo, com as palavras nem sempre a paternidade é tão simples e notória. Muito menos, em língua estrangeira. O francês sempre foi muito pródigo em actualizar a sua linguagem do dia a dia, muitas vezes, através de uma abreviatura (bac, por exemplo) ou por justaposição encurtada (polar= romance policial).
Foi essa a razão por que, no início dos anos 90 do século passado, eu comprei este pequeno (118 páginas de texto útil) e simpático livrinho. Bem conservado e encadernado em meia-francesa, este "Dictionnaire Français-Argot" (Albert Méricant, Editeur, Paris), de Raphael Noter, com satíricas ilustrações de A. Vignola, terá sido publicado, muito provavelmente, nos anos 30. Custou-me Esc. 780$00. Bem aplicados, com gosto e proveito.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Pequena história (22)


Polémico, agressivo, irascível, inimigo figadal de Bocage, o padre José Agostinho de Macedo (1761-1831), mesmo conventualmente, era indisciplinado e difícil de controlar. Para além disso tudo, era um miguelista ferrenho, apesar de alentejano de nascimento (Beja). A determinada altura, o provincial do convento, para o castigar, ordenou ao despenseiro que, ao fazer o empratamento das rações, desse postas de carne razoáveis aos outros Irmãos, mas a Agostinho de Macedo servisse apenas tutano. Não se descompôs o poeta, e vendo o tutano a tremer, por estar muito quente, atacou em vozeirão:
"- Ah! não tremas, não tremas que eu não te como!"

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Garrett, sobre alguns poetas portugueses

Passa hoje mais um aniversário sobre a morte de Almeida Garrett, a 9 de Dezembro de 1854. No seu "Bosquejo da História da Poesia" (1826) traça uma panorâmica e emite opiniões sobre a maior parte dos poetas portugueses, até aí. Muitos deles que, eventualmente, tiveram importância no seu tempo, estão hoje esquecidos. Vamos transcrever a apreciação de Garrett sobre três dos mais conhecidos.
"...Sá de Miranda, verdadeiro pae da nossa poesia, um dos maiores homens do seu século, foi o poeta da razão e da virtude, philosophou com as musas e poetisou com a philosophia. ..."
"...A metrificação de Bocage julgam-na a sua melhor qualidade: eu a peior; ao menos que peiores efeitos causou. Não fez elle um verso duro, mal soante, frouxo; porém não são esses os unicos defeitos dos versos. ..."
"Nicolau Tolentino é o poeta eminentemente nacional no seu genero: Boileau teve mais força, mas não tanta graça como o nosso bom mestre de rhetorica. ..."

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os cornos da Lua

Tenho para mim que, de algum modo, a poesia satírica, no séc. XVIII português, é bem mais conseguida do que a poesia lírica, em qualidade. Estou a pensar, sobretudo, em Jazente, Cruz e Silva, Tolentino, Bocage, António Lobo de Carvalho...
Vem isto a propósito dum soneto, manuscrito (Ms. 8582, pg. 156, da BNP), ridicularizando o poeta Alvarenga Peixoto (1744?-1793), por este ter usado, num soneto, o verso: "Por mais que os alvos cornos curve a Lua". O soneto satírico, de autor desconhecido, é o seguinte:

Certo aldeão de Sintra se apeava
Do jumento, e a beber o conduzia;
Bebeu o burro, e à volta pretendia
Montar no dono, e nisto porfiava.

- Burro atrevido, - o aldeão gritava -
Donde te veio a ti tanta ousadia?
- Tenho alma como tu, e não sabia
Que espírito tão nobre me animava!

- Tu tens alma, ó burro? Mais preclaro
És entre os burros. - Não é como a tua,
Imortal, mas meu juízo é claro.

- Quem te deu pois ou te emprestou a sua?
- Quem foi? : aquele espírito tão raro
O grão Doutor que cornos deu à Lua. 

domingo, 13 de março de 2011

Olhóó desastre !!!


Era assim (com as palavras do título deste poste) que os ardinas, em Portugal e aqui há uns bons anos, costumavam apregoar a venda dos jornais, para aguçar a curiosidade dos putativos compradores, na rua. Claro que o faziam apenas naqueles dias em que algum acidente de grandes proporções tingia de vermelho sanguíneo as notícias a negro dos jornais.
Ora eu, hoje, ao passar revista às visitas do Arpose tive um "sobressalto cívico" (como diz o nosso PR) e fiquei consternado. Não é que um simpático cidadão ou cidadã de Taipé (Taiwan) teve a infeliz ideia de pedir ao Google que traduzisse para chinês o poste do Arpose "Macau: um inventário de Bocage", que eu coloquei em 1 de Abril de 2010, no Blogue. Ninguém me poderá tirar da alma este sentimento de culpa terrível! Estou a ver o pobre do utente a ver traduzido (Abade de) Jazente por "laid prostrate" - como o Google já fez uma vez; as palavras do poste Uma Sé transformar-se-ão provavelmente, na cabecita louca do Google, em qualquer coisa chinesa que signifique, em inglês, "A If"; e nem consigo imaginar como será traduzido aquele início de verso bocagiano "Nh's e chins cristãos", do soneto do poste.
Estragaram-me o dia... Só peço a deus que o utente da Ilha Formosa (Taiwan), que requereu a tradução ao Google, repare na data do poste do Arpose: 1 de Abril de 2010. E que, naquela ilha do Oriente, a data seja também o dia das mentiras. Se não for este o caso, o utente de Taipé, perante a desastrosa tradução googlesca, irá ficar, no mínimo, com os olhos em bico...

terça-feira, 1 de março de 2011

Como fazer um soneto


Sem saber quem terá sido o autor (Bocage, porventura), li, algures, que tendo um amigo perguntado a um vate, como é que se fazia um soneto, se desenvolveu o seguinte diálogo poético entre os dois:

-"Comece em linhas iguais
Na medida e na cadência,
Pondo rimas nos finais."
-"E no meio, que lhes ponho?"
-"Nisso está o valimento.
No meio, meu caro amigo,
É preciso pôr...talento!..."

Nota pessoal: com tanta gente a ganhar dinheiro com a chamada "escrita criativa"...aposto, singelo contra dobrado, em como este poste vai ser campeão de visitas, a médio prazo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Bibliofilia 35 : O terramoto de Lisboa



É vastíssima a bibliografia sobre o Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, quer de origem estrangeira, quer de produção nacional. Inúmeras obras, em prosa e em verso, dão conta deste cataclismo que teve repercussão europeia, pelo menos.
Praticamente todos os poetas portugueses, vivos na altura, escreveram sobre o Terramoto: de Correia Garção a Pina e Melo, de Jazente a João Xavier de Matos (1730?-1789), entre outros. É deste último, o folheto de 8 páginas de que se mostra o frontispício e o final.
Sendo o tema muito apetecido e procurado, e tratando-se de um folheto (mais frágil e perdível), não é muito comum encontrá-lo à venda. Além disso, acresce o facto de ser, muito provavelmente, a primeira obra impressa de João Xavier de Matos, datada de 1756. Não tenho elementos muito rigorosos sobre o preço e a data em que o adquiri. Creio que o comprei no Porto. E penso que não andarei longe da verdade se disser que me terá custado cerca de 25,00 euros, por volta de 1990.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Macau : um inventário de Bocage



O lado insólito de poemas com números sempre me despertou interesse e atenção. Há-os nas "Poesias" do Abade de Jazente, e Alexandre O'Neill, pelo menos. Hoje, descobri um de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) que andou por Macau, entre Outubro de 1789 e Março de 1790. Provavelmente, terá sido neste período da sua vida, que fez o soneto que se segue:

Um governo sem mando, um bispo tal,
de freiras virtuosas, um covil,
três conventos de frades, cinco mil,
Nh's e chins cristãos, que obram mal;

Uma Sé que hoje existe tal e qual,
catorze prebendados sem ceitil,
muita pobreza, muita mulher vil,
cem portugueses, tudo em um curral;

seis fortes, cem soldados, um tambor,
três freguesias cujo ornato é pau,
um vigário-geral sem promotor,

dois colégios, um deles muito mau.
Um Senado que a tudo é superior,
é quanto Portugal tem em Macau.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Salão de Recusados VI : Auto-Retratos



Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão de altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
de zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Sairam dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage (1765-1805)

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Retrato

Cruel como os Assírios,
Lânguido como os Persas,
Entre estrelas e círios
Cristão só nas conversas.

Árabe no sossego,
Africano no ardor;
No corpo , Grego, Grego!
Homem, seja onde for.

Romano na ambição,
Oriental no ardil,
Latino na paixão,
Europeu por subtil:

Homem sou, homem só
(Pascal:"nem anjo nem bruto"):
Cristãmente , do pó
Me levante impoluto.

Vitorino Nemésio (1901-1978)

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O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada...)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer

___Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
___do que neste soneto sobre si mesmo disse.

Alexandre O'Neill (1924-1986)