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sábado, 24 de agosto de 2013

Considerações em volta


Há poesias assim, muito próximas do ar do tempo, muito inseridas no presente, muito inclusivas. Muito a gosto, como os vinhos, prontos para agradar à epoca, de José Neiva (DFJ). Ou que me fazem lembrar os poemas quotidianos de António Reis (1927-1991), que tanto sucesso (efémero) tiveram, pela novidade, nos anos cinquenta/sessenta; ou os primeiros livros de poesia de João Luís Barreto Guimarães (1967), tão berrantemente novos e frescos, nos anos 80/90. Mas, depois, há a espuma dos dias, os poetas decalcam-se e acabam por já não ter nada para dizer. E a gente aborrece-se a ler sempre as mesmas palavras, os técnicos ardis, os serôdios caminhos já muito calcorreados, cheios de pegadas antigas...
Mas demos, sem cinismos, o benefício da dúvida a este "Como uma flor de plástico na montra de um talho" (Assírio e Alvim, 2013), de Golgona Anghel (1986?), que li, pronto e sem fastio. Não dará para recomendar, mas justifica que se lhe dê notícia. E até se transcreva um poema:

Ninguém recusa uma boca rica,
nem mesmo quando ataca, de perto,
com aquela pedalada de puto esperto
que bebeu mais coca-cola do que devia.
Não está tudo perdido:
a chuva alinha o tempo nas goteiras.
Daqui a quatro anos vou ser formada
em copos vazios,
olheiras
e cadeiras molhadas.
O céu abrir-se-á
como um par de calções
num parque de estacionamento.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Divagações 40


Por vezes, o acaso vem ter connosco. Para bem ou para mal.
Porque há vidas que se infernizam nos últimos anos, pela cupidez dos outros, à volta (nem será preciso citar Sartre), e por jogos de poder, tantas vezes, sinistros. Por onde as máscaras caem de vez, definitivamente. Mas há outros infernos a que somos poupados pela morte, pelo seu silêncio apagado - que não ouve, mais. Pelo caminho há sempre amizades que se perdem, filhos que naufragam, impossíveis afectos destroçados.
Mas foi com alegria discreta que sopesei e folheei, ao fim da tarde, o primeiro livro da reedição da obra de Eugénio de Andrade, com prefácio de Gastão Cruz, editado pela Assírio e Alvim. E o dia cumpriu-se, bem.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

As pequenas esperanças


Quase no final deste annus horribilis português de 2012, em que até os burlões mais nefandos (BPN) se podem dar ao luxo de passear, alegremente, pelas avenidas ensonadas (para não dizer complacentes ou, mesmo, cúmplices) da Justiça (?) lusa, há uma ou outra "pequenina luz bruxuleante" (Jorge de Sena) que não nos faz desesperar de todo.
É notícia, hoje, nos jornais, a tomada de responsabilidade da Câmara Municipal do Porto, sobre o espólio da Fundação Eugénio de Andrade, extinta em 2011, em parceria com a Biblioteca Pública da cidade. Atitude louvável e nobre de uma instituição, num país em que os bons exemplos escasseiam e onde a Cultura é mandada para as urtigas, por grande parte dos políticos.
Mas também é preciso dizê-lo, o duelo do protagonismo à custa do alheio, de uns, e a cupidez material, de outros, foram maioritariamente responsáveis pela liquidação da Fundação Eugénio de Andrade. Gentinha chula que se quis apoderar e viver à custa de um Nome.
A reedição da obra do Poeta pela Assírio e Alvim (grupo Porto Editora) é, também para mim, um motivo de júbilo e a garantia isenta da continuidade daquilo que, de bom, grande e nobre, Eugénio de Andrade nos deixou, para sempre.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Bibliofilia 52 : Herberto Helder


Tenho tido ocasião de verificar com alguma surpresa que, apesar da crise que nos atravessa, os valores de livros menos frequentes ou raros, em leilões ou em alfarrabistas, não têm baixado de preço. Pelo contrário, têm evoluído para mais caros. Será que passaram a ser uma forma de investimento?
É sabido que, na bibliografia de Herberto Helder, há algumas obras, de pequena tiragem, que atingem preços elevados, em leilões, porque também são apetecidos por muita gente. Para não falar do ainda recente cambalacho, em Setembro de 2008, aquando da saída do último livro do Poeta, "A Faca não corta o Fogo" (Assírio & Alvim), com o açambarcamento e reserva, por parte de "algumas pessoas", dos volumes da edição. De tal forma que, na data do lançamento, o livro já estava esgotado. E a tiragem era de 3.000 exemplares, imagine-se!... Posteriormente, foram vendidos à socapa, muito mais caros...
Mas a obra que eu queria abordar hoje é "Apresentação do Rosto" de Herberto Helder, com capa de Espiga Pinto (em imagem), editado pela Ulisseia, em 1968. Comprei esta primeira edição, usada, mas em boas condições, em Lisboa, no final dos anos 80, por Esc. 400$00 (cca. 2,00 euros). Em Julho de 2006, o boletim bibliográfico de Luís Burnay anunciava (lote 240) um exemplar igual, também brochado, ao preço de 130,00 euros. Ontem, recebi o 11º Boletim Bibliográfico da Livraria Antiquária do Calhariz (de José Manuel Rodrigues) em que o lote 304 é, também, "Apresentação do Rosto", de Herberto Helder. E o preço de venda, do volume brochado, é de 190,00 euros. Ou seja, soma e segue.