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quarta-feira, 15 de março de 2017

Outros tempos


Os tempos são outros, evidentemente, mas a margem direita do Tejo está mais bonita, passeável e amena. Se calhar, tão agradável como Ramalho Ortigão (1836-1915) a pintava, por alturas de 1870. A gente que a frequenta, agora, é que é diferente... Mas voltemos às palavras do escritor portuense, insertas em Correio de Hoje II (pg. 17):

"O Aterro está sendo desde as duas até às cinco horas o passeio predilecto da elegância da Capital. Reunem-se ali muitas carruagens, e muitas senhoras do high-life se apeiam para respirarem a brisa do mar, saudavelmente impregnada nas exalações do alcatrão. É o prazo dado às rainhas do grande e do pequeno mundo, às pálidas estrelas da aristocracia, aos astros rutilantes da finança, e el-Rei vai ali algumas vezes guiar os cavalos da sua carruagem. A senhora condessa de Edla e o sr. D. Fernando escolhem aquele ponto para os seus passeios a pé." 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mercearias Finas 79 : da Ribeira


Não era La Boqueria, mas lembrava, apesar de mais recto e pombalino no traçado geométrico interior. A Teresa tinha a banca pequena bem fornida e a preços tentadores: o polvo, que este ano tem sido generoso a deixar-se apanhar, anunciava-se a 7 euros, os salmonetes e o linguado estavam classificados a 18. Mas fomos no atum, que estava fresquíssimo também e que, de cebolada, foi um pitéu dos deuses, banhado por um Arinto bucelense, Prova Régia, do ano que passou.
A senhora da Padaria, em bata imaculada, rilhou com a faca serrilhada, à minha frente, um bom naco de broa de milho, apetitosa, sobre a banca. E na mercearia, que faz esquina com a 24 de Julho,o empregado fatiou-nos, solícito, um salpicão róseo e limpo de gordura, para saborearmos logo à noite, com a broa.
Não será porventura o melhor de Lisboa, mas o Mercado da Ribeira, neste fim de Outubro luminoso, não precisa de puxar pelos pergaminhos: tem de tudo e de qualidade.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Os poetas esquecidos e a memória dos jacarandás


Na 24 de Julho, os jacarandás já começaram a florir como, lá para Outubro, se hão-de lembrar, como brasileiros de origem, de voltar a florescer, num destino de fidelidade genética imorredoura e fatal, de Primavera sul-americana.
Queixamo-nos, por vezes, do esquecimento que paira sobre alguns poetas, mais sóbrios e discretos que, talvez por sabedoria ou vontade própria, desapareceram sem ruido, na paisagem efémera do tempo. E eu penso que a única forma de os agarrarmos à vida é, no fundo,  trazê-los de cor (coração)  na nossa memória e, no silêncio mais íntimo, silabarmos caladamente os seus versos.
Discretos, esquecidos estarão Saúl Dias e João José Cochofel. Convoquemos este último:

Este nó na garganta
que nem os olhos molha
tem alguma parecença
com o cair da folha.

Despedem-se em silêncio
de coisas sem memória
levadas na poeira
da morte transitória.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Transições


De Alcântara para a 24 de Julho, caíu, subitamente e com nitidez, a noite, como se fosse uma cortina. Nunca me apercebera, assim, desta mudança de luz para sombra. E creio que, nas cidades, esta transição do dia para a noite é muito mais perceptível.
Não pude, por isso, ver ainda os estorninhos nas suas nuvens compactas sobre o Tejo, que se pressentiam já em finais de Outubro, embora em pequenos grupos dispersos. Da janela alta, apenas um ruído de besouro sobre as águas já escuras que, da ponte, eram de azul cobalto. Um helicoptero, ruidoso, a treinar decerto para a reunião da Nato. Em nome da segurança nacional e internacional. Mas o sindicalista dos polícias queixou-se no telejornal que não havia coletes à prova de bala, suficientes. Valham-nos deus e os homens de boa vontade.
Amanhã, levantar cedo. Talvez o melro matutino do Jardim Farrobo se despeça, em serenata, de nós, que vamos para o Norte. A essa hora, ainda os estorninhos não dão sinal de vida.