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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Por falar na Arrábida, as aves...


O sossego de terra deserta faz daquela ponta de areal o paraíso das aves marinhas, que no tempo primaveril vêm brincar para as praias abandonadas, principalmente do lado do rio, e ali chapinham na água, correm à desfilada pela areia dura da baixa-mar, ou aprazidamente se catam ao sol, gozando a tranquilidade dos entardeceres tão lúcidos e silenciosos. Os maçaricos andam aos bandos, correm num passinho lépido, levantam em voos súbitos; as gaivotas pairam alto, ou poisam à beira das ondas, paradas e soturnas; mas entre a bicheza que por aqui abunda, a mais cativante é decerto a garça, de uma alvura estreme, compassada e mesureira no seu andar de bicho pernalta, quedando-se às vezes estática, a remirar-se, a presumida, no espelho de alguma poça. Parece um reino encantado. O mar, o céu e a praia, o fresco hálito salino que de tudo transpira e a espaços se alterna com o respirar resinoso das matas próximas, sobretudo o sossego e isolamento, tão apetecido destas aves, suspicazes em seus modos, ao mesmo passo que serenas, tudo imprime ao lugar um sabor edénico - surpreendente e aprazível cantinho de um mundo de sonho.

Manuel Mendes (1906-1969), in A Sul do Tejo (pgs. 55/6).

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Microclimas


Antes da criação do Mundo, era o silêncio e não o verbo. Deus deve, verdadeiramente, saber o que é isso. E a culpa do ruído é dele, talvez por necessidade de um contraditório. Ou porque se aborrecia imenso...
A Natureza fala por si, discretamente e sem estridências, mas nós, redundantes seres humanos, temos, quase sempre, a veleidade de lhe acrescentar qualquer coisa, de inútil - não resistimos a discretear sobre ela. Pouco acrescentando - diga-se de passagem.
Este ano, haverá por certo bom queijo de Azeitão, que os pastos verdes vão pródigos e grandes, em volta da Vila Fresca e Vila Nogueira, por onde andou, na simpreza dos seus últimos anos, o Zeca Afonso. Lembrei-me dele, quando por lá passei, e imaginei o quanto ele gostaria de ter vivido estes dias de agora, tão ricos e interessantes.
Estendem-se as ervas verdes tenras, por baixo dos olivais, vinhedos e pinhais, até muito perto de começarmos a subir para a Arrábida. Até aí, as ovelhas retouçam, felizes. Depois, é só vegetação rasteira, arbustiva e densa, pelas escarpas roqueiras. O mar limpo faz a sua aparição, no horizonte, e começa o seu duelo com o azul do céu. Assistimos, em silêncio, ao que parece um milagre.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Situar o horizonte


A paisagem subjacente. A linha paralela junto ao rio, em frente, é quase rasa. Vem do Montijo, e só pelo Barreiro se interrompe, por algumas chaminés altas, fabris, no horizonte da terra ribeirinha, que acaba pelo Seixal. Em segundo plano, ao fundo e atrás, a linha sobe em direcção ao céu, por alturas de Palmela e do seu castelo roqueiro, seguindo, depois, crescente em direcção à Arrábida, que não vejo.
É na direcção de Palmela, mais próximo de mim, embora distante ainda, que eu posso ver, por entre mansardas e telhados lisboetas, num rectângulo muito irregular, o Tejo. Que vai azul cobalto, e corre tranquilo, sem ondulação aparente. E por inteiro, se não fora um cacilheiro que lhe fendeu as águas, numa linha branca de espuma, seguindo diagonal na direcção do Barreiro.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Recuperado de um moleskine (9)


As nuvens intercaladas mais parecem gretas milenares de um vulcão extinto e silenciado. Mas face a esta laranja afogueada, que vai nascendo, crescendo e subindo, de Leste, haveria que contrapor-lhe alguma música mais suave, para poder entrar no dia, mais devagar.
Para a direita, a Arrábida está envolta numa neblina de algodão macio, e o Seixal ribeirinho vai pelo cinzento azulado, com as águas. As aves fazem silêncio e nem se vêem. Nuvens glaucas apagam, por momentos, o incêndio solar. E um azul, lavado e claro, vai-se caldeando no pós-cénio e ataviando o dia para entrar.
É então que, surrealmente e à la Serna, me vem à voz e do fundo de mim mesmo, perante estas mudanças, no horizonte, uma definição de molusco: simbiose de gelatina e músculo, visível ao lusco-fusco.
Inexplicavelmente...

terça-feira, 13 de maio de 2014

O estado do mar


O passado é uma história que nos contam: como na ficção, podemos acreditar, ou não...
O mar da Areia Branca, ontem, estava ligeiramente picado e com muitos "carneirinhos", mesmo ao longe. Três pequenos (?) barcos distantes vinham de norte para sul, talvez na faina da pesca, e não havia surfistas a praticar a sua actividade desportiva. Cinco banhistas, dos quais 3 tomaram banho apesar do vento forte e frio, ocupavam a praia deserta, abrigando-se junto ao pequeno muro, a norte.
Mas o que mais singulariza este mar da Areia Branca é a sua cor. De um azul cobalto carregado, que talvez só tenha paralelo em postais dos anos 50, com cores excessivamente fortes e irreais. Quase não dá para crer. Ao pé dele, o mar da Arrábida pareceria retintamente verde alface ou, quando muito, azul bebé...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Paisagem da manhã, no terceiro dia


As cores começaram a ganhar alguma nitidez apenas hoje, depois da penumbra leitosa que ensombrou tudo, nos dois primeiros dias do ano. Já a serra da Arrábida se tintou, irrealmente, de azul escuro e o casario ribeirinho do Seixal escolheu o branco para se afirmar, ao longe. Algum verde se espalhou, disperso e vegetal, por entre as construções humanas outrabandistas. Só o Tejo parece um lago gelado e quieto, sem perturbações crispadas de vento. Mais um espelho, mas baço ou embaciado da humidade ou chuva persistente que caiu.
Também o céu tenta, com dificuldade, reconquistar o azul que perdeu, mas que se encontra recoberto de fiadas e fiadas de nuvens brancas, numa mancha difícil de vencer.

domingo, 27 de outubro de 2013

Azul


Dos azúis superiores, no alto sobretudo, há que ter muita atenção a vê-los - diacrónica e sincrónica. Se não, perdemos os pormenores, os nomes específicos e o que há de melhor. E não haverá outra vez, creio...
Escolha-se o Outono português, nas suas cores melancólicas e dos poetas nostálgicos. E temos, nada menos, de pelo menos três: o azul pálido (talvez porque o Sol anda cansado), o azul bebé e o azul cinzento que se quadra bem com as elegias.
Regressa o Verão, e a gama é mais rica: o azul vibrante dos postais turísticos, o azul cobalto (muitas vezes, nas águas do Tejo), o verde azul  de alguma folhagem que nos dá sombra, e ainda o ultramar e o azul violeta. E, isto, se não recorrermos aos ingleses e alemães que, classificativos, minuciosos e atentos, registam ainda: o azul prússia, o indigo, o azul régio, o azul mirtilo...
E ressalve-se a imodéstia subjectiva de eu dar nome a um azul inconfundível: o azul-arrábida, que se pode ver, de Verão, no céu e nas águas límpidas e oceânicas do Portinho e arredores marítimos, onde já não vou há muito.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Produtos Nacionais 10 : Arrábida


Quantos de nós, portugueses, nos deslocámos tanta vez ao estrangeiro, sem minimamente conhecermos a zona da Arrábida ou, mesmo, sem nunca lá ter ido?
E, no entanto, ela está lá desde sempre, com a sua extrema biodiversidade, as suas águas límpidas, ao fundo, a sua beleza enorme que já Fr. Agostinho da Cruz, em pleno séc. XVI, num soneto, cantava assim:

Dos solitários bosques a verdura,
Nas duras penedias sustentada,
Nesta serra, do mar largo cercada,
Me move a contemplar mais formosura.

Pois é esta Arrábida que se vai candidatar a Património Mundial da Humanidade (Unesco) e cujo vídeo de apresentação de candidatura, aqui deixo. Embora longo (cerca de 47 minutos), vale a pena vê-lo.

com os melhores agradecimentos a AVP.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Verde azul


Na terceira linha do horizonte, depois do rio e da mancha alta e cinzenta da Arrábida, as nuvens assumem um espantoso verde azul, improduzível, que, creio, nem Turner descobriu - decerto. Também o vejo pela primeira vez, que me lembre. Entre o fundo da terra e, mais alta, a cor banal do céu, com os habituais branco, azul e esparsos fiapos de nuvens róseas, este raro verde azul, ao fim da tarde. Será o raio verde de que fala Júlio Verne, mas numa exposição alongada e demorada?
Quanto aos estorninhos já sei que, o mais tardar, às 17,30, desaparecem do horizonte e deixo de os ver. Mas não sei para onde vão.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A dieta do Ermita



Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), que foi, no século, conhecido por Agostinho Pimenta, era irmão de Diogo Bernardes e terá nascido em Ponte da Barca. O rio Lima, o Tejo e, finalmente, o Sado aparecem referidos na sua obra, mas é a Arrábida o cenário mais marcante dos seus poemas. Foi na serra que viveu os últimos anos da sua longa vida, e aí morreu a 14 de Março de 1619. Tinha vestido o hábito de capuchinho em 3 de Maio de 1560. Teria escrito poesias profanas, antes. Mas o que dele se conhece é, grandemente, de índole religiosa. A sua curta obra foi editada, pela primeira vez, em 1771. Em 1918, Mendes dos Remédios juntou-lhe o chamado "manuscrito conimbricense", o "manuscrito portuense" da Biblioteca Municipal do Porto, e fez publicar as "Obras de Fr. Agostinho da Cruz", em Coimbra. Em 1971, Aguiar e Silva, no seu livro "Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa", expurgou ou pôs, em dúvida, algumas das poesias que eram atribuídas ao frade capuchinho. Mesmo assim, o que dele fica, dá para perceber a fina sensibilidade de Poeta que foi, e o seu ritmo fluído, original e intenso. Da elegia V ("Ao fim da vida") retiramos alguns tercetos, onde também fala de vários mariscos, entre eles as perceves que, julgo, pela 1ª vez aparecem na poesia lírica portuguesa:


"...Tudo me cansa, já, tudo me peja,
E pouco basta já para suster
O pouco que da vida me sobeja.

A praia tem marisco que comer
Ameijoas, berbigões na branca areia,
Que facilmente posso revolver.

A pedra que dos mares se rodeia,
Cheia de lapas pardas aparece,
De negros mexilhões inda mais cheia.

A vermelha santola não falece,
Outro com seu pé curto revirado,
Seu não, antes de cabra me parece.

E, quando se mostrar muito alterado
O mar, que seu marisco me defenda,
O bosque está daqui pouco afastado.

Quer suba a planta nele, quer se estenda,
Escolherei no ramo o mais maduro
Fruto sem dano alheio e sem contenda..."

segunda-feira, 15 de março de 2010

Arrábida sacro-profana



Século XVII : Elegia II, da Arrábida


Alta serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda.
E doutra já salgadas as do Tejo:

Aquela saudade, que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saudosa, e branda?

Daqui mais saudoso o Sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo se reparte...

Frei Agostinho da Cruz



Século XX (196?) : Arrábida


A solidão apurada,
firme gume frente à serra

onde nascemos, e o nome
que recebemos da terra.

Alberto Soares



Século XXI (15/3/2010) : Portinho da Arrábida


Segunda-feira de (quase) Primavera. De tal modo ameno era ficar na esplanada deixando pairar o olhar pela beira-mar. Verdes e azúis até ao infinito. Atrás: a pousada explorada, nos anos sessenta, pelo irmão de Sebastião da Gama, é pertença, agora, da "Casa do Gaiato". O mar puríssimo, ainda de Inverno mas, hoje, sereno, é perturbado apenas pelas vorazes e visíveis taínhas. Não havia hipocampos à venda. Nem vestígios de Frei Agostinho da Cruz; de Sebastião da Gama, apenas um pequeno obelisco, à margem da estrada, e os meus anos juvenis já vão tão longe... Ficaram estes azúis infinitos: escuros, verde-azúis, celestes, pálidos onde o mar toca o azul claro do horizonte. Azul-arrábida...